segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Entrevista com Marina Franco


Hoje teremos uma conversa com minha querida amiga Marina Franco.
Eu, definitivamente, tenho muita sorte em ter tantos amigos talentosos e posso apresentá-los assim, cheia de orgulho.
Marina é atriz, jornalista e escritora. Não estou dizendo que é só pra encher lingüiça! Ela é mesmo! Faz tudo isso!
Mãe de João, cunhada de Fernanda Dias, companheira de Zé, filha de Márcia e de João Paulo, um grande músico de Campinas.
É uma mulher que nasceu na arte, vive no meio dela e produz muita arte à sua volta.
Acabou de lançar seu segundo livro chamado " Alberto que era Santos Dumont", pela Editora DCL, estava em cartaz há pouco com uma peça divina chamada "Bruxas e Fadas" trabalha em horário normal, como gente normal e ainda tem tempo pra responder às minhas perguntas. Por isso que sua pia nunca está completamente limpa e ela nem liga, assume que não tem saco para afazeres domésticos, não se deixa estrangular pela obrigação de ser uma dona de casa perfeita.
A gente é que ganha com isso.
Segue aí a nossa conversa.


Marina, eu queria saber como você se vê, como se define.
Sou tragicômica, bipolar, confusa, mutante e contraditória. Sou capaz de mudar de opinião em um segundo. Sou volúvel e não tenho personalidade definida.

Você acha que ator é meio esquizofrênico??
Sem dúvida, mas é uma esquizofrenia necessária. Faz parte do processo de
pesquisa de criação da personagem: você tem que criar outra personalidade,
observar, imitar, entrar em outro espaço intelectual. É uma esquizofrenia bacana.


Escritor é um egoísta e um fingidor? Um punheteiro das letras?
Os bons escritores não.
Existem escritores generosíssimos. Você lê um Mário Quintana e se embebeda de simplicidade, de beleza. Você lê Clarice Lispector e se perde no subconsciente das personagens que ela cria, é algo íntimo e universal ao mesmo tempo. Você não pode dizer que uma pessoa que produz uma obra dessas seja egoísta. Ela está ali, dissecando a própria alma, se desnudando e desvendando os labirintos do ser humano. Acho que os egoístas, os fingidores e os punheteiros são os escritores ruins, que não tem nada a dizer.

É verdade que todo ator é viado?
Na verdade eu acho que todo mundo, ator, poeta ou administrador de empresas, pode ter uma relação com alguém do mesmo sexo. Qualquer um mesmo. A atração física, o tesão e até o amor vão além do fato do outro ser homem ou mulher. Acredito nisso.

Você sofre por ficar entre as profissões de atriz e jornalista? Tem crises, quer largar tudo, se arrepende das escolhas que fez?
Já sofri mais, já me arrependi mais, já chorei mais. Ano passado virei executiva-laptop-ponteaérea e não conseguia fazer teatro. Quase definhei. Hoje consigo conciliar as duas coisas de maneira satisfatória. Acho que encontrei um equilíbrio, mas é difícil. Me desdobro em quinhentas para conseguir ser jornalista, atriz, escritora, mãe, esposa.
É um puta desafio.

Você acabou de lançar o segundo livro. Dá pra ganhar dinheiro com o mercado editorial, daria para viver disso? Ganhou com o primeiro?
( risos sarcásticos )
Foi piada? Não, não dá para ganhar dinheiro com livros. Se você não é o Paulo Coelho ou o Dan Brown ou a moça do Harry Potter, é bom que você concilie sua atividade de escritor com alguma outra. E como eu não escrevo para as massas, então, é melhor eu continuar fazendo outras coisas. O esquema de royalties ao qual se submetem os autores, pelo menos os iniciantes, é extremamente injusto - ganho em média um por cento do preço de capa de cada livro meu vendido. É muito pouco, mesmo que seja uma vendagem boa. Ganhei uma grana boa com o primeiro , que teve duas edições, e o segundo está indo bem. Mas não dá para se sustentar com isso. E mesmo assim, ainda tenho que agradecer por ter uma editora bancando e produzindo minhas obras. Porque tenho muitos amigos escritores que nem isso têm.

( comentário informativo:
Marina lançou, com grande sucesso, o livro As Aventuras de Paulinho, pela mesma editora. Vale conferir também)

Você escreve livros paradidáticos. Sempre quis isso ou aconteceu? Como foi?
Escrevo para crianças - a linguagem paradidática aconteceu a pedido da editora...mas já estou trabalhando em um novo livro que será só literatura, sem paradidatismo

A pergunta padrão deste blog:
você daria para o Chico Buarque?
Numa situação hipotética, ou seja, se o Chico fosse realmente aquele Chico que está em minha cabeça – eu daria com certeza. Numa situação real, com olho no olho, cheiros, papos, não sei. Vai que ele tem mau hálito? Os mitos tendem a não ser aquilo tudo que imaginamos. As expectativas sempre caem por terra.

E para quem mais?
Acho que para o John Lennon, mas acho que é uma atração intelectual, mais do que física.

Levaria a Yoko junto?
( risos) Não, só eu e John, meu bem.

Você é mãe do João. A maternidade muda muito a vida e a cabeça da mulher. O que você acha que mudou em você, depois do nascimento dele?
Ai, mudou tudo. Mudou tanto. Eu quero toda hora voltar ao que eu era antes, mas sem abrir mão de ser mãe do João. É possível isso? É tudo muito foda e muito bom ao mesmo tempo. Inexplicável.

Você é casada com um músico. Te incomoda ficar fora do palco, olhando ele tocar, vendo aquela mulherada sem vergonha dar em cima dele? Tem ciúmes?
Olha, eu sou toda classuda, finjo que finjo que não sei, mas no fundo sou uma leonina inveterada. Adoro marcar território, faço xixi na cara delas, se for necessário. E o mais engraçado é que, normalmente, o Zé não está nem aí pra elas.

Ele deve fazer o tipo sonso. São terríveis, esses.
Já bateu em alguém?
Nunca, sou uma mulher de nível, meu bem. Prefiro porrada intelectual. Além do mais, eu tenho você de amiga, né?

É!!
(perceberam que eu, pelo jeito, não tenho nível- essa fama é que me fode!)

Já apanhou?
Não, mas por sorte, porque sou folgada pra caralho. Olho, provoco, dou risada alto. Sempre tem alguém querendo me bater, porque eu tenho cara de metida.

Qual teu maior vexame profissional?
Já organizei uma coletiva de imprensa em que não apareceu um jornalista sequer, fiquei lá, com cara de tacho, olhando para o cliente. Foi horrível. Como atriz, já fiz muito comercial de supermercado na adolescência, muita coisa ruim.


Tua peça é linda. Você no palco tem um grande carisma, uma expressão de felicidade que contagia a gente. Você se acha uma atriz carismática ou é técnica?
Sou pura emoção, não tenho técnica nenhuma. Choro, rio e me emociono com a personagem, eu amo estar no palco.

Como você começa a escrever um livro? Como é teu processo criativo? Você sofre? Eu sofro que nem o cão!
Escrever para mim é fácil, difícil é viver. O Vinícius disse isso, acho. Eu sofro com a vida. A arte flui naturalmente, o processo é feliz. Mas a matéria-prima são os sentimentos. Meus poemas maiores e mais tristes nascem num cuspe, num processo rápido e indolor.

A sua imitação do Jorge Ben é um das coisas mais engraçadas que eu vi em toda a minha vida. Infelizmente, não autoriza a gravação para incluir no youtube. Uma pena porque seria um sucesso.
Essa tua falta de capacidade para o canto é natural ou herdada?

(risos) É natural, porque meu pai foi um grande músico. Mas eu realmente não tenho talento pra cantar. Me sinto péssima com um microfone na minha frente. Já cantei muito no teatro, acho que aí até funciona: um músico ensaia comigo um milhão de vezes, me dirige, até sai. Mas é um parto, não é uma coisa natural, não é como você, a Fê, a Reganelli, não vem da alma, não é da minha natureza mesmo.

( Outra fofoca: Marina canta para o filho como se fosse cantora de ópera. Não sei o que será do coitadinho. Ainda bem que ele tem o Zé e a Fernanda para equilibrar)

Se eu te oferecesse um grana alta para você me autorizar a mostrar esse vídeo, você aceitaria? Coisa grande, grana alta. Qual é teu preço?
Por nada neste mundo...eu tenho senso de ridículo

É tão bom aquilo..que pena...
Eu preservo a minha imagem...imagina se fico famosa e aquilo lá no youtube? Ia perder meus contratos milionários!

Indo mais além na sua vida emocional. Onde dói a saudade de teu pai?
A parceria artística. Ele me mostrava tudo o que compunha, eu mostrava tudo o que escrevia. Os longos bate-papos sobre todos os assuntos. A inteligência afiada dele. E muitas outras coisas.

O que você está lendo agora?
Faz oito meses que estou lendo a biografia da Carmem Miranda, do Ruy Castro.
Esse negócio de ter filho faz a gente colocar a cabeça no travesseiro e apagar. Estou menos literata. Mas tem coisas que eu não abro mão, como ler poesia, por exemplo. Estou sempre com um livro de poemas me acompanhando. Já grudei em Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Hilda Hilst. Me perco mesmo.

O que você ouve em sua casa? Que tipo de música?
Puxa, tenho grande sorte de ter tido pai músico e hoje ser casada com um músico maravilhoso, que tem um gosto musical apuradíssimo. Ouvimos muita música clássica, como Bach, Debussy, Villa Lobos, Mozart, Chopin. Também ouço, desde a infância, muita música brasileira, só coisa boa. Desde os antigos - Cartola, Noel, Pixinguinha, passando pela bossa nova, samba, Chico, Tom, Tom Zé, Dorival Caymmi, Baden, música instrumental, Hermeto, Duo Assad, Yamandu, Paulo Moura, tudo quanto é chorinho, além das cantoras maravilhosas como a Nana Caymmi, Badi, Luciana Souza, Mônica Salmaso, Ná....aiaiai, é tanta gente. Não descrevi aí nem um décimo do que eu ouço. Além dos amigos talentosíssimos, que tenho o privilégio de ouvir nos bares e em casa, de camarote: você, os Mandorovás, Taïs e Henrique, a Fê...é uma galera que tem muito talento pra compor, adoro assisti-los, fico cantarolando suas músicas, sou fã mesmo.

Você acredita em praga de madrinha? Mau-olhado? Encosto? Macumba?
Sou muito cética, não acredito em nada. Mas que pega, pega!

Qual é teu maior objeto de consumo?
Coisas culturais: livros, CD's, peças de teatro. Ah, também adoro SPA, massagens, essas coisas ZEN, de relaxamento.

Um sonho possível.
Meus sonhos hoje são muito mais para as pessoas ao meu redor do que para mim mesma. E não é uma questão de "ser boazinha", é porque me sinto realmente feliz e realizada com o que tenho. O que eu quero é que meus amigos músicos e atores consigam sobreviver de sua arte com dignidade, que minha mãe volte a sorrir e que meu filho tenha uma infância tranqüila.

Um impossível.
Que todas as pessoas do mundo, sem exceção, sejam menos mesquinhas, que sejam mais críticas, que valorizem mais a arte, que tenham olhos mais frutíferos.

Você colocaria silicone? Onde e por quê?
Não colocaria em lugar nenhum, mas tiraria algumas coisas - vivo brigando com a balança, engordo e emagreço com muita facilidade.

Você prefere seus peitos ou sua bunda?
Olha, se fosse antes de amamentar, eu diria meus peitos, mas agora eu acho que é a bunda, porque a amamentação deu uma derrubada neles, tadinhos.

Um medo terrível

Não tenho nenhum medo terrível, meus medos são bobos.

(Mentira. Ela tem medo de barata que eu sei. E é um medo terrível.)

Uma certeza absoluta
De que não existem certezas absolutas, cada vez mais eu questiono tudo ao
meu redor, ando num barato física quântica, relatividade, realidade paralela, uma piração.

Você acredita em relação aberta?
Acreditava, sempre fui muito liberalzinha, achava que um casal poderia muito bem separar amor de sexo e transar com outras pessoas de vez em quando, para manter a "paixão" acesa. Até me apaixonar pra valer. No momento, estou super monogâmica, nem tenho vontade de olhar para o lado. Mas ainda acho que o ser humano não é monogâmico por natureza.

Tem alguma coisa que você sempre quis fazer e ainda não conseguiu realizar?
Sim, viajar para outros países.

Quais?
Adoro a Itália e a Grécia. Itália por ser o berço da minha família, na região da Sicília, os mafiosos, queria conhecer esta origem...sem contar a cultura, a gastronomia. A Grécia pelo teatro.

Como você gostaria de ser lembrada após a sua morte?
Pelo trabalho que realizei (e ainda vou realizar) com crianças - teatro e
literatura infantil.

A última perguntinha.
Imagine a cena: ( tô super mexicana hoje)
Você no seu leito de morte, João ainda menino, ajoelhado ao seu lado, os olhinhos úmidos e vocês se despedem. Que conselho deixaria para ele?
Meu filho, viva o presente - não conjecture demais sobre o passado e o futuro. Tenha coragem e lute pelas coisas, nada nesta vida vem fácil. Valoriza a arte, a família e os amigos, esqueça bobagens como louros, dinheiro e glória...isso tudo é banal. Seja simples. Namore bastante, viaje e leia muito.
É isso.

Só Marina para no leito de morte dizer " não conjecture" para o filho!!
Ha ha ha ha
Essa é a minha amiga!

20 comentários:

Vivien disse...

não conjecture foi ótimo...rs
Adorei a entrevista, bj.

Marcus Mazzuia disse...

Adorei a entrevista e o seu blog...

Fiz um comentário lá no meu blog...passa lá
Bjokaas

Marcus Mazzuia.
Pensar muito enlouquece...
http://mmazzuia.blogspot.com

Anônimo disse...

Menina, que foto é essa?
Adorei ser entrevistada, me senti no programa da Marília Gabriela.
beijos, querida!
Marina

Tatiana disse...

Marina,
Eu achei você tão linda nesta foto!

Anônimo disse...

Tati, muito legal essas entrevistas.continue.tô adorando.bjos.
Elder

Anônimo disse...

Oi Tati, muito bacana essas entrevistas!
Não costumo visitar o blog sempre, mas cada vez que você avisa de uma nova entrevista eu corro lá pra ler! :-)
Pode entrevistar muito mais gente que sua idéia de ser entrevistadora foi ótima!!!
beijos,
Caveira

Anônimo disse...

Grande Tatiana Rocha, tudo bem?

Adoramos essa sua idéia das entrevistas.
Não deixamos de ler uma única. Tanto eu como a Angélica.
Abraços e sucesso para todos nós.

Alexandre e Angélica Aranha

Tatiana disse...

Me mandaram pelo e-mail e eu colei aqui.

Bruno Ribeiro disse...

Tati: hoje estarei em casa mais tarde, querendo combinar algo me liga ou entra no msn.

besos

Anônimo disse...

Linda morena, essa Marina

Carlos disse...

Muito boa mesmo a entrevista. A Marina foi de alto nível do princípio ao fim.
Abraços e beijos

aline disse...

Eu mooooooooooooorro de medo de barataaaa!! É terrível mesmo! Hahahahahahaha...
Adorei a entrevista!
Beijos!

Fernanda Dias disse...

marina, cunhada linda!
adorei!
divertida e esperta!
muito bem, cú!
beijos pra vc e tati

Anônimo disse...

Muito bacana mesmo! Parabéns!
Ale

Ronaldo Faria disse...

Te mandei um e-mail. Obrigado pela preocupação. E CUIDE-SE! Sempre.
Beijos
Ronaldo Faria

AleXXX disse...

De blog em blog acabei aqui. Bacana, bacana também a história de entrevistas avulsas e informais, que também vi no blog que me fez chegar até aqui, que, por sinal, era vc a entrevistada. Quantas ramificações!
Bjs

quina vida disse...

queria saber que peça é essa que ela faz, que grupo é...

pois é... nós temos olhos para as nossas coisas e nossos interesses né? sei que estou sendo egocenttrico. mas de qualquer forma, adorei a entrevista. tatiana, está se saindo bem!

Anônimo disse...

Gente, a entrevista foi divertida, mas a Marina viaja mesmo: "filho, não ligue para louros, mas viaje". Como? De carona???????????

Ivan Carlos disse...

hahahahahah achar a Marina sem querer foi engraçado, virei fã³ da minha colega de trabalho, embora ainda não tenha tido a honra de poder comparecer a alguma peça sua...

bjus!

Chong disse...

Cool!