quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Piaf

Com as chuvas de fim de tarde, minhas noites são regadas a TV ou, no máximo, um filmezinho.
Mas existe todo um ritual, não é assim, deitar e assistir. Não! Tem que ter o controle bem à mão, o cinzeiro, o maço de cigarro, o copo com o líquido que estiver sendo bebido naquela noite ( varia entre coca-cola, cerveja ou vinho tinto), alguma coisa de chocolate, o cobertor, os muitos travesseiros...e assim entro no espírito do que está passando na minha telinha.
Ontem quem entrou foi Piaf.
Eu me emocionei o tempo todo. Meus olhos encharcados, aquela pressão nos maxilares. Algumas vezes, as lágrimas correndo soltas e eu, agarrada ao lençol fino, soluçava.
A atriz que faz o papel principal é simplesmente surpreendente e fui completamente envolvida com a história.
Que vida triste! Que necessidade insana de cantar! Que dor imensa diante de sua maior perda! Que dor, meu Pai! Todas as dores junto em um balaio só.
Eu chorei junto com ela e também cantei. E fiquei tão impressionada que me deu medo de acabar daquele jeito. Me deu um medo imenso da troca que se faz para se ter esse compromisso em contaminar o mundo com algum tipo de arte.
Fiquei com medo da solidão. Da loucura. Fiquei com medo da tristeza. Fiquei com medo de tudo aquilo que eu levo no peito, aquilo que eu enrolo em papal jornal e mal vejo, mas tá lá, me penicando as entranhas. Tenho medo dos meus excessos controlados. Tenho medo de ter um vulcão dos excessos reprimidos. Tenho medo da força que nasce em mim.
Assim que o filme acabou, sentei, acendi um cigarro e fiquei olhando a tela azul, silenciosa e cega, pensando no filme. Cada um tem sua sina e seu preço a pagar. Cada um tem seu destino pra cumprir. Chorava e medrava.
A alma. Esse é o segredo de tudo. Cantar com alma, cantar chorando, cantar nua em pelo. Porque todos tem tanto medo de se expor? Pois uma cantora que não se expõe é uma cantora menor. Tem que cantar com alma aberta, arrombando as retinas de quem te ouve. Sacudindo os ouvidos do coração! A alma é a mãe das artes.
E minha alma adormeceu aconchegada e acordei a fim de brindar.
Levanto meu copo americado com dois dedos de bebida escura e amarga e brindo:
-A todos que deixaram sua marca no mundo e a todos que souberam libertar a alma. Saúde!

7 comentários:

mauro carneiro disse...

linkado da nossa bloguerinha Cláudia, vim conhecer o seu . Vc é uma pessoa romântica e sensível. Faz parte do meu jeito de gostar. Quem sabe até montarmos um "clube" daqueles q escrevem e pensam assim. "retinas de quem te ouve.."
vou voltar
bjs

Anônimo disse...

"Escrever sobre um filme é perguntar: “O que pode um filme?” E normalmente eles podem mais do que umas estrelas no jornal ou um “bom”, “chato”, “revolucionário”, “niilista”, etc. Ao mesmo tempo em que dispensam porta-vozes. Não se fala em nome dos filmes, mas com eles – para além de nós, para além dos autores, para além dos filmes."
Cezar Migliorin - Revista Cinética

Tatiana disse...

Mauro
Não consegui deixar recado no teu blog.
Pena, né?

Nóis disse...

Tati, não vi o filme, não curto esse tipo (drma), apesar de adorar "histórias reais", já que não gosto de ler é um bom caminho para aprender algo. Mas devo ver em algum momento, minha esposa é daquelas que entra na locadora e pergunta:" tem filme pra chorar?", a atriz que fez esse filme tá bem na fita para melhor atriz, domingo no oscar... vamo ver... o problema é que ela concorre com Kate Blanchet...

até.

Tatiana disse...

Nóis, a interpretação dela é realmente impressionante!
Vale a pena.
Assista.
E chore escondido...sem culpa!
hahahahahhahahah

Danny disse...

Isso aí, Tati! Eu também assisti Piaf há pouco tempo (sexta passada) e amei! É isso mesmo: nada de medo de se expor. Sem exposição, não há arte. Mas que dá um medinho, isso dá.
Beijos!

Danny disse...

Sim, a atriz é impressionante! Estou torcendo por ela!