quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Sacanagem no meu quarto

Minha solução para não perder documentos é socar tudo em um lugar só.
Os documentos e papéis inúteis fornicam entre si e se multiplicam. São como coelhos.
Aumentei seu espaço, agora tem mais uma gaveta cheia de documentos e papéis inúteis.
Me olham, devassos, lânguidos, todos fumando um cigarrinho depois da trepadinha multiplicadora.
Eu, pura e casta como uma carola velha, reprovo esse comportamento assanhado e juro acabar com a indecência.
Jogo todos eles no chão e decido dar fim àquela suruba.
Isso não serve pra nada. Lixo.
Isso pode ser importante um dia, guardo.
Isso ...não faço idéia do que seja. Guardo ou jogo fora. Guardo.
O chão do quarto todo branquinho de tanto papel.
A televisão ligada e...e começa um programa muito legal, mas muito legal mesmo.
Vou parar só um segundinho. Uma descansadinha. Uma paradinha só.
Nesse meio tempo a sacanagem entre os papéis fica incontrolável. Seus susssurros indecentes me obrigam a aumentar o volume da TV.
Bando de tarados, penso enquanto sento na cama pra descansar melhor.
Acho que adormeci.
Acordei no meio de uma pilha ainda maior de papéis. Procriaram mais uma vez durante meu pequeno vacilo preguiçoso.
Riem de mim.
Zombam de mim.
Indecentes e gozadores.
E eu finjo que não dou bola pra eles, vou saltitando pelo chão a caminho da cozinha, páro na porta do quarto e grito:
- Há de vir o dia do Juízo Final, bando de pecadores, fornicadores e zombadores da arrumação alheia. Podem rir! Podem ficar aí rindo de mim. Mas tenham certeza! Vão queimar no fogo do Inferno. Mas não agora porque eu tenho que sair pra ir ao banco pegar mais um extrato bancário. Quando eu voltar acabo com vocês!

De saída, vejo uma conta de água agarrar por trás um recibo de autônomo RPA e mandar ver. A conta da NET vendo a brincadeira, se joga no meio. Um contrato de prestaçãop de serviço fica olhando, só olhando enquanto bate uma punhetinha e o som de papel amassado - nhic nhic nhic - é de matar um! Todos os extratos de bancos juntos em uma posição do KamaSutra, que me faz lembrar que preciso voltar logo a fazer a minha Yoga. Um documento escrito em inglês é a prova viva que o Brasil é o país da sacanagem. Gringo vem pra cá pra se se esbaldar. Vexame total. Até a carteirinha de vacinação do cachorro tá no meio! Até a carteirinha do cachorro!

Fecho a porta silenciosamente, faço o sinal da Cruz e acredito realmente que só o Fogo do Senhor pode dar fim a tanta lascívia e perdição.
Me agurdem, filhos do tinhoso.
Assim que eu voltar vocês vão ver só.
A última coisa que vejo é chama bruxuleante da vela que acendi pra Nossa Senhora da Arrumação das Gavetas.
Ela há de me ajudar.
Nem que seja queimando a casa toda.

9 comentários:

Anônimo disse...

Tão bom quanto te ouvir cantar é ler , a gente vai de um sentimento ao outro de acordo com o que vc escreve ou canta. Já fiquei com os olhos mareados, já chorei solto, já sorri com ternura e já dei gargalhadas...mas espero que a Santa não queime a casa, mas se queimar que poupe o computador e o violão. Beijo Ninita

Marina F. disse...

haha, ótimo amiga.
Também tenho uma infinidade de recibos fornicadores!
bjs.

olney disse...

Beleza, Tatiana, adorei!
Achei vc nos "comentários" das Redatoras de Merda. Parece que um "gambá" realmente cheira o outro, pq eu tb amo a música...
Voltarei aqui sempre.
Abração e suceso pra vc!
olney

FIGBATERA disse...

Eu disse SUCESSO!

Anônimo disse...

simplesmente O-TE-MA , adorei!
bjo Gô

Morena disse...

Menina ! Parece que, esses papéis, são piores que TIRIRICA, quanto mais se arranca, mais brota.
Cruzes !!!!! E, o pior é que, tem que guarda-los. Hoje, recebi uma cobrança da prefeitura que, paguei no ano passado.
Lá vou eu, fuçar nos papéis tarados.

Menininha bossa-nova disse...

Muito bom, Tati, muito bom. Amei o papel batendo uma punhetinha, hahahahaha, vc é foda!

Beijão!

Zé Luiz Soares disse...

Muito bom, Tatiana.

Texto de craque.

beijo

Juliana Hilal disse...

Hahahaaha
Adorei!
Quando você resolver a fornicação por aí vou te chamar para botar ordem na pouca vergonha da papelada lá de casa.
Beijão