segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Volta às aulas

Graças ao bom senso, as aulas recomeçaram!
E para não perder a hora, coloquei dois despertadores. Um ortodoxo e meu celular.
Seis e quinze da matina era o horário programado para tocar, tocar e tocar.
E eles realmente tocaram, tocaram e tocaram, mas eu não acreditava que isso era possível, meu corpo não reagia à necessidade de sair de baixo de meu cobertor, cheirando a amaciante, para adentrar em uma segunda feira chuvosa, fria e absolutamente contrária à vida. Então o primeiro despertador tocou até acabar a força. Morreu de tanto se esqüelar. Meu celular é mais insistente, toca um pouco, se eu não páro ele volta a tocar de cinco em cinco minutos.
E no meio do meu sono, eu pensava:" quem será esse filho da mãe que me liga tão cedo?".
Acordei. Acordei não! Me arrastei sonolenta até o banheiro, uma escuridão imensa dentro da minha cabeça e fora de mim também. Matheus, acorda, filho. Hoje tem aula.
Mathues! MATHEUS!
Dois zumbis se batendo pela casa.
Quase coloquei o queijo direto dentro da torradeira.
Abro a porta e um frio terrível aparece. Vou andando até o carro. Aí percebo que estou saindo sem sapatos e sem calças. Volto rapidinho, as faces vermelhas e bem quentinhas, rezo para que o porteiro do prédio em frente não estivesse olhando essa mãe adormecida, essa morta-viva madrugadeira semi-pelada.
Entro no carro. Silêncio de quem mente o despertar.
O mundo tá úmido e tá frio.
Eu tô com vontade de desistir de trabalhar. Quero dormir mais.
Volto paraa casa pensando na minha cama.
Cadê minha cama? Eu não tenho cama mesmo, só tenho um colchão direto no chão. Cadê o colchão? Perdi o colchão?
Não. A faxineira chegou cedo e começou pelo meu quarto. Não dá para voltar a dormir. Bosta. Mas tudo bem, vai ver que é melhor mesmo eu trabalhar.
Troco de roupa contra a vontade. Excepcionalmente, abandono os saltos altos e saio rasteirando na chuva.
Um sono da porra me acompanha por onde eu ando. Parece uma sombra, um balão sobre a minha cabeça cheio de ZZZZZZZ. Eu sou um personagem de história em quadrinho.
Tatiana, você pode atender um cliente lá na recepção?
Vou atender. O cara é surdo, não me ouve e fica dizendo toda hora quê? quê? e, para piorar minha situação, é daqueles que quer ler todo o contrato, tim tim pot tim tim, e ainda muito, muito pior, lê devagar.
Cinco minutos. Meus olhos ardem.
Dez minutos. Sinto que to ressonando sentada na cadeira.
Quer um café? - ofereço.
Não. Ele não quer.
Bem, eu preciso de um café senão eu durmo.
Vou buscar café. A cozinha quentinha, silenciosa, o café bom, encosto na bancada, a cabeça pende, um barulhinho bom de chuva, sonho gostoso com alguma coisa boa porque desperto, meio babada, o café frio.
Volto esbaforida e ele, o cliente surdo e lerdo, ainda na página oito. Na página oito!! Eu não acredito nisso.
O sono me irrita. Ele me irrita. A chuva me irrita. O mundo me irrita. Tom Jobim, que me fez ficar acordada até maisi tarde, me irrita. Penso na ironia da canção Chovendo na Roseira. Tá chovendo memso na roseira, na margarideira, na craveira e na mariasemvergonheira.
Na irritação, vou fazendo um resuminho das páginas faltantes do contrato. Falo rápido e baixo.
Ele o que? o que? o que?
Eu começo a gritar:
OS PLANOS SÃO REAJUSTADOS PELO ÍNDICE QUE O GOVERNO LIBERA, NENHUM PLANO PODE REAJUSTAR EM VALOR SUPERIOR.
O que?
SIM, OS PLANOS NÃO TEM AUTONOMIA PARA REAJUSTAR.
O que?
Não, meu filho, ( caralho como tu é burro, falei baixinho, afinal, era surdo também) esse reajuste que está no contrato é o reajuste por mudança de faixa etária.
O que?

Ele parte e eu perco o sono, finalmente.
Uma fome descomunal toma conta de mim.
Tem que esperar o filho sair da escola.
A rua cheia de amarelinhos loucos, sedentos por multas, loucos para ver algum pai em fila dupla.
Deixo o carro longe pra cacete e caminho elegantemente até a portaria do colégio.
Um fusca passa do meu lado e eu sinto que a lama me escorre pela testa.
Uma vontade de chorar súbita.
Almoço a melhor comida do mundo.
Meu colchão outra vez no lugar.
Será que mereço uns trinta minutos de cochilo?
Sim, mereço.
O gato também acha e deita em cima de mim.
Ronrona e diz que me ama.
Dormimos, de conchinha, eu e meu gato Hermeto.
A chuva não pára e eu gemo.
Voltei à vida normal.

2 comentários:

claudia lyra disse...

Não me fale, porque dia 12 começam minhas aulas na faculdade e já estou morrendo de preguiça.

Anônimo disse...

Não me fale (2)
recomeço na flor que gira em torno do sol dia 1º.
Saco!
Liris Letieres