segunda-feira, 29 de março de 2010

explicando a merda

Vamos lá, meu povo, falar deste estado emocional muito orgânico chamado "estar na merda".
Todo mundo já achou que estivesse na merda completa. Muitas vezes eu tive certeza que eu tinha caído em um tonel de estrume porque, peloamordedeus, aquilo era uma merda muito grande!
Certa vez, essa criatura que vos fala, resolveu tomar um banho mágico, cósmico e lúdico na Lagoa de Pituaçu, situada dentro do Parque de Pituaçu, em Salvador. Essa lagoa é rodeada por um ciclovia e tem sempre um maluco ou outro que andam por ali. Eu, opr exemplo. Tinha macaquinhos, micos, muitos bichos, pássaros e uma história que dizia que a lagoa abrigava uma cobra imensa, perigosíssima. A versão baiana dos anos 80 do filme Anaconda. Óbvio que eu me cagava toda de medo da bicha, verdadeira ou não.
Lá fui eu e uma amiga, tão mágica, cósmica e lúdica quanto euzinha aqui, procurar um local perfeito para o banho.
Achamos.
Uma árvore imensa fazia sombra, dava pra ver o chão de tão alvinha a água estava, distante, meio encoberto. O lugar perfeito.
Tirei minha roupa todinha porque banho mágico bom é banho mágico pelada. Pro banho "pegar", só peladinha. Um adendo: além de pelada, eu estava menstruada. Melhor ainda! Assim a energia mágica, cósmica e lúdica da fêmea-mulher-deusa, representada por mim, pelada e menstruda, era maior. Nada mais "mulher".
Achei lindo esse negócio. Entrei mesmo no personagem. Eu era Diana, a caçadora, ali no meio da mata. Eu era Afrodite mergulhando na água-útero-caldeirão da Lagoa de Pituaçu.
Respierei fundo, mentalizei, preparei e saltei pros braços da mãe Oxum, entalando na lama até na altura dos joelhos e a água na cintura.
Simplesmente entalei e não tinha jeito de eu sair de dentro da lagoa. Com meu "entalamento" a água, antes alvinha como bunda de neném, ficou toda turva, aquela nuvem cinza escura que fazia minha imaginação dar voltas com a história da porra da cobra! Um cagaço do cacete da cobra aparecer, escondida na água escura. Ali eu pensei: fudeu, tô na merda!
Minha amiga, com seus bracinhos franzinos, tentava me puxar pra fora, sem me mover um milímetro. Eu sentia meu pé fazer vácuo na lama, a sombra da árvore era angustiante porque eu não via a direito o que estava por perto. Na hora lembrei do filme Tubarão, ainda bem fresco na memória.
Minha amiga já estava querendo sair correndo pra pedir ajuda. Eu, doida, dizia que se ela fizesse isso, eu daria na cara dela porque eu estava pelada, menstruada e entalada e aquilo era pra lá de humilhante! Ela me falava que uma filha da deusa não tem que ter vergonha de seu corpo, que tudo era muito lindo. Eu respondia que filha da deusa era o caralho e que, na merda que eu estava, era bem possível que quem viesse me salvar fosse um deus grego, o homem da minha vida, meu príncipe encantado e ia me encontrar assim. Entalada. Pelada. MENSTRUADA!
Nosso bate-boca hidráulico acabou quando eu tive a certeza absoluta que tinha visto "alguma" coisa se mexendo perto da árvore. Gritei como se tivesse sendo comida pela cobra. Minha amiga virou uma amazona, força de cem homens. Eu, por puro desespero e certeza que eu era muito jovem pra morrer assim, tão sem glamour, fazia o máximo que eu podia e eu pensava no comentário dos bombeiros que tirariam meu corpo da água: " Coitada, pelada, entalada, menstruada e, pra completar a merda geral, afogada e triturada por uma cobra assassina que todo mundo sabia que morava na lagoa. Coitada, morreu na merda. Vai ser burra assim...".
Desentalei como rolha de champagne bem sacudidinha. Saltei pra terra movida pelo mais puro e genuíno medo da cobra. Se eu tinha uma deusa pra descobrir naquele banho ritual, ela se mostrou muito atlética, uma deusa saltadora, uma deusa canguru!
Caí no chão, as pernas bambas, os dedos dos pés, tudo pretinho de lama da lagoa, toda desminliguida. Vesti a roupa em tempo recorde, nem coragem de olhar pra água eu tinha. Vocês não imaginam como é foda colocar modess com um estado de espírito desse. Pegamos a estradinha de volta correndo como se a cobra fosse uma centopéia aquática e corresse pra caralho! Corri até achar que meu coração fosse explodir. Corri até sentir o pobre do modess subir pelas costas, todo destrambelhado.
Realmente, foi uma situação bem chata que eu poderia chamar de "estado de merda", mas especificamente, estado líquido, merda líquida, a pior. Hoje percebo que eu imaginei muito mais do que vivi realmente. Minha mente me pregou peças e eu só via o lado ruim das coisas. Pirei na batatinha e aumentei muito mais os meus problemas.
Fazemos isso muitas vezes na vida. Diante de uma situação ruim, em vez de manter a calma e pensar em alguma solução coerente, enlouquecemos com o medo daquilo que não vemos e tudo que não conhecemos e achamos que tudo é uma grande de uma merda.
Duvido que tivesse cobra ali.
Como duvido que as coisas hoje sejam tão terríveis como minha imaginação quer. Ou como a sua imaginação quer.
Controle-se porque depois de um tempo é possível rir disso tudo, como eu hoje rio. Tudo bem que eu tenho uma natureza meio hiena, mas, dependendo da boa vontade, dá pra olhar por outro ângulo.
Acredite nisso. Faz um bem danado e ainda garantes boas risadas. Ou um texto honesto em um blog qualquer.

7 comentários:

Georgiana disse...

Caracoles! Que história, Tati. Lembrou o dia que também quis fazer algo similar. Menstruada, em contato com a terra... levei foi picada de formiga daquelas grandonas (não na dita) mas encontrar a deusa se tornou uma coisa interna.

Fernando disse...

Uma vez, uma floresta, uma estrada de terra, uma bicicleta e nada que me impedisse de sair pedalando, pedalando, sentindo o cheiro do mato, a brisa no rosto, etc. Até o momento em que eu afundei. Sem mais, nem menos, eu afundei. Naquele momento eu não tinha a mínima idéia do que exatamente estava acontecendo. A floresta ficava em meio a uma granja de porcos. Porcos fazem muita merda. E a merda os caras recolhem, cavam uns buracões gigantescos e jogam toda lá dentro num negócio que chamam de esterqueiros. Enquanto o seu mergulho na merda foi metafórico o meu foi literal. Agora imagine a humilhação de voltar para a casa da granja onde eu era hóspede no estado em que fiquei após o mergulho literal. Fui o mote e a inspiração de todos os da casa e os funcionários da granja nos dias que se seguiram.

Vivien Morgato : disse...

Nem dá pra imaginar...rs...

Sabrina Zahara disse...

Ri, ri muito!! até chorar... Chorar de rir é muito bom!
Muito bom!
Fazia tempo que não vinha aqui.
ai ai.

Arthur disse...

Isso é real?? kkkkkkkkkkkkkkk... eu pesquisando se a lagoa era banhável e olhe só o que eu encontro... nem queria rir. Que história!! Eu não sei se dou os parabéns ou meus pêsames, mas eu ri... ahhh, eu ri...

Tatiana disse...

Sim, meu amigo. A história é real...lá pelos anos oitenta, quando existia o Camping de Pituassu e eu morava lá, de barraca.

oPaCaTo disse...

Nossa q história... rí até não poder mais!! Ja pulei muito na quela água, mas pra entalar deve ter sido com a força da deusa canguru!! Rss Mto interessante o desfecho, a verdade é que não conseguimos ver a solução, por isso nos focamos no problema!! Adorei sua história, me ajudou um bocado!! =) Sucesso