quarta-feira, 29 de abril de 2009

Baixou

Acordei normal, nada parecia diferente. Fui fazer o exame admissional ( paguei 20 conto pra um cara colocar o estetoscópio e me mandar respeirar três vezes ) quando recebi o torpedo.
" Tatiana, hoje e não vou fazer faxina. Estou no médico".
Foi aí que começou. Senti uma vibração estranha, um formigamento na mão, uma vontade assim de, sei lá,, uma necessidade intensa de pegar em uma vassoura.
Caramba, é ela, Severina Raimunda, a diarista insana que toma meu corpo de tempos em tempos.
Nem tive tempo de entrar em casa direito, foi tomando meu corpo, minha mente e quando dei por mim, eu estava incorporando minha faxineira favorita, retirante nordestina que trabalha aos berros, cantando sem parar.
Igualzinho em terreiro de umbanda, quando vem um, vem outro atrás. Reconheço logo DasDô que invadia a pobre da Carô. DasDô é delicada. Ama um avental e se pudesse usaria luvas. Não tem luvas, mas ela se realiza com o espanador. Sai espanando tudo que vê pela frente. Mas fuma como uma condenada e seu serviço é sempre interrompido.
DasDô varria a casa.
Severina Raimunda lavava o quintal. Ouvia-se Noel Rosa na voz de vários cantores. Severina esfregava o chão, feliz, e cantava junto. Muito alto.
DasDô, coitada, tá meio surda. Severina perguntava " isso serve pra que?". DasDô entendia: Decapê. Decapê o que?, retrucava. E assim, ninguém se entendia.
Eu, cavalo de faxineira, estava ficando cansada. Minha mão estava em petição de miséria e ela, a louca faxineia, insistia em passar óleo de peroba em todos os móveis da casa.
Eu pedia, por dentro: Canta pra subir, Severina, sai de mim.
E ela, nem tchuns.
DasDô, vendo meu suplício, tenta me ajudar.
Eu, reunindo todas as minhas forças consigo dizer: " Bate em mim com uma Bíblia. Minha mãe fez isso uma vez e deu certo.
DasDô bem que procurou mas não achou bíblia nenhuma. O jeito foi pegar o Diário de Um Mago do Paulo Coelho e dar com toda força em minha cabeça.
Eu vi estrelas. Severina Raimunda achou as estrelas meio empoeiradas e quis limpar. DasDô não deixou. Deu mais uma cacetada, de viés e berrou: Toma sua rapadura e segue a luz!
Raimunda Severina partiu reclamando que não tinha ganho o passe de ônibus e que ia reclamar no sindicato.
Mal tive temp de me recuperar quando senti outra vez aquela formigação.
Não! Não acredito nisso!
Olha lá quem tá vindo agora, assim, na seqüência!
Zé que Pinta, o pintor histérico e meio viado.
Me pegou a traição e agora lá vou eu outra vez pintar mais algumas coisinhas.
Preciso urgente de um contra-egum porque se continuar asim, eu morro.

Dei um jeito naquele rosa medonho. Esmale em base de água. Nunca tinha usado esta tinta e curti. Dá um brilho que o latex não tem.





Os banuinhos da cozinha estavam daquele jeito. Sem graça total. Tinta neles. Esmalte normal. Tem tinta na minha alma...

5 comentários:

Anônimo disse...

Que liindossssssss!!!!!!

Morena disse...

Pelo amor ... vou fazer um ponto de subida, URGENTE!rsrsrsrsrsrsrs

Vivien Morgato : disse...

adorei.
Não deixa a Morena cantar pra subir não..rs

figbatera disse...

Tatiana, estou admirado com a sua capacidade de trabalho, seu bom-gosto e seu talento.

Carô disse...

DasDô quem? Num lembro de nada além da tábua de passar! Acho que foi com ela que eu dei na sua cabeça, mas Severina Raimunda é moça forte - a tábua deve ter descido torta, deu a impressão de Paulo Coelho...