terça-feira, 6 de dezembro de 2005

8° Concurso Maldito - Tema Contos Malditos

A CAIXA DE PANDORA

Não é só por estar no meu leito de morte que abro minha Caixa de Pandora.
Não quero perdão. Não quero aliviar-me da culpa porque culpa não me faz companhia nesta hora que abandono este corpo alquebrado.
O que me acompanha agora é a lembrança da felicidade absoluta, o calor que escorria em minha mão e o doce sabor de vida que entrava em mim.
Sim. Eu sou culpado de tudo que me acusam agora. Fui eu o carrasco que tirou a vida daquelas criaturas desinteressantes. Realmente não fariam falta e poderiam, com a sua morte, servir pelo menos ao meu prazer. Era como matar um frango, um peru para a ceia de Natal. Nenhum remorso. Nenhum instante de hesitação. Só a ansiedade que antecede a um grande evento.
Foram vários. Foram muitos. Mas foram saboreados como iguarias especiais que eram. Cada pedacinho mastigado era apreciados com calma e delicadeza. Cada erva usada no seu preparo era colhida com respeito, guardada em vasilhas especiais, cada corte feito vinha de lâmina virgem. Um verdadeiro ritual de libertação. Meu e deles, minha comida.
As carnes que ficam grudadas nas costelas são as mais saborosas, um sabor encorpoado, como se todos os sentimentos que foram carregados naquele corpo impregnassem de odores meu alimento e eu, não só saciava minha fome de matéria, como também me emprenhava do passado de quem eu degustava. Minha alma se alimentava da alma de outro.
Um verdadeiro banquete, não acha?
E as crianças? Ahhh, as crianças são como vitela, são especiais, tem o sabor do futuro e da esperança. Muitas vezes sorri me identificando com a bruxa de João e Maria. Seus olhos vítreos sempre me olhavam com ternura por sobre a bandeja prateada.
Eu posso dizer que comi várias nádegas. Literalmente. Ha ha ha ha ha. Seriam as carnes mais nobres se não me empanturrassem tão rapidamente e eu prefiro prolongar meu prazer ao máximo.
Tudo se aproveita de um ser humano. Seus cabelos enchem essas mesmas almofadas em que se encostam agora. A pele pode ser transformada nesses delicados tapetes e depois tingidos com a cor da moda. Tenho vários. Dei vários presentes especiais e sempre ouvia que eram as peles mais macias já tocadas em todo o mundo.
O mais difícil é se livrar dos ossos. Por isso me dediquei tantos anos à cerâmica. Fornos acesos o ano todo não chamariam atenção se eu fizesse experiências com argila e assim fiz, me tornando um dos mais populares ceramistas de todos os tempos. Meu segredo para tanta resistência e beleza eu estou revelando agora. E isso resolve o mistério da ausência de corpos. O que sobrava de meu banquete virava cinza que misturada a massa mole do barro gerava uma cor e textura inimitáveis..
E é somente por isso que eu confesso meus segredos. Não quero que suma do mundo minha descoberta e meu legado á humanidade.
As grandes caixas no meu ateliê contêm quilos e quilos de formosura e delícia guardadas em todos esses anos de pesquisa e de deleite.
Abram minhas Caixas de Pandora e não façam ter sido em vão todas as vidas que tirei para minha própria satisfação. Quero partilhar minha felicidade! Quero distribuir todas as minhas glórias porque só assim morrerei feliz e poderei, das profundezas da terra, acompanhar minha arte se perpetuando pelas eras dos tempos.
Abram as Caixas de Pandora!!
As minhas e, se tiverem coragem, abram as suas também. E me digam, gritando aos infernos, que segredos elas guardam, cinzas de que passado elas carregam...

8 comentários:

Douglas Evangelista disse...

Salve Tatiana Hanibbal Lecter!

Primeira visita minha aqui em teu espaço, vou voltar, garanto.

Boa sorte!

Mirella disse...

tá de TPM, amiga?

Pedro Camargos disse...

Poxa, Tati, deu medo. Muito bom. Gostei do paralelo carne/sentimento, embalagem/conteúdo. O comedor de almas...
Também gostei do final.
Parabéns. Boa sorte.
Bjos.

Tatiana Rocha disse...

Pandora é a deusa da ressurreição, seu texto nos remete a reflexão de que mais importante do que a revelação, é a reconstrução. Isso vale pra carne, a mente e o espírito. Adorei a metáfora, vc lida muito bem com figuras de linguagem. Beijo!

Danielle Ribeiro disse...

Concordo com a moça ai em cima e com as associações que o Pedro apontou ... beijos

Dora W disse...

Adorei o texto.. sou só elogios, como todos acima.

Silo disse...

Bom.

Marlon Magno disse...

Eita, nóis! Escrevi um texto parecido uns anos atrás, sob título "O vegetariano"...vou te processar! Bom texto, mas achei meio despropositado o título, enfim...

Pra engrossar o coro: tá lindona na foto nova. Se não fosse meu caso com Vanessa B., hum...(huahuahua)

Pra fechar: por que o link do meu blog tem meu nome? Bota continuosis aê, fofa!!!

Beijão, tá no páreo, moça...