quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Jupy


Conheci Jupy quando tinha uns dezoito anos. Eu estava tocando em um bar em Salvador e arranjei uma confusão com um grupo que estava me assistindo. Jupy veio de defender, sem nunca ter me visto, sem saber de mim, assumiu ares de parceiro de anos e ficou do meu lado. Ele, encantado com aquela mocinha que cantava e tocava, carregando seu violão amarrado ao banco da moto vermelha e eu, encantada com aquele moço lindo, um galego como se diz na Bahia, aqueles divins olhos verdes acompanhados por uma cabeleira clara.
Jupy era um absurdo de homem. Lindo, simpático, engraçado, fazia amizades com todo mundo, gentil, animadíssimo. Não dava para resistir e começamos a namorar.
Nem me lembro porque não deu certo esse namoro. Mas posso dizer que ele foi o único homem em minha vida que voltei a ter alguma coisa depois de ter terminado um namoro. Eu sempre digo que retomar com ex é como tomar café requentado, nunca foi minha escolha, se é pra ser, que seja o novo. Mas ele era tão legal, mas tão especial, que eu queria que desse certo e voltamos a namorar mais duas vezes.
Veio me visitar em Campinas, logo nos primeiros anos que cheguei aqui e meus amigos me ouviram dizer: achei o homem de minha vida.
Precipitação minha, é claro, sempre digo que aquele é o homem da minha vida, mas ainda lembro de nós andando pelas ruas do centro da cidade, uma chuva que cegava os olhos e Jupy me pedindo que dançasse com ele, em plena praça Carlos Gomes. Dois baianos abraçados na chuva, rodopiando e rindo em uma noite fresca de fevereiro.
Jupy era assim. Capaz de me fazer dançar sem música.
Quando eu tinha 23 anos, recém-separada, com filho ainda bebê, passamos o melhor carnaval de minha vida juntos. Eu tinha voltado para Salvador, tido meu primeiro filho, amadurecido. Ele também. Foi através de suas mãos que aceitei o fato que uma separação podia ser uma coisa muito boa, dependendo do ângulo. Pulamos atrás do trio elétrico, nos lugares mais barra pesada do centro de Salvador, tomamos cerveja quente, rimos e suamos, abraçados a travestis, malucos, boêmios, bêbados, foliões de todos os tipos. E Jupy sabia sair, com a maior simpatia, das situações de risco do carnaval de Salvador. Nunca vi uma única pessoa sentir vontade de brigar com ele.
Ele era um cara tão especial que acabou namorando todas as minhas amigas. Ele era o ex oficial de todas nós, dividíamos nossa passado comum na boa porque Jupy não era qualquer um, era o nosso Jupy. Dividiu casa com uma, se apaixonou loucamente por outra, Jupy era o homem perfeito para quase todas nós.
Confesso que não gostamos muito quando ele se casou com uma oficial da polícia militar de Salvador, isso muitos anos depois, mas fazer o que? Alguém, um dia, casaria com ele.
Por ironia do destino, acabei casando com seu meio-irmão e assim findou-se a farra de voltar a namorar sempre com ele. De eterno-ex virou cunhado e continuavamos a nos adorar, como sempre.
Chorou em meu ombro sua maior desilusão amorosa, confessou suas alegrias e sonhos, me contou de seus projetos, da plantação de coco, da sua vida de casado, da sua impossibilidade de ser pai e compramos a briga de, mesmos casados ( eu já no sexto casamento e ele com a oficial militar ) não deixarmos de sair para conversar e manter a imensa amizade de longo tempo e de muitas histórias. Isso foi no ano de 2001, muitos anos depois de termos nos conhecido. Essa foi a última vez que nos vimos porque regressei, mais uma vez para Campinas.
Em 2004 recebi um telefonema de Salvador que me deixou com as pernas bambas e o coração quebrado.
Voltando de uma micareta na Costa do Sauípe, sua caminhonete tinha capotado e Jupy tinha morrido na hora. Estava cantando no instante que a curva surgiu. O rapaz que estava com ele, recebendo uma carona generosa - mal se conheciam - precisou correr quinze quilômetros na estrada escura até chegar ao posto policial e pedir ajuda.
Jupy morreu do jeito mais próximo que viveu. Rindo, cantando, na farra, ajudando desconhecidos e causando o maior alvoroço por onde passava.
Não pude ir ao seu enterro, então, neste carnaval, vou pular em um bloco de rua de Barão Geraldo, vou beber cerveja, vou cantar marchinhas de carnaval e vou homenagear meu grande amigo, meu eterno ex-namorado, meu querido Jupy. Este ano meu carnaval servirá para lembrar um homem especial que sabia viver essa vida. Sabia tanto que nem precisou ficar por aqui por muito tempo. Mas deixou uma saudade imensa e a certeza que quando eu chegar lá do outro lado, posso muito bem encontrá-lo de braços abertos, aquele sorrisão imenso na cara, um copo de cerveja na mão, gritando para mim:
-Tatiana, venha me dar um abraço e venha dançar forró comigo porque eu estava morto de saudade, minha linda! Justo, muito justo, justíssimo! Cheguei antes para preparar a festa!

Esse carnaval é teu, meu amigo.

PS: Essa foto aí de cima foi durante sua visita a Campinas, em 1988. Quase vinte anos se passaram e eu ainda me lembro desse dia. Eu, Carô e Jupy na casa da rua José Paulino.

15 comentários:

Ninita disse...

...é melhor ser alegre que ser triste. Alegria é a melhor coisa que existe............
Ninita

Ronaldo Faria disse...

Um dia a saudade nos será a melhor alegria...
Beijos
Ronaldo Faria

Tatiana disse...

Uma saudade imensa baixou em mim hoje.
Perder amigo não é coisa fácil.

Clélia Riquino disse...

Que história linda, Tati... 'tô aqui, com lágrimas nos olhos, pensando no seu Jupy. Triste perder pessoas queridas. Triste saber que as pessoas se vão das nossas vidas. Às vezes, de repente, sem mais nem porquê, sem terem vivido tudo o que podiam, tudo que queriam...
bjo, abço & cheiro,
Clé

ciça disse...

Querida Tatiana,

Vi que você mandou algo de programação para o carnaval mas meu e-mail está uma meleca! Sábado dia 24 pós carnaval você vai trabalhar? Queria convidar você, seus amigos e leitores para uma Roda de Improvisação de Dança e Música que rola lá no Tugudum (www.tugudum.com.br). É de graça e com muita gente boa. Um encontro~de muita alegria porque junta corpos, música, dança, amigos. Fica o convite! Sábado, dia 24 às 19h na Rua Maestro Francisco Manoel da Silva, 690. Sta. Genebra. No site tem um mapa... e videos dos trabalhos da Cia. Tugudum (que trabalaha com música cênica). Beijão!

Vivien disse...

Lindo texto, Tati. Não é a toa que algumas pessoas acabam indo e voltando dentro da história da gente, é pra deixar marcas desse jeito. Lindo texto.

Adriana disse...

Adorei o que escreveste, mais uma batalha vencida na luta diaria do dia dia, perder um amigo...e dificil....mas ter oportunidade de conhecer uma pessoa tao especial como foi o seu Juppy e motivo de alegria...nem todas as pessoas tem essa oportunidade unica de conhecer seres tao especiais, que vivem a vida intensamente e que mesmo nao estando mais presente fisicamente deixa o seu perfume de amor, alegria, companheirismo no ar...


Beijinho do outro lado do oceano

TatianaRocha disse...

Ai, eu to aqui choramingando...

Carô disse...

Tati, o Jupy era um querido (eu sempre achei que ele bem que podia mesmo ter sido "o" cara da sua vida...) - que delícia abrir seu blog e dar de cara com esse sanduíche de gente da gente...
Beijos, também fiquei com saudades!

Tatiana disse...

Saudade da porra que aocrodu grudada em mim.

Clélia Riquino disse...

aocrodu??? Não seria acordou?

Tatiana disse...

ahahahahhahah
sim, seria
hahahhaha
minha dislexia anda galopante

Clélia Riquino disse...

Pensei nesta canção:

Meu amigo, meu herói
Gilberto Gil


Oh meu amigo, meu herói
Oh como dói saber que a ti também corrói
A dor da solidão

Oh meu amado, minha luz
Descansa tua mão cansada sobre a minha
Sobre a minha mão

A força do universo não te deixará
O lume das estrelas te alumiará
Na casa do meu coração pequeno
No quarto do meu coração menino
No canto do meu coração espero
Agasalhar-te a ilusão

Oh meu amigo, meu herói
Oh como dói
Oh como dói
Oh como dói

Carô disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Clélia Riquino disse...

Esta foto, do "sanduíche de gente", como disse a Carô, é ótima!