domingo, 11 de dezembro de 2005

Cigarra em mundo de formiga


É. Essa vida de cantora não é fácil não.
Como eu venho alardeando aos quatro ventos, este final de ano tá foda em matéria de dinheiro. Por causa disso tô fazendo qualquer negócio.
Tatiana, você toca no meu casamento civil na chácara do meu pai? Toco.
Você toca na festa de encerramento da minha empresa? Toco.
Você toca na comemoração do primeiro cio da minha cadelinha Pitucha? Toco.
E assim eu vou. Uma forma de prostituição vocal.
Mas eu tenho lá minhas manias, meu orgulho profissional.. Me recuso a tocar pagode, sertanejo, funk bate estaca e dar beijo na boca.
Fui tocar, pela segunda vez depois de dizer a todos que eu NUNQUINHA iria voltar a tocar naquela merda de bar. O cuspe caiu bem no meio da cara.
Tô lá eu montando o som, sexta, oito da noite. Aquele barulho dos infernos, aquele burburinho. As formigas estavam alvoroçadas, muitas, milhares de pessoas comemorando aniversdário em bar. Dez canções e sou interrompida por uma Parabéns pra você. Eu páro e espero pacientemente, na boa mesmo. Deixe as formigas cantarem o parabéns delas. Mas o burburinho me incomoda profundamente. O som é péssimo, a acústica é muito ruim, não dá pra conversar nem com o som desligado, parece uma feira de peixe, uma barulhão dos infernos. E eu dizendo pra mim mesma: fica fria, tá precisando desta merda de cachê, pense que no final de ano tudo pára e você vai precisar. Fica fria.
O dono do bar, uma moleque de vinte e poucos anos me pedindo pra eu ligar meu som nas caixas dele porque não está saindo na varanda. Meu bem, tuas caixas estão rachando, se eu ligar vai ser mais ruído. Tem que ligar! Mas está dando interferência entre o DVD e o som, pode queimar meu som e se queimar eu vou cobrar de você. ( eu já tava ficando meio azeda com o moleque). Da próxima vez se não ligar nas caixas externas não toca aqui!
Eu ia mandar o cara tomar no cu, já tava taõ sacuda, estava esperando a hora de fazer uma cena dramática, falar no microfone, bem alto para os poucos que sabem fazem leitura labial:
-Queridos, vou me embora porque tocar aqui é um saco, o dono é um pentelho e o cachê é uma merda!!!
E sairia , linda, cheio de orgulho, o povo aplaudindo de pé minha saída enquanto o DVD tocaria o último show ao vivo da Ivete Sangalo.
Bem..não foi nada disso que aconteceu. Fiquei lá até o final. Naquele barulho dos infernos. Tô eu lá carregando caixa de som, passando o amplificador por cima das cabeças bêbadas, dando violãozada na multidão espremida quando encontro uma conhecida que me via cantar em outros bares.
-Tatiana, minha querida. Mas o que você está fazendo aqui? Isso aqui não é mais pra você, quima teu filme, minha querida.
Saí péssima. Mas ela estava coberta de razão.
Tem bar que não acrescenta nada em uma carreira musical. Nada. Só mau-humor.
Eu juro que eu vou aprender esta lição. Eu juro e se eu vascilar de novo por causa de uns míseros reias, pode me bater na cara que eu não revido. Juro!!!!

5 comentários:

Flugelboy disse...

Claro que pode me linkar! Fico lisonjeado pelo convite.

@post: Cigarra em mundo de formiga...
Abri seu blog hoje cedo e fiquei maravilhado com essa frase no perfil...
Eu também já planejei diversas saídas teatrais, com direito a luzes e fumaça, mas nunca saíram da minha cabeça perturbada...

PS.: Jura mesmo? Tanto quando jurou nunca mais voltar lá?

Flugelboy disse...

Ah, e quanto à minha vontade de escrever...

Bem, de boa vontade (ou intenções, sei lá, nunca fui bom em ditos populares) o inferno tá cheio...

Não sou assim uma Ariadne, mas me esforço para escrever direitinho o que passa pela minha cabeça...

Lígia Moreli disse...

Êta que vc lavou minha alma com esse seu relato. Putz, depois me fale o nome do bar pra eu não passar nem perto...hehehehehe. Será que um dia as coisas vão mudar para as cigarras? Será que conseguiremos dominar o mundo das formigas????

Tatiana disse...

Cara Lígia, cantora maravilhosa
Acho que não conseguiremos dominar nada!
Um tristeza

Ronaldo Faria disse...

As lendas costumam ser lindas, mas cigarra e formiga é difícil de juntar. Maldito daquele que inventou o vil metal ou deixou o mecenas ao menestrel abandonar...