segunda-feira, 13 de outubro de 2008

teatro X música

Não é legal viver somente de grana que vem de bar. Eu que não sou boba nem nada já percebi isso faz é tempo e ando diversificando as fontes de renda para dar uma desafogada.
Uma das coisas que faço é trilha para teatro. Adoro. Adoro tanto compor como produzir as trilhas.
Foi através de um convite para fazer uma trilha que comecei a compr e isso mudou minha carreira completamente. Muito do que sou hoje como artista tem a ver com a época que eu atuava como atriz, aprendi coisas que os músicos nem dão bola.
Agora, só quem anda nesse meio sabe como é foda lidar com o povo de teatro. Eu transito por eles mas sou da galera da música. Artistas sim, mas de famílias diferentes.
Músico é mais relaxado, gosta da piração conjunta, tocar junto, fazer som junto, ver o povo pirar com a música que está fazendo. Alguns até ensaiam tomando uma cervejinha, fumando um baseadinho, todo mundo muito sussa.O negócio é fazer um som. Não gostam muito de ensaiar, esse papo de aquecer corpo antes de tocar fica parecendo coisa de viado, músico não é dado a essas coisas de sensibilização, de dar abraço antes do show, de rezar junto. São, na maioria das vezes, machistas, sexistas e viado músico é raro. Quando tem, é pianista erudito ou cantor. E, como eu já ouvi em mesa de bar, cantor que só canta não é músico, pode ser gay à vontade. Papo de músico. Nunca vi na vida um percussa viado! Tem um guita daqui que assumiu que é gay depois de um tempo e ele só ganhou o respeito da galera porque é bom pra caralho, melhor que muito machão, é não é bichinha quá quaquá, bichinha doida, sabe? Mas vira e mexe rola uma piadinha escrota nas internas. Eu, por outro lado, acho que ele é uma delícia em todos os sentidos. Acho ele tudo de bom e sou louca pra mostrar meus sutenidos e bemóis pra ele. Nem me dá bola e eu acho isso adorável. Músico é mais simples, eu acho. Deixa ele solar um pouquinho, dá uma andamento mais quebrado pra ele poder se exibir que tá tudo certo no final.
O povo do teatro não é assim não. Ensaiam até a exaustão, um respeito pelo espaço cênico, repetem, repetem, repetem. Fazem a ligação entre o universo onírico do indivíduo com a percepção intuitiva do autor chegando assim a um nível superior de conexão com a alma do mundo. Entendeu alguma coisa? Nem eu mas o povo do teatro entende tudinho. Altas sacadas, altas sensibilidades, altas filosofadas. Ator tem sempre um jeitinho meio gay, essa coisa toda de sensibilização dá nisso, eu acho. Um ator que se aprimorar. Quer interpretar bem, cuida do corpo, cuida da voz, quer cantar bem, atuar bem, quer ser um artista completo. Adora uma oficina, um curso, uma especialização. E trabalha muito ganhando pouco e gosta dessa vida.
E eu quando me meto com esse povo para fazer alguma coisa junto tenho que adaptar a minha natureza taurina e musical à esse universo. Me dá um nervoso do caralho!
Tenho que fazer uma música para determinada parte da peça. Pra mim é só saber o que o diretor quer, dar uma olhadinha no roteiro e mandar ver na música. Tudo muito simples.
Para o povo do teatro me falta uma entrega, uma ligação com a energia da cena, falta entender as sutilezas e eu, pouquissimo dada a sutilezas, fico nervosa com essa coisa toda de sentir aqui, entender acolá, mergulhar no personagem. Para mim mergulhar no personagem é coisa de viado. Com o passar dos anos acho que virei músico, músico no masculino mesmo. Logo eu que tenho um monte de amigo viado que vive mergulhando em vários personagens, em todos os sentidos.
Mas tem horas que esse excesso de viadagem me irrita.
Amo teatro, acredito que tudo que ele oferece pro artista só engrandece, respeito, pago o maior pau, mas que tem horas que sinto falta da simplicidade dos músicos, ah eu sinto...

2 comentários:

Fernando disse...

Uma vez um grupo de teatro, primeiro encontro dos atores, eu na direção, botei todo mundo numa roda, ergui as mãos unidas sobre a cabeça,empinei o corpo e mandei: _Agora vocês todos são uma flor...
(olhares de pânico) Eu ri, olhei pra ele e falei: _ Brincadeeeeeira...
Risos nervosos de alívio.
Excelente esse seu texto. Identificação plena de quem já viveu teatro.

Fernando disse...

Erro na mensagem acima, o certo é "Eu ri, olhei pra ELES e falei:..."