quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Toda

Pingo, líquida e pública, em gotas rubras.
Pingo, lânguida, escorro. Molho e avaporo em instantes.
Fui gota. Sou nuvem. Volto ao mar.
Nos abismos profundos de meu oceano, a terra marrom dorme e sonha.

Nas entranhas escuras solto uma casca dura e velha.
Sou toda semente que brota.
Sou terra. Sou firme.
Minhas veias, como raízes, cravam seus longos dedos na carne mansa de dentro de mim e eu gemo, como geme a pedra bruta quando triturada.
Meu quilate é viril.
Minha dureza não é efêmera.
Diamante bruto e rubi escarlate em uma única pepita.
Ainda mais rubra. Ainda mais sangue.
Pingo, em gotas rígidas, também por dentro na terra marrom.

Queimo.
Queimo quem me olha as águas e as terras.
Labaredo inteira.
Minhas mãos quentes.
Minha boca quente.
Minhas coxas quentes.
Minha testa em chamas.
Minha alma quente e rubra pinga, escorre, dilata, trinca, geme , grita, transforma o "quase nada", o "ainda não" no absoluto belo.
Lava virgem e depravada.
Em gotas derretidas, retorno da terra marrom.

Sinto no ar.
Respiro as possibilidades.
Sinto o cheiro fresco do ainda não dito.
Meus cabelos rondando minha cabeça, como pensamentos insanos e indecentes.
Invade o peito.
Invade as águas, fazendo ondas.
Maremotos. Mar bravio só pra valentes corsários. Piratas de mim.
Sopram as labaredas. Aumenta a fogueira.
Mil balões se estatelam no topo do alto de minha cabeça que gera ventanias e tempestades, raios e trovões.
Risca os céus o dourado.
Trinca também meu céu, por dentro.
Rabiscos de luz em desenhos rápidos.
Redemoinhos em minha alma, meus olhos fechados com a poeira que roda em minha volta. Minha saia por sobre as pernas.
Quente.
Eu sinto girando em minha volta.
Ela.
A terra marrom.

E eu, deusa absoluta de mim mesma.
Sou água que brota da terra marrom.
Sou ventania que alastra meus incêndios incontroláveis.
No peito, aquilo que falta e que sobra.
E da minha mão jorram mandingas e antigos feitiços.
De cada poro, um encantamento.
De cada cílio, uma visão explode em mil matizes.
Arco-íris com suas mil serpentes. Cada uma come em minha mão. A brisa mexe os guizos. Tilintam histéricos.
Sorrio.
De cada verbo, o princípio, o meio e o fim.
Silêncio que berra.
No tremor dos meus ossos velhos surge a canção retumbante e minha voz...
Ah, a minha voz que entra na carne, rasga as entranhas, penetra nas íntimas curvas do pensamento e ali, sonsa e cínica, observa.
De dentro.
E o que sai dessa caverna nada mais é do que o meu eco. Somente um eco de mim.
Nos seus ouvidos, a minha eterna repetição.
Mas eu...
Eu há muito já parti.

5 comentários:

Anônimo disse...

Puta que pariu!!!!

Juliana Hilal disse...

Ôu.
Comecei a ler meio desatenta, meio sonolenta, e quando vi estava grudada na tela, dizendo Ôu.
Realmente não tem comentário melhor que puta que pariu.
Coisa de duende flamenco, só pode.
Inspirada, mulher.
Ainda bem que passei por aqui antes de dormir.
Beijos

Anônimo disse...

Nem sei como vim parar aqui.
Me deparo com uma coisa dessa. Uma força dessa! Tô aqui, embasbacada! Sei lá...Tô meio besta.Passada.
Alguma coisa de selvagem e indomável. Um toque de loucura. De entrega...não sei definir...
Tá aí uma mulher selvagem.
Já leu "Mulheres que correm com os lobos"?
É isso aí.
Amei.

Virgínia

Tatiana disse...

To com as bochechas vermelhas....

Tatiana disse...

Sim.
Mulheres que correm com Lobos é um dos meus livros de cabeceira.
está emprestado...bom lembrar. Preciso pegar!
Obrigada pela visita!