segunda-feira, 14 de abril de 2008

Descobertas sociológicas - HIPPIE

Com a chegada da irmã hippie, a Estrela do Mar ( hahahhahah) estou adentrando em um outro universo até agora desconhecido. Como vivem os artesãos de hoje.
Primeiro que hippie, hippie mesmo, não existe mais. Agora são " micróbios". Estou tendo uma certa dificuldade de entender que coisa é essa.
Micróbio é o que faz o artesanato na hora, rápido. É resistente a todos os problemas, vive nas ruas, dorme em " mocó" - um local que todos os hippies dormem juntos - não toma muito banho, não tem medo de nada, só tem medo de água, já dizia o compositor Ventania. Meio fedorento e possui pés sujos. Não produz um artesanato de qualidade e vive exclusivamente disso. Usa muito o sistema de troca para conseguir comida e gasta basicamente tudo que ganha para comprar a sua droga. Na pirâmide das classes sociais hippísticas, faz parte da base.
Outra variação é o "maluco de BR". Este segura mais a onda nas drogas porque gosta mesmo é de viajar por este mundão, precisa de grana para pagar o transporte, mas não dispensa quando rola alguma coisa que faça a cabeça. O Maluco de BR é mais asseadinho, mais preocupado com o ato de IR. Este doidão precisa se movimentar e segue as festas ( raves ) que rolam pelo Brasil. Seria um tipo de andorinha, que vai mudando de lugar seguindo o calor, as festas, as farras, uma vida de andarilho maluquete. A frase deles é "o mundo é pequeno pra caramba".
E tem uma outra variação onde minha irmã se encontra. Ela estaria no ápice da pirâmide social mas ela jura que ela é única. Não existe duas hippies-patricinhas. Neste casa esta espécime possui ( pasmem), cartão de crédito, celular com rádio, câmera digital, escova os dentes todos os dias e banho faz parte do ritual diário. Minha irmã lança um novo movimento social dentro do universo bicho-grilo. A sua proposta é conhecer o Brasil através do artesanato. Muita carona, muita caminhada, muita rodoviária, muito colchão na sala dos parentes e amigos.
E, nas suas andanças,ela me conta o que foi que observou.
Algumas regras têm que ser seguidas.
Para expor ( botar na pedra) precisa saber chegar. Tem que falar com todos os malucos, sem deixar nenhum de fora. Mas se aproximar primeiro logo do mais velho, daquele que aparenta ter mais moral. Se tudo der certo, o artesão abre seu pano. Isso é botar na pedra.
"Asa" é aquele pano com canos que fica sempre aberto. Minha irmã, coitada, não tem asa, tem um expositor de caixinha. Afinal, hippie patricinha é mais chique. Ela sofre um tantinho de preconceito por causa disso, mas leva de boa.
Se der problema nessa entrada, ou seja se os caras não deixarem expor, rola pau mesmo. Estrela do Mar já viu dois malucos se porrando e no final um deles teve que diminuir seu pano à metade.
Ela algumas vezes precisou peitar o cara que não deixava ela expor. Não dá pra baixar a cabeça porque senão não ganha o respeito do grupo.
O diálogo é mais ou menso assim:
-Colé, doidão? Tô a fim de expor meus trampo.
-Você é maluca?
-Maluca como?
-É maluca doida ou tá a fim de que mermo?Xô vê suas microbiagens.
-Qualé, negão! Tá me estranhando?
-Meu irmão (aboliram o genero feminino neste grupo), porque aqui só entra o artê mermo. Tá ligado? Esse negócio industrializado tá por fora. E não pode vir aqui xerocar não.
-Nada, bom. Aqui é tudo exclusivo.
Na hora de comer, todo mundo poe na pedra pra todo mundo. Quem tem comida, tem que dar pra todo mundo. É a lei. Bonito isso, né? Isso também se estende para bebidas alcóolicas, o que faz a bicharada ficar muito feliz, tudo doijdo, feliz tomando cerveja na pedra, sempre rola um violão, uma flauta, um balde que vira uma percussão. Tudo ali, na pedra.
Outra lei. Não pode recusar a comida nem a bebida. É uma afronta e uma indelicadeza. Estrela do Mar me contou que um dia recusou uma gororoba que veio em um saco e a coisa ficou feia pro lado dela. Entre hippie e patricinha, a patricinha falou mais alto, ela pegou seus panos e saiu fora, engulhando. Um momento de fraqueza.
Outra. É um meio careta. Não tem esse papo de sacanagem, mulher de um é mulher de um, homem de outra é homem da outra. Não vem com esse papo de amor livre que amor livre é o caralho. As mulheres são muito ciumentas, sempre usam saia, não podem ficar trocando idéia com outro maluco que não seja o seu e não podem mostrar as partes do corpo porque o companheiro " cobra". Os homens é que mandam. Quando se separam, as mulheres ou casam com outro, para garantir proteção, ou voltam pra casa da família. Artesã sozinha é coisa rara.
A pergunta que minha irmã mais ouve nas suas andanças:
-Tá casada com quem?
Quando diz que está sozinha cola algum maluco solteiro pensando que pode arrumar ali uma companheira de andança e as outras mulheres começam , naquele exato instante, a manter um olho bem do grudado nela, pra ver se a tal patricinha sabe se comportar. Porque se rolar treta, enfia um tubo inteirinho de arame no fiofó da outra. Mulher hippie é braba. Não é inteligente dar uma de pomba-gira doida que o tempo pode fechar.
Uma vez ela foi à praia e resolver abrir o pano da areia, mas estava tomando sol, curtindo a praia. Aproveitou para mostrar suas coisas. O namorado hippie dela chegou botando os bicho, porque mulher pelada não pode vender seus trabalhos. Deu uma confusão danada.
As crianças participam das rodas, têm atenção constante e tanto o pai quanto a mãe cuidam dos pequenos. Se o casal estiver viajando, as crianças não estudam.
Os ídolos dos micróbios são Raul Seixas e Ventania.
Drogas nunca faltam.
As brigas são feia e sérias. Rola pedradas, alicatadas, o que tiver na mão. Ela me conta que soube que uma noite, em um mocó de Sampa, dois hippies se desentenderam. Quando um deles foi dormir, o outro chegou lá e deu uma tesourada no ouvido do outro. Matou. Teve gente que viu, mas nunca se delata ninguém. Dedo-duro morre neste meio. Ela soube que este cara que deu a tesourada está sendo procurado pelos próprios hippies que vão obrar a parada. A Lei é a do grupo e não a dos homens.
Ou seja, é um outro mundo, com outras leis, outros códigos de conduta.
"Manguear" é vender o artesanato na mesa onde o cliente potencial está bebendo. Se mangueia por uma prato de comida, por uma bebidinha ou até para comprar a agulha nova para os artesanato. Manguear é a venda meio desesperada, qualquer valor serve. Você pode levar um anel de coco por um real e isso é até um bom negócio. E esse um real pode fazer com que mais de uma pessoa coma. Lembra daquele papo que tem que dividir a comida? Se faz mangueio quando alguém precisa de material ou de qualquer outra coisa e faz a troca com outro artesão. Quatro colares por uma saia. Semente por linha. E tudo é trocado com desconto, para que fique bom pra todo mundo. Mangueio é uma forma de comércio sem dinheiro. A velha e boa troca.
Manguear não é pedir esmola. Mas é alguma coisa bem perto disso. Minha irmã diz que é venda de artesanato em momento crítico. Emergência. Estamos aqui, neste exato momento, discutindo semântica. Mas ela discorda.
Uma tribo que está mudando conforme o mundo muda também. Mas continuam representando uma forma de repúdio à sociedade, uma forma alternativa.
Muito interesante. Me deu saudades de minha época de Ciências Sociais, lá pelas bandas da UNICAMP.
Isso dá uma tese ótima!




10 comentários:

Vivien Morgato : disse...

outro mundo,Tati,dava uma tremenda tese.;0)

Tatiana disse...

vivien
dava mesmo!

Georgiana disse...

Meu, seu blog é otimo. Vou colocar nos favoritos no meu! Prazer!

Georgiana disse...

Meu, seu blog é otimo. Vou colocar nos favoritos no meu! Prazer!

Danny disse...

Sim, de antropologia!
Adorei!!!! rs...
Beijos!

Tatiana disse...

Georgiana,
Muito obrigada!!!

Danny,
Eu to achando isso muito interessante!

Augusto Mota disse...

Neo-hippie sua irmã

artesaospelomundo@hotmail.com disse...

Nao sei em que "estrada" andou a sua irmã, mas o que relata não é a realidade.
O seu texto é mais uma prova dos preconceitos e das ideia erradas que têm acerca de nós.
Aconcelho-a a dar uma "olhada" em textos como : www.correiodesergipe.br.com ; www.recantodasletras.net/cronicas/463970
Neste mundo já há gente que basta para ver sempre o lado pior das coisas. Que tal fazer a diferença e mostrar também o lado bom?
Ivânia

Anônimo disse...

cara que merda que vc escreveu.pq vc não vai a campo e estuda mesmo oq é a malucada,ainda vai atrz de uma jagatá de merda

Anônimo disse...

Sua tal tese da malucada e horrivel,e sua irma deve ser uma cocotinha se pagando de hippie....a tal patricinha deve ter viajado com dinheiro do papai ai fica falando merda igual voce...se quizer falar de maluco vai viajar com um pra ver a realidade que voces desconhecem bando de hipocritas preconceituosos que usam nossa imagem pra falar merda......marmota do caralho