quarta-feira, 27 de junho de 2007

Resolvi botar a casa toda em ordem.
Toda.
Cada cantinho obscuro de minha casa está sendo varrido, espanado, encerado, perfumado.
Descobri que minha casa é cheio de cantos escuros e empoeirados. Descobri que minha casa é uma comunidade de aranhas incansáveis. Tenho certeza absoluta que minha casa possui a maior quantidade de minúsculas aranhas de toda a América do Sul. E as minhas aranhas - já são minhas, tamanha a nossa intimidade - são as mais trabalhadeiras, fazem quilômetros de teia por debaixo dos móveis e eu devo ser para elas um tipo de holocausto, porque eu vejo uma teia de aranha, vejo aquelas perninhas magricelas e destruo com tudo. As aranhas não devem ter afeto por mim.
Minha casa é cheia de cantinhos e gavetas cheias de passado.
Como eu.
Arrumar isso tudo requer coragem e disposição.
Abri uma gaveta e dei de cara com a foto que eu tinha certeza que tinha queimado na minha fogueira libertadora. Me escapuliu aquela. Eu tava lá, toda feliz agarrada no pescoço dele. Calmamente, peguei meu isqueiro lilás, segurei pela pontinha da foto e taquei fogo. Junte às outras e vire cinza. Me senti muito poderosa, muito corajosa em manter a minha palavra. Queime e me liberte.
As contas dos anos passados me lembram que eu já passei por situações difíceis e supererei. Bom isso. Vou superar essa tamém. Eu sempre supero. As contas dos anos passados são a prova da minha vitória. Como eu superei? Nem lembro mais. Mas eu consegui!
A casa da gente é o espelho de nossa alma.
A minha casa é um espelho bem lustroso porque moro saozinha, mando e desmando, se quiser colocar um macaco empalhado de pau duro na sala, eu coloco e isso é a prova da minha excentricidade. Minha casa sou eu em cada pedacinho de chão, parede e teto. Só deixo o quarto do meu filho com o jeito dele. De resto, sou uma tirana de móveis, cores e paninhos.
Tô rearrumando a minha casa e a minha vida.
Como a gente tem tralha, na casa e na vida!
Tô juntando tudo aquilo que não me serve mais para queimar tudinho. Espero a lua minguante chegar para ser mais simbólica ainda e fazer abrir alguma porta do meu inconsciente e entrar lá no centro de mim e libertar as aranhas e abrir espaços.
Tenho pó até dentro de mim. Especialmente dentro de mim tenho pó.
As gavetas são as mais assustadoras porque tudo que não quero ver, eu meto em uma gaveta. Minhas gavetas tem dentes pontudos e anteninhas repugnantes. Minhas gavetas tem manchas escuras e cheiram ao meu medo.
Minhas gavetas estão por um fio porque eu não sou mulher de ficar amendrontada com uma gaveta. Eu vou arrancar tudo, vai sacudir tudo e se me der na telha, meto cola em cada vão de gaveta para que eu não posso nunca mais esconder nada dentro delas.
Bem...acho que isso já é demais. Precisamos de algum lugar para guardar aquilo que não queremos ver.
Mentira. Limparei essas gavetas mas deixarei espaço para meu novo passado que não quero ver. Não selarei minhas gavetas porque preciso delas. Ainda preciso delas.
A casa da gente é o espelho do nosso espírito. Minha casa parece em ordem. A cozinha às vezes se rebela contra mim, mas a cozinha é o meu coração, sempre sendo usado, sempre tendo coisas sujas e desarrumadas para acertar. Meu coração é vivo como a minha cozinha e eu não posso me distrair com ela.
No meu quarto dorme, junto comigo, o que eu sou de mais íntimo. Ali tem tudo o que eu mais prezo e tudo o que eu mais quero esconder. Meu quarto esta sendo devassado por panos e cheiros. Meu quarto barrará estranhos e desafetos. Meu quarto impedirá o velho e encantará o novo. Meu quarto olha e cala. Meu quarto, meu cúmplice.
A sala é a senhora das aparências. Minha sala é exatamente como eu. Tá ali, toda arrumadinha, umas coisas mais expressivas e coloridas, um baú com algumas coisas que quero esconder, mas ninguém tem coragem de abrir aquela porta. Só eu. Na minha vida pública, niguém mexe naquilo que eu não quero que mexa, mesmo estando ali, à mão.
Meu quintal é a zona natural. Mistura-se ali bosta de cachorro, folhas das árvores, frutos apodrecidos, poeira, ciscos, penas. Ou seja, aquilo que fica à frente da minha casa, de mim, é a vida mesmo. A vida que faz a ligação com o mundo lá fora, com os cheiros, com os barulhos, com o outro. Mantenho aquilo limpo para não poluir minha vida interna, minha intimidade.
Meu quintal me diverte também porque tem as plantas que eu tanto amo, ali que dormem meus cachorros-guardiões, e é ali que faço todos meus delírios. Roda de música, fogueiras, círculos encantados, dança de acasalamento, reuniões informais. Tudo ali.
Minha casa sou eu e eu estou colocando ela em ordem.
Não sei se tenho tantos sacos para libertar tanto lixo, mas estou disposta a realmente a aumentar os espaços vazios.
Minha casa cheirará a limpeza e renovação.


11 comentários:

Anderson-kbça disse...

Wow, vou mandar minah esposa ler esse seu post!!! imediatamente!!

estou vendo esse filme!! somos recém-casados e as coisas de solteira dela vieram todas.. aff!!!

ela precisa se libertar tb!!!

Luciana Farias disse...

Puxa, taí uma coisa que eu precisava criar coragem pra fazer... você faz idéia de quanto papel junta em casa de casal de desenhistas??? principalmente se as filhas também entendem do riscado e ainda por cima têm tendência a fazer boneca de papel...

beijão e boa arrumação procê!!!

Bruno Ribeiro disse...

Se a casa é cheia de cantos escuros, assenta exu no quintal.

Adriana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Adriana disse...

Esse texto deveria vir acompanhado de "Bosconeana"... Nossa, nunca vi coisas tão parecidas!
Eu vivo tentando fazer essas arrumações aqui em casa...
bjks,
Adri (m-música)

Anônimo disse...

ô minha amiga... que coisa linda...
beijin, Dine

Tatiana disse...

Andreson,
Isso não é fácil. Libertação dói.

LIRIS LETIERES disse...

e taca q´boa nos cantos, taca que é certeiro!
Liris já com meu lenço de faxina na cabeça Letieres

Vivien disse...

são fantásticas essas faxinas de alma.;0)

Ana Paula disse...

menina... a hora q eu resolver fazer isso aqui vai ser um "pelamordedeus"...

Danny Reis disse...

É bom faxinar a alma de vez em quando...
:)