segunda-feira, 25 de junho de 2007

Saudade é o fio da Lembrança

Fiz uma letra com Alexandre Lemos. Nasceu uma linda canção.
Uma das frases que escrevi era " a saudade é o fio da lembrança".
Essa frase ficou na minha cabeça, martelando. Saudade é o fio da lembrança. Lembrança. Saudade.

Aí tive uma daquelas revelações bombásticas, aquela informação que cai sem piedade me abrindo os olhos e me deixando de boca aberta.
Eu preciso esquecer para não sofrer. Eu apago da minha mente aquilo que me machuca.
Um recurso de sobrevivencia, um mecanismo espontâneo que uso desde sempre e nem me dava conta.
Hoje, vendo um filme besta na televisão, percebi que apaguei a maioria das lembranças de meu pai. Lembro muito pouco dele. É verdade que já se vão quase trinta anos de sua morte, eu era menina, mas ainda me impressiono não me lembrar da última vez que o vi vivo.
Não me lembro de seu tom de voz, não me lembro dele brincando comigo, não me lembro dele comendo, como segurava os talheres, não me lembro de sua risada, do seu cheiro. Não me lembro.
As lembranças que eu tenho - poucas e fragmentadas - têm ele tocando violão, cantando um ponto de umbanda durante um ano-novo em Copacabana, me lembro dele no timão do barco, lembro do seu olhar quando eu consegui remar sozinha, contra a correnteza, do barco até o pier, um akai de rolo que ele amava e ligava todo domingo que estava em casa, de seu cachimbo e sua barba grisalha, sem bigodes. Me lembro dele censurado um short verde em plena copa do mundo, me lembro de seu medonho chinelo de couro bege, me lembro de imagens de fotos que guardei no passar dos anos, mas não me lembro DELE.
Apaguei da minha memória. Apaguei para poder suportar viver sem ele, para que a saudade não me machucasse mais do que a falta que ele me fez.
E aí percebi que faço isso até hoje.
Eu mato as pessoas e esqueço delas para que eu não carregue nem dor nem a saudade. Não sei sentir saudade. Não sei sentir dor. Então eu esqueço.
Como um pá de lixo de baixo do meu tapete, meus esquecidos crescem a cada ano e essa montanha é escalada quase todos os dias.
Hoje escorreguei nela e agora não sei se choro por saber que está tudo ali, ou se choro por saber que tudo está ali e simplesmente não me recordo disso tudo.
Só sei que aprendi a esquecer e essa lacuna me faz falta.
Mas eu queria muito que todos que eu amei, e que eu hoje nem lembro mais, soubessem que eu esqueço porque amo e sou incapaz de sentir saudade sem sofrimento.
Saudade é o fio da memória e meu novelo é todo emaranhado e a tesoura é a minha salvação.
Me perdoem por isso, mas ainda não aprendi a amar com saudade e sem dor.
Ainda não.

10 comentários:

Anônimo disse...

Ahhh... colecionar ausências não é mto doce não!
Ávida H.

Lígia Moreli disse...

Como eu queria ser como vc...

Lígia Moreli disse...

Como eu queria ser como vc...

Tatiana disse...

Duvido, Lígia
Duvido.

Lord Broken Pottery disse...

Tati,
Como acontece muitas vezes seu texto me emocionou. Acabei lembrando de meu pai, e da força que faço para não esquecê-lo. Talvez por ser natural, acabamos perdendo os traços. De 1992, quando ele partiu, muita coisa se confundiu em minha memória, ficou meio sépia. Já não sei a imagem que tinha direito. Com bigode, sem bigode, gordo, magro, grisalho, calvo, encontro diversos Ricardos. Guardo, talvez para sempre, um abraço que me deu quando voltei de extensas férias na Bahia. Longo, apertado, cheio de carinho. E a declaração de que a casa, sem que eu estivesse presente, ficava vazia demais. Exatamente como ficou o mundo sem ele.
E mudando de assunto, de pato pra ganso, de adulto pra criança, quando vou poder ouvir o CD infantil? Como faço?
Beijão

Gika disse...

Eu sempre rio qdo passo aqui. Hoje eu chorei. De saudade do meu pai e de tantas pessoas e mundos que trago ao longo da vida.Meu pai se foi há 3 anos apenas, então tenho tudo muito vivo em minha memória. E qdo lembro dói. Aquela farra de domingo por ex, ele ia amar. ia dançar, ia falar bobagens,ia fazer mágica e ia pedir pra tocar Nelson Gonçaves pra ele cantar!
Eita véinho cabra aquele....ai que saudade!!

Luciana Farias disse...

O que eu posso falar??? Meu, sua sensibilidade é foda. Por isso que sempre venho aqui...

beijão, minha querida!!!

(tá vendo??? eu também falo! Eu também falo!!!!!)

Anônimo disse...

Acho que não devia ter lido este texto num dia que a saudade está quase me matando...
Concordo com a Lígia....talvez a certa seja você.
No final do seu texto vc diz que não aprendeu a sentir saudade sem dor....acho que isso nunca ninguém aprende...saudade é dor...
dor de não ter a pessoa do lado,
dor de não ter como conversar, ver, ouvir a voz...
saudades de uma risada, de um abraço, de um cheiro, de uma comida...
Tudo que na nossa vida deixa marcas de felicidade se tornam saudades....
E a vida da gente é sempre tão difícil, as batalhas tão grandes e muitas vezes tão doloridas, que se fosse possível seria melhor não termos que lembrar de ter saudade...porque é só mais uma dor no nosso dia!
Sei lá pq escrevi...mas senti de fazer isso...

Danny Reis disse...

Linda, eu também não sei. Talvez eu precise me converter ao Budismo pra aprender a me desapegar, sei lá. É difícil mesmo sentir a saudade não doer. Então a gente vai apagando aos poucos o fio da lembrança...
Sei lá, não sei ser diferente.
Estou lembrando de outra letra, a de Resposta ao Tempo, do maravilhoso Aldir Blanc. E me atrevo a roubar alguns de seus versos: "[O tempo] sabe passar e eu não sei", "não sabe ficar e eu também não sei"...
Um beijo e fica com Deus!

Danny Reis disse...

Outra coisa que eu ia esquecendo: fazer música com o Alexandre Lemos não é pra qualquer um não!!! Ô cabra bom!
Como eu faço pra conhecer essa música de vocês???
:)