terça-feira, 27 de maio de 2008

Há pouco comecei a dar aulas específicas de canto e quando eu comecei a fazer isso não sabia no que ia dar. Para mim quem canta, canta e quem não canta vai ao karaokê e se acaba lá. Cantar é um dom e ponto final.
Uma aula de canto ajuda sim, mas não vai transformar uma desafinada em uma Elis Regina. Dá um suporte, abre os horizontes mas não faz milagre.
Quando comecei a trabalhar com os adolescentes lá do Bate Lata eles já tinham experiência, tanto de palco como de receber aulas já que eu não sou a primeira a ministrar os cursos. Eles tem experiência de sobra e a moleza típica de adolescentes. Minha batalha é fazer aquele povo mexer o corpinho, aquecer direito e, principalmente, abrir os ouvidos para alguma coisa que seja diferente aos grupos de pagode vagabundo, às músicas massacrantes das rádios populares, ou seja, do óbvio nivelado por baixo.
Minha maior preocupação, além de mostrar como se respira com diafragma, exercícios de respiração e aquecimento de voz, era mostrar outro tipo de música para que pudessem ter uma nova referência, para que pudessem "sentir" uma música que tivesse uma harmonia mais complexa, uma letra mais rebuscada ou um ritmo diferente. Não é apagar ou abandonar o que eles sempre ouviram, mas abrir mais uma porta.
Hoje eu olho essa turminnha e fico emocionada. Eu sei que eu sou uma besta, que me emociono à toa, mas para mim é muito tocante ver meus alunos escolherem cantar uma canção da Ceumar, do Baden e do Vinícius, fico doida de emoção quando ouço uma das meninas me dizer que a canção Lavoura ( que a Roberta Sá gravou ) mexeu com ela. Me sinto feliz e vitoriosa, me sinto fazendo uma coisa que vai além de ensinar a cantar ( não acredito nisso, já disse), me sinto fazendo alguma coisa que realmente vale à pena, ainda mais quando você trabalha com adolescentes.
A outra turminha, com meninos e meninas de dez a catorze anos que ainda não fazem parte da banda mas estão ali para se preparar para os exames, me impressiona ainda mais. São como um papel em branco, recebem tudo, estão atentos a tudo. Nosso repertório inclui músicas de todos os tipos. Carcará ( João do Vale e José Candido), Berimbau ( Baden e Vinícius), Pecadinhos ( Zeca Baleiro), Sapato Velho (Roupa Nova), Bicharada ( Chico Buarque), Curumim ( dessa humilde compositora aqui) e muitas cantigas de roda da minha infância lá na Bahia.
Eu proponho:
- Vamos dançar samba rock?
E eles vêm comigo, dançando e cantando os clássicos do Tim Maia e do Jorge Ben e assim eles conhecem um outro tipo de música, nós nos divertimos e eu me sinto fazendo o que me propus a fazer.
Um dia o professor de capoeira veio me perguntar porque eu fazia aquelas posturas estranhas de yoga, em que aquilo ajudava no ato de cantar, porque deixar um monte de criança se apoiando só na cabeça e nos braços, de cabeça para baixo.
Eu respondi que aquilo era um exercício de concentração e coragem. Para cantar essas duas coisas eram necessárias. Saber focar no que estava fazendo e saber que mesmo uma coisa que parece impossível de se fazer, com esforço e dedicação é viável. Então quando eles conseguem ficar na postura da garça - imagine que cena mais hilária... treze crianças, mais eu, é claro, de cabeça pra baixo se apoiando só nos braços - eles realmente entendem o que eu quero dizer.
" Vocês conseguem! Você podem vencer uma limitação! Vocês podem tudo nesta vida, é só querer".
Então hoje eu digo que nunca fiquei tão feliz com um trabalho. Nunca me senti tão útil, tão realizada, tão estimulada. Nunca aprendi tanto sobre canto, voz, gente, coragem, vontade, determinação, pobreza, miséria, alegria e superação.
Eu preciso agradecer bem agradecidinho esta oportunidade que eu estou tendo porque eu acho que nunca tive tanto orgulho do trabalho que faço e tanta admiração pelos alunos que estão comigo toda semana.
Obrigada, viu, gente?
Tô orgulhosa de vocês!!

10 comentários:

Rodrigo disse...

Tatiana, belo trabalho sem dúvidas. Meus humildes parabéns, boa sorte neste trabalho é o que o nosso(querido Brasil), precisa.

beijo, te achei no orkut, estava olhando suas fotos. hehehe

Tatiana disse...

me achou?
caramba! então adiciona, né?

Rodrigo disse...

Poxa, Tatiana, faltou coragem!

Mônika Mayer disse...

Ah, mulher!! Como vc consegue arrepiar esse meu coração com a sua garra e a sua sensibilidade!!

Parabéns pelo trabalho e, só prá constar: Berimbau cantei muito tempo no coral da faculdade. AAAAMOOOOOO!!!!

Tu só podia ser uma diva, mesmo! Beijinhos!

Tatiana disse...

Rodrigo,
Deixa de frescura e me adiciona!

Tatiana disse...

Mônika,
Eu de diva, falto muito!
Me falta a graça, a sutileza e a altivez.
Sou um tipo mais descabelado, exagerado e suado.
Mas agradeço imensamente o elogio!

Rosane Queiroz disse...

Oi tatiana,
te achei via blog da regina da comida, que entrou no meu www.garotasdesegunda.blogspot.com
tenho tambem o
www.blogmiojo.com.br
gostei do teu canto (blog e voz)

apareca la nos meus dois (ja viu isso) pra me visitar, quando der
bjos, rosane

Marina F. disse...

Ai amiga, que lindos!
Tenho muito orgulho de ti, cantora, professora, compositora. Você arrasa.
beijos.

Mônika Mayer disse...

As divas acordam descabeladas e com bafão também, minha amiga! rsrsrsr

Anônimo disse...

sempre vi em voce uma educadora em potencial...é isso minha querida tuas ferramentas são poderosas, tuas habilidades são variadas...tens o dom da palavra o que voce fala toca sempre fundo pra quem ouve...sou tão orgulhosa de voce...e de voce em cima do palco sou tiete de carterinha...I love you pra xuxu...silvia