quinta-feira, 3 de maio de 2007

Meus micos


Fui cantar “ Caixas Lacradas”, uma canção super triste que fiz com Fernanda. Eu ando cansada demais, ando à flor da pele, já tinha chorado muito durante a tarde por razões outras, mas pelo jeito não chorei o suficiente. Quando comecei a cantar a frase “ nunca fui capaz de concluir o que comecei...” aí eu escorreguei. Escorreguei mesmo. E falei, sabe o que mais? Foda-se. Chorei, chorei na frente de um monte de desconhecidos, chorei da lágrima escorrer, chorei por me sentir assim, sem conseguir fazer nada direito, por me sentir tão sobrecarregada, por não cuidar de filho, de casa, de carreira, de porra nenhuma. Por sentir saudade de algo que nem tenho ainda. Chorei por não ser capaz de concluir, direito, nada que eu comecei. Cantar e fungar, ao mesmo tempo, não é uma coisa fácil, requer uma técnica que eu ainda não tenho. Sonekka não esperava isso. Nem eu esperava. Mas assim foi.

Aquela energia que rola no teatro. Muito diferente do que ocorre em bar. Os espíritos que moram nas coxias estavam ali. Todos os seres que já cantaram, atuaram, tocaram estavam ali. Eu podia sentir aquela freqüência, sentia nas minhas costelas, na minha pele que arrepiava. Em nenhum momento eu fiquei nervosa, tenho um grande sangue frio para isso, mas a certeza daquelas presenças me davam um certo inquietamento, uma gastura. Como que nós precisássemos daquela aprovação, como que se nós precisássemos falar aquilo que é necessário falar. A beleza. O belo. O lírico. A esperança. E ele, sempre, o amor.
Fugimos do roteiro. Esperávamos isso. Aí foi a descoberta. Eu e Sonekka tínhamos aquela sintonia de quem saca, antes de acontecer, o que o outro vai fazer. Eu fiz a cagada do roteiro. Ele foi comigo. Me deu o toque da minha cagada. Sutil...Eu voltei. Ele foi atrás. As piadas espontâneas. Eu realmente ria das bobeiras que ele falava. Eu estava realmente me divertindo.
Comecei o show sentada. Fazia parte do contexto. Mas meu corpo não sabe se comportar e eu pensava “ Puta merda, tenho que ter modos. Tô de saia, se eu ficar me sacudindo muito vão ver as calcinhas. Como é que tá minha calcinha?Ah, tá massa! Mas mesmo assim, não tô a fim de pagar pau mostrando calcinha no teatro. Diva, minha filha. Diva, você tem que aprender a ser diva.”
Diva o caralho! A sandália que eu estava usando fazia um puta barulho no chão, era dura, difícil de manter no pé. Tirei as sandálias, empurrei para de baixo da cadeira. Foda-se. É um cabaré. É final de noite. Eu já tirei sandálias em final de noite. Vai assim mesmo. Delícia. Piso de madeira é morno e eu gosto daquele calor.

Um comentário:

claudia lyra disse...

Você está lindíssima nessa foto, benza Deus!