sábado, 29 de novembro de 2008

Olho pra dentro de mim e vejo um milhão de coisas acumuladas. Já joguei fora, já limpei os porões, já varri poeiras antigas, velhas, encardidas, já lavei meus alçapões e mesmo assim ainda me sobra entulhos que não consigo me desfazer.
É exatamente isso que me sufoca. Aquilo que não vai embora. Como se eu tivesse um móvel antigo e pesado, difícil de mover, carregado de passado, trancado em um ferrolho enferrujado.
Sei exatamente o que me falta pra abrir caminho dentro de mim. Sei mas essa sabedoria de nada me serve porque o que necessito não nasce de mim de forma espontânea. Perdão não é erva daninha em mim que arrebenta o asfalto da minha alma e sai se alastrando pelos cantos, pelos vão, pelos espaços abertos e vagos. Meu perdão é orquídea rara que insiste em não florir.
Parece mesquinho não ter perdão pra dar. Me recrimino por isso. Mas ele simplesmente não brota assim.
Seria ele, esse perdão, que quebraria os grilhões que me prendem. Meu perdão libertador foge de mim porque nos meus porões se escondem torturadores, ditadores e fascistas. Dentro de mim a sombra e a luz batalham. Meu perdão, frágil orquídea, não foi talhado para a guerra. Meu perdão tem alma de artista e diante de tanta violência que só eu sei que habita em mim, meu perdão simplesmente se esgueira e chora.
Olho pra ele e grito brigue, sangre, vingue, nasça!
E ele se faz de surdo e se nega a me obedecer.
Preciso tanto do perdão doado quanto do amor, mas ele não nasce em mim.
Não sei como fazer brotar o perdão libertador.
E enquanto ele não tiver forças pra empurrar o velho armário de minha alma, continuarão as batalhas.
Mesmo que eu não as queira mais elas continuam porque ao meu lado existem soldados que foram criados para lutar e matar. Sem piedade. Sem clemência. Amo meus soldados pois são eles que me sustentam e me protegem. Meus soldados não tem coração nem ética. Meus soldados são guerreiros que nunca descansam. Meus guerreiros nunca se cansam.
Mas eu já cansei.
Não quero mais tanto sangue. Não quero mais saber que minha espada está afiada e é certeira. Já sei que essa guerra é minha e o canto de vitória é meu. Sempre soube disso., mas não quero mais guerrear. Quero descansar minhas armas e simplesmente descansar.
A bandeira branca que precisa tremular no meu céu e determinar o fim da demanda tem que ser levantada pelas mãos do perdão que insiste em não nascer.
Não sei o que fazer.


2 comentários:

Georgiana disse...

Sinta a raiva que lhe brota que impede o perdão, mas, não se domine por isso. Experiência própria, traz mais sangue. Pergunte-se o que magoa tanto mas tanto que é impossível deixar de lado. Ainda hoje, guardo coisas de um recente desafeto. Repasso fantasias de encontros para mostrar que estou bem sem a criatura. Enfim, a falta de perdão é porque há mágoa e muita raiva. O que ficou faltando? Só que aí tem um outro lado... se você se decepcionou é porque esperou demais, não? Quando a gente espera o que o outro não pode dar, minha amiga, a porca torce o rabo e focinho de porco chamusca porque não é tomada! Perceba que foi você que colocou a criatura num pedestal, criou o sonho de que fosse diferente, de que a pessoa era o que ela não podia ser e, talvez, deu a entender que era. Sabe, no dia que a gente percebe que foi a gente que premiou com o Oscar quem não merecia, aí, querida, é que surge o perdão! Espero ter ajudado.
bjos carinhosos

Anônimo disse...

Perdão é a outro lado da moeda " amor".
Você tem muito amor dentro de você. Dá pra ver por aqui. Tudo tão lindo, tão intenso, tão generoso.Amor em forma de palavras, de música, de textos, tudo está aqui, nas entrelinhas. Só não vê quem não quer!
Calma. Tudo tem seu tempo. Esse tempo de transbordar perdões também vai chegar.
Aguarde serenamente. Só isso.

PS: Você é um tipo de pessoa encantada e os " encantados" não são de ficar muito tempo assim.
Beijos de outro encantado.
Só que por você.