sábado, 5 de julho de 2008

O tal do " canta pra caralho" ou " toca pra caralho"

Nunca nesses anos todos de profissão encontrei alguém que chegasse pra mim e dissesse "caramba, uma merda teu som!".E isso não é que meu som não seja definido como uma merda por alguém, certamente tem quem o defina assim, mas existe uma falsa educação, uma etiqueta cínica que impede de dizer o que realmente achamos do som de alguém.
Eu nunca digo "parabéns" se realmente não acho que o som valeu. Pode ser meu melhor amigo, pode ser o Chico Buarque, não adianta, da minha boca não sai uma meia verdade. Minha frase de sempre também cabe aqui. " Não me dê intimidade se não aguenta honestidade".
Há pouco eu vi uma cena dessa e o cara ganhou toda a minha admiração pela sua crua e letal franqueza.
A moça tinha acabado de dar uma canja. Eu não curti mesmo, nem a voz dela nem a música. Eu achei uma chata berrante. Mas fiquei na minha, afinal não conheço a criatura, não me perguntou o que eu achei, não me deu nenhuma intimidade e as minhas opiniões nem sempre interessam aos outros.
Mas o cabra não pensava assim. Chegou pra moça e começou:
- Posso te falar uma coisa sem que você se ofenda? Eu acho que você imita todas as cantoras sapatões que existem por aí. Você berra demais e berra demais sem descobrir a tua voz que eu tenho certeza q1ue não é essa. Descubra a sua voz e você deixará de ser assim tão medíocre.
Puta que pariu! Vai ser honesto assim na casa do chapéu.
Claro que não é muito agradável ouvir uma coisa dessa, é um tapa no meio da fuça, mas pelo menos é um comentário genuíno e verdadeiro. Coisa rara no meio musical. Pelo menos diretamente para o criticado. É muito comum se ouvir mil elogios, ou alguns " parabéns, pelo som", e assim que vira as costas, lá vem a verdade nua e crua. Mas ninguém tem coragem de dizer o que realmente pensa.
Por isso eu digo pra quem tá começando ou pra quem toca comigo pra não acreditar em tudo que ouve durante uma apresentação porque a mentira corre solta. Talvez uma tentativa de ser delicado, mas não deixa de ser uma mentirinha.
É claro que tem gente que realmente gosta, mas isso a gente percebe no olho, na verdade que vem dentro do coração do outro, mas nem sempre é isso que acontecesse.
Ouvir de minha mãe que eu canto pra caralho não vale, né? Nem da minha amiga, nem do meu namorado, nem dos meus filhos. Alguns comentários vêm tão recheados de carinho e amor que confundem uma análise mais apurada e profunda.
Então se eu acreditar em tudo que eu ouço, eu to ferrada.
Ou pior, se eu precisar do aval dos outros pra ter a dimensão do que eu faço é melhor eu escolher muito bem quem pode me ajudar, falando do meu trabalho porque não é qualquer um.
Existe o ouvido leigo, aquele que é a pessoa que não tem conhecimento técnico, que ouve música e diz que gosta ou não. Seria o maior público, o público que consome. Chamo de público padrão. Não conhece a minha pessoa, não sabe o quanto eu sou divertida, que eu tenho um blog, que eu sou mãe. Ele público simplesmente me ouve e chega a um veredito. Esse é um bom público porque não é viciado. Nesse eu posso confiar.
Uma outra categoria é aquele povo que me conhece um pouco mais e que as coisas vão se misturando. Gostam de mim e, por consequência, vão ter mais simpatia pelo que eu faço. Ainda possuem uma capacidade crítica. Posso agradar ou não, mas jamais falarão pra mim que não gostaram de alguma coisa. Acho que é piedade, sei lá, cuidado, tato, não sei dizer.
Há outra facção. Os músicos. Normalmente os músicos criticam os outros músicos de forma mais ácida. Eu não dou muita bola pra o que músico pensa de meu som, especialmente se for músico que toca instrumental porque normalmente eles acham que música cantada é música menor. Bom mesmo é quando não tem cantor pra atrapalhar. Então uma crítica positiva deles é um prêmio, ou o cara tá a fim de te comer. Já passei por isso.
Me lembro de minha amiga Taïs Reganelli ( cantora e compositora também) cheia de dedos para me dizer que não gostava de uma música que eu tinha feito e vinha cantando em alguns shows. Tão bunitinha, tentando não me magoar. E eu não me magoei em nada com ela, afinal é uma questão de gosto. Aquela canção não bateu, ponto final. Mas isso não desmerece o resto da obra. Mas o mais legal foi ela ter vindo ( depois de um tempão, é verdade) pra me dizer isso. Honestamente, cheia de carinho por mim. É uma pessoa que merece minha atenção quando faz um comentário desses. Coincidência ou não, logo depois a canção saiu do repertório.Na verdade era uma música catarse de fim de namoro que já não tinha nada a ver na minha vida. Tinha que sair mesmo. Mas recebeu um empurrãozinho pra fora e o comentário da amiga ajudou nisso.
Eu queria ver se o povo pudesse deixar comentários anônimos em fim de shows. Fala o que você quiser, deixa aqui sua opinião sobre as letras, sobre a banda, sobre o repertório, sobre a voz, sobre tudo.
Duvido que houvessem tanta falsidade por aí e tanta gente acreditando que canta pra caralho ou toca pra caralho. O meio musical iria enxugar muito.
E nós teríamos que ter um acompanhamento terapêutico pra lidar com tanta "verdade".

5 comentários:

Rodrigo disse...

Isso é fato! Acontece mesmo. Mais sinceramente eu não manjo muito de música, sou um mero ouvidor. Não sei bem aonde e quando um cantor ou uma cantora desafina. Mais que tem gente se achando no meio isso eu não duvido. Foi num show algum tempo atrás da Mônica Salmasso, ela estava gripada, fazia uma força enorme para não desafinar e pediu até desculpas para a platéia que eu acho bacana. Eu tentei me aventurar numa aulas de violão, não levo muito o jeito, não nasci com o "dom". Mais o pouco, o muito pouco mesmo que aprendi, e o pouco que toco, é de uma alegria enorme para mim. Me tira a carga ruim do mundo. Mesmo você cantando bem ou mal, se é que canta mal. eu sou seu fã na escrita, rsrs.

Já ouvi o seu cd e gostei pra caramba, aconselhei até uns amigos fazer o mesmo. Mais não desanime não, continue levando a magia da música para almas de seus ouvintes, é uma boa maneira de mudar as pessoas e o mundo. Continue, apesar de quaisquer comentário que venha surgir.

Beijo

Tatiana disse...

Rodrigo,
Você é um fofo!

Rodrigo disse...

Tatiana, obrigado!

Em relação ao FOFO, eu fico desnorteado. Este coração frajuto vai a locaute...

beijo

Vivien Morgato : disse...

Acho que a franqueza é necessária, sem dúvida. Mas o cara foi cruel com a cantora.
Eu tento ser franca com meus alunos, sempre, sempre, mas absolutamente nuuuunca ofendo.
beijocas.

Danny disse...

Tatiana, eu pude passar por isso! E foi bom pra caramba!!! Foi em um curso (workshop) da Suely Mesquita, chamado Voz in Vento, pra cantores. Ela ensina como se comportar no palco, como usar o microfone, o que fazer quando o nervosismo atrapalha, etc. E principalmente, coloca umas pessoas pra cantar e enfrentar um público de cento e poucas pessoas.
Depois ela dá umas dicas do que pode melhorar. O mais legal é a parte dos bilhetes. Todas as pessoas que estão assistindo recebem papéis onde são estimuladas a escrever um elogio e uma crítica. Mas não adianta dizer "gostei" ou "não gostei". Tem que ser coisas construtivas. Foi um aprendizado ótimo!
Vale a pena!
Beijos.