sábado, 2 de junho de 2007

Amado meu,

Meu coração não sabe sofrer e por isso já antevejo um tempo que estarei mais só do que nunca.
Você sairá de mim. Um torrão de amor encravado no peito arrancado com raiz e seiva e só me restará a tua falta. Mas a mão que te arranca ficará empregnada com teu perfume por séculos e séculos e séculos. Uma maldição do odor perpétuo.
Meu coração não sabe abrir portas, é cego e tateia a escuridão do futuro, tropeça nos móveis do cotidiano e cai no chão, dolorido e manchado de tons lilás. Mil unguentos inúteis escorrendo, desperdiçados.
Meu coração é mudo, mas por dentro vibra todas as sílabas, todas as notas, a boca aberta só mostra um nada mentiroso e covarde. E o som do silêncio é mais alto que o mais agressivo berro e meus ouvidos trincam de tanto silêncio.
Meu coração não sabe sofrer e como sofre, calado e cego! Perdido nesse breu do amor, arranca todas as ervas, as daninhas, as maléficas, as venenosas ervas do amor. E junto com elas, devassadas sem piedades, mortas, apunhaladas, vão também as hortências e orquídeas. As delicadas violetas, as perfumosas lavandas, o impregnante manjericão.
Na horta do meu peito sobrará um Saara seco onde vagueiam ilusões de óasis.
Meu coração morrerá , a míngua, a um passo do derradeiro gole salvador, virará poeira e areia 0nde somente teus pés deixaram o rastro.
Meu coração não sabe morrer sem alarde.
E por isso, te aviso.
Meu coração nada sabe e os ignorantes tem o perdão de Deus.
Me perdoe também por te tirar de mim.

Um comentário:

claudia lyra disse...

Um coração de poetiza sofrendo transborda em beleza, putz...