sexta-feira, 30 de maio de 2008

Um dia cinzento

O dia, barrado pela janela, insiste em entrar em mim, acinzentando meus olhos.
Pode parecer triste um dia assim: úmido, frio e cinza. Mas a sensação que me dá é um aconchego de uma lembrança, como se a minha memória fosse um cobertor felpudo diante de uma vasta janela que dá para todo o cinza do mundo. E, incrivelmente para mim, assumidamente ensolarada, me sinto bem.
Não que exista uma manhã dourada dentro de mim, tão iluminada que me clareie inteira. Não, não há. É esse exato cinza-chumbo pingante que me afaga os cabelos e me diz bom dia.
Saber estar feliz diante do cinza da vida. Uma nova sabedoria. Levarei essa sensação comigo hoje.
Quem sabe me ajudará a lidar com a realidade tão diferente que tenho visto quando trabalho com os meninos lá da oficina de voz.
Ontem soube que uma das minhas alunas teve o pai assassinado e por isso ela não viria à aula. Perguntei, atônita, como foi isso e responderam-me que fugiu da cadeia e alguém acabou com sua pequena traquinagem. Polícia? Não, me disseram. Outro alguém acertando contas pendentes. Fim de jogos e falsificações. Me recordo de ter observado, em um dos aquecimentos, lá no começo do ano, uma marca imensa e roxa em sua barriga que ela tentava esconder de mim. Penso hoje se teria sido ele, o pai, como desconfiei na época. Não sei. Penso se ela chora ou se, até envergonhada, agradece ao destino. Não sei, realmente não sei.
Fumava meu cigarro escondido e pensava nisso. Minha aluna é linda e doce, canta tão baixinho que mal dá pra ouvir, mas certamente é a voz mais bela entre todos ali. Sua timidez encobre isso e afino meus ouvidos para ver se ouço seu lamento, se é que ainda há lamentos em sua voz. Se ouço seu lamento de sempre, não só o de agora. Apago meu cigarro tentando apagar junto esses pensamentos difíceis e estranhos. Apago, mas carrego o cheiro das cinzas nos dedos. Cheiro difícil de apagar.
O dia cinza de hoje pode ser todos os dias de alguém. Cinza, úmido e frio.
Eu não choro porque não tenho razão para chorar. Alguém pode estar seco por ter chorado tudo que podia em dias solares e noites de lua clara.
Não tenho o que fazer.
Outra aluna me explica porque não aparecia nas aulas. Estava visitando o namorado, preso há pouco. Assalto, eu acho. Acompanhei a conversa e pensava que ouvir um diálogo desses era um absurdo.
-Mas ele sai logo. É primário.
-A audiência será em agosto.
-Vai esperar?
O amor não escolhe. Nem a estupidez.
A vida já sendo escrita com essas cores e para eles, tudo muito normal.
Esse dia cinza é exatamente a realidade.
Aprender a caminhar confortável em meio ao cinza da vida.
Hoje, acordei com um dia cinza e chuvoso me abraçando e eu não consigo esquecer dos olhos daquela menininha.
Peço a esse mesmo dia que viaje pelos ares e chegue nos ouvidos da menininha e diga bom dia. Sussurre pra ela que por detrás das nuvens sempre tem o sol. Jogue em seus ombros o mais aconchegante cobertor felpudo para que ela possa somente deitar a cabeça e adormecer, sonhar com praias lindas, algodão doce colorido, uma caixinha de música que toque só para ela, um abraço de mãe que a proteja de tudo e de todos.
E, por favor dia cinzento, cubra de nuvens as lembranças desse tempo para que ela possa ter de volta uma inocência roubada.
O dia cinzento me sorri, como quem tem piedade de minha ingenuidade, e segue firme, acinzentando a vida.
Esse dia cinzento se chama realidade.

11 comentários:

Anônimo disse...

Nossa Tatiana me emocionei vc escreveu com tanta sensibilidade, tanto carinho que eu cheguei imaginar a menininha recostada no cobertor dormindo e sonhando com a vida.

Tatiana disse...

é..eu ando bem sensível às questões da humanidade.
A realidade às vezes é dura e de difícil digestão, mas com delicadeza fica mais fácil...
beijos, anônimo tão sensível quanto eu

Rodrigo disse...

Belo texto, Tatiana.

Me emocionei com tamanha sensibilidade. Nestas poucas palavras habita a sensibilidade que muitos mais muitos serem precisam. Para ser sincero a humanidade precisa...

Beijo

Tatiana disse...

ô, Rodrigo
o mundo precisa de tanto...
nem sei direito por onde começar

Gisele Lobato disse...

lindo. lindo, lindo, lindo.

também ando sensível a essas questões, chorando escondida nos plantões de fim de semana enquanto edito reportagens dessas que ninguém vai publicar porque foram feitas em algum lugar tão distante que "não interessa ao nosso leitor".

Rosana disse...

Lindo! Esse texto de hoje arrasou!
Acho que aprendi, hein? Agora não perturbarei mais com emails, comento aqui mesmo.
Namaste!

Tatiana disse...

Gisele,
Deve ser terrível querer falar sobre uma coisa e não deixarem.
A gente explode...cruzes...
Será que só as mulhres sentem assim? Acho que não...
sei lá, viu...

Tatiana disse...

Rosana!
Muito bem!
Eu sabia que você conseguiria!!
Venha sempre. Seus email's sempre me tocam.

Lígia Moreli disse...

Lindo, lindo texto...Colorido de emoção, apesar de dizer do cinza da vida.

Tatiana disse...

Lígia,
é difícil ver essas coisas...dói até.
Eu só quero mesmo e estar fazendo alguma diferença. Uma pequenininha só...

Bruno Ribeiro disse...

AXÉ!