sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Dor que dói

Ontem fui retocar a tatuagem e fiquei divagando sobre a dor.
Toda vez que estou ali, fico pensado porque diabos eu fico levando agulhada daquele jeito, por que que eu invento essas coisas. Eu não gosto da dor. Nem da dor física nem de nehuma outra. Faço de tudo pra passar logo, pra acabar com o sofrimento porque sofrer, pra mim, é uma boa merda.
Lembro quando eu estava em trabalho de parto de meu primeiro filho, uma dor lancinante, um nó nas tripas, eu comentava com a enfermeira que eu entendia as mulheres que tinham filho, só não entendia elas terem mais de um! Como é que alguém passar por isso duas vezes??Três? Sete vezes?
Aí a negra e gorda enfermeira, cheia de ternura, me diz:
-É que Nossa Senhora pasa a mão na testa de toda mãe e traz o esquecimento.
É verdade. O esquecimento é uma benção.
Eu esqueço das dores. E muitas vezes, como quando estou retocando a tatuagem, me lembro da dor somente quando ela me aperta todos os nervos e eu percebo que já passei por isso mas esqueci. Ou fiz questão de esquecer.
Tenho acompanhado um processo doloroso de uma pessoa bem próxima. Essa pessoa sofre, berra, se contorce toda mas me parece que Nossa Senhora está cagando e andando pra ela porque o esquecimento não vem e a dor continua. Eu já acho que essa pessoa gosta de sofrer porque alimenta a dor, rega a sementinha do sofrimento com milhares de lágrimas, aduba a terra com todas as merdas que fez, mexe e remexe na história, ilumina com a luz da verdade. Chora, chora e chora. É a dor que a faz se sentir viva e pulsante. Sem dor a vida seria uma forma de morte.
Estranho demais isso. Minha vontade é dar na cara com toda a força pra que sinta uma dor mais real porque sou um tipo de troglodita emocional, o drama me irrita, a fraqueza me irrita, a falta de esquecimento me irrita. Não sou uma boa companhia para os sofredores compulsivos porque eu acho que procurar a dor, alimentar a dor é coisa de masoquista. Dou colo por duas, três horas, depois já me dá vontade de sacudir os ombros, esbofetear. Sou simples demais para entender as complexidades do mundo emocional de cada um. Acho que sou um tipo de escrota sem paciência.
Eu estava lá sendo espetada outra vez e pensava comigo mesmo:
-Você quis isso, você inventou essa história, agora aguente e aguente com elegância e sem frescura.
Assim fiz. Mas chegou uma hora que o tempo de suportar chega ao limite. Não quero mais essa sensação. Não quero mais essa dor. E aí pode ser o Papa, pode ser Nossa Senhora ou o próprio tinhoso quem está me causando a dor, eu dou fim naquilo. Chega! Não quero mais sofrimento.
Um direito meu. Me dá vontade de brigar, de cortar, de acabar porque eu, definitivamente, não gosto de sofrer. Mesmo quando eu sei que o sofrimento é inevitável.
Ouço dessa pessoa sofredora que eu sou "diferente"!, que sou forte demais, objetiva demais por isso ajo assim, mas na verdade é exatamente o contrário. Minha resistência ao sofrimento é mínima por isso evito essas situações. Não é fortaleza e sim a mais simples fraqueza que me torna forte. Não tenho medo de sofrer, simplesmente não gosto disso. Se é inevitável ( como aquele momento em que retocava a tatuagem) eu enfrento, tento facilitar o processo para que possa tudo correr o mais rápido e chegar logo ao fim daquilo. Mas definitivamente eu não gosto de sofrer.
Mas tem gente que gosta.
E isso me surpreende deveras e eu sinto um anseio louco de ajudar. Dando na cara mesmo. Quer sofrer? Então vem cá que eu vou te fazer sofrer...E o pior de tudo! Quem é " masoca" adora minhas truculências! Sofre feliz do meu lado e eu fico louca com isso!
Poxa, como esse mundo é confuso e cheio de diferenças.
Difícil lidar com as diferenças.
Muito difícil.
Difícil lidar com a dor.
Mas eu penso que passo pelo que passo pensando no resultado final. Tô ali sendo toda furadinha porque resolvi que queria uma tatuagem no corpo. A dor não é em vão. É somente o preço que tenho que pagar.
Não entendo o sofrimento vão.
Não entendo mesmo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Existe dois tipos de pessoas:as que gostam de sofrer e as que gostam de fazer sofrer.
Você, obviamente, está no rol dos que gostam de fazer sofrer, já que tem ímpetos de dar na cara!
O que você pode fazer é NÃO dar na cara deles! Assim eles sofrem ainda mais!
hahahahhahahahahahahhahahahahahahha

Arnaldo disse...

Tem gente que gosta de sofrer? Não sei não. Acho mesmo é que tem gente que gosta de mostrar que está sofrendo, pra ver se consegue arrancar um pouco de piedade de outras pesoas. E essa gente que fica querendo arrancar nossa piedade na marra, essa gente não consegue ser feliz, ficar alegre, talvez por falta de treino, talvez por falta de tesão.

E a pior dor é sempre a atual. E é sempre a nossa. Uma dorzinha no dedinho do meu pé, que eu esteja sentindo agora, é sempre pior que a pior das dores que eu já senti e que já passaram. E é pior que a pior das dores que qualquer outra pessoa possa estar sentindo. Não tem jeito. A dor é egoísta!

FIGBATERA disse...

O Arnaldo foi "na mosca"; eu tb sempre falei isso: a pior dor é a que a gente está sentindo.
Por mais que outros estejam sofrendo e a gente se sinta mal com isso, a pior dor continua sendo a nossa própria.
E já tendo tantas das quais não se pode escapar, pq tem gente que inventa modos de sofrer - fazendo tatuagens, por exemplo, né?