segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O amor de consumo e a satisfação instantânea

Vivemos em uma época de insegurança generalizada.
Não sabemos se amanhã teremos ainda o nosso empreguinho. Não sei se meu casamento durará para sempre, ao contrário, já começo achando que ele vai acabar um dia mesmo, afinal, quase todos acabam.
Não sabemos o que vai ser de nós, se pagarei as minhas contas mês que vem, se estarei como estou hoje. Então, como eu não sei o que será de mim, vai lá que eu morro hoje? Então eu vou aproveitar agora.

Um liquidificador.
Descobri que mandar ajeitar meu velho liquidificador sai mais caro do que se eu comprar um novo. As coisas estão quase descartáveis.
Os bens de consumo a longo prazo me dão garantias de anos ou meu dinheiro de volta. Eu compro, uso meu produtinho novo e fico feliz. Se eu não ficar, devolvo. Ou abandono e mudo de marca. Mas a minha satisfação tem que ser garantida. Afinal, sou o consumidor.
Isso está acontecendo também nas relações humanas.
Viramos liquidificadores. E consumidores.
As pessoas, especialmente os jovens, estão aí para se satisfazerem.
Eu vou em uma festa, sinto vontade de beijar um mocinho. Beijo. Daqui a pouco vejo outro mais lindo, mais fofo, mais alguma coisa. Abandono o antigo e sapeco minha língua insaciável na boca do outro. Descarto o antigo. Se eu quero agora, eu pego agora. eu não sei o que vai ser amanhã! Amanhã? Que amanhã?

Tenho um amigo que come todo mundo. É um degustador da mulherada. Mas é impressionante a quantidade de mulher degustada quem nem olha na cara dele depois. E não acredito que seja por incapacidade não. É porque ele descarta as mulheres sem sutileza alguma, sem aquela cínica mentira, aquele fingimento esperado. Ele não faz linha. E as mulheres se sentem um liquidificador quebrado. E ele é um consumidor. Quer satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. E com tanta novidade no mercado, a toda hora aparece um produto novo que faz alguma coisa nova e inútil.
Porque liquidificador é para liquidifazer. Não é para falar aramaico, nem virar um pista de dança, nem para abrir um compartimento que sai um palitador de dente feito de fibra de côco trangênica das Ilhas Fuji.
Mas que puta que pariu que é uma mania de novidade do cacete. Isso é o que? Medo do tédio?
Não temos mais paciência para cultivar uma relação. Quanto tempo se cultiva uma relação? Eu tenho duas horas entre o trabalho e pegar meu filho na escola. Olhe, se você correr, acho que dá para alinhavar uma relação nesse meio tempo, tá? Mas, não atrasa porque eu posso me distrair e aí eu acabo tendo que trocar o óleo de carro e você sabe como é, né? Trocar óleo de carro me consome as visceras e eu fico podre e eu não tenho mais ânimo para relação nenhuma.Ó, quais são as garantias que você me dá? Posso ter esse meu tempo perdido com você de volta, caso não dê certo?
Eu quero agora um orgasmo duplo, carpeado com mortal triplo para trás! Agora!
Eu quero que ele adivinhe o que me faz chorar deste jeito.
Eu não quero um homem que não saiba o que quer. Como se as mulheres realmente soubessem o que querem.
Eu não quero dor de cabeça.
Eu quero a satisfação do meu corpo, quero ir sem pensar onde vou, quero é gozar, é meter em meio mundo, quero as delícias e só as delícias.
Não quero problema porque eu já to por aqui de problema.

Aí eu me apaixono e fico doida. Acho que agora é para valer.
Caso, monto apartamento, coloco as escovas de dentes lado a lado, faço almocinhos especiais e espero o sexo animal no chão da minha cozinha. Por alguma razão, o cara não é perfeito. Eu sou, claro. Eu me amo antes de qualquer um, amo até meus defeitinhos, mas não to a fim de amar os defeitinhos do outro não porque dá um trabalho da porra, puta merda, eu já to sofrendo o diabo lá no escritório, tô cansada, tenho que chegar em casa e administrar uma relação? Ah, não, não quero isso não! Porque eu não mereço isso, sabe?
E dou um pé na bunda do cara e parto para outra.
Não é para sempre mesmo essa parceria. As parcerias são fulgazes, como os trabalhos são fulgazes, a vida é fulgaz. Meu desejo é fulgaz. Hoje eu gosto de você. Amanhã posso gostar de outro. Fazer que?

E lá se foi a espera delicada pelo futuro.
Cadê as cartas entregues pela mão gentil do carteiro? Não me conformo com a morte das cartas escritas.
Que carta simples o quê! Tem sedex 10, meu filho.
Eu quero um amor sedex 10!
Cadê a comidinha feita na panela de barro, lenta e saborosa como um amor construído dia a dia?
Que panela de barro, o cacete! Mete tudo na panela de pressão do amor e me cozinhe logo um romance em vinte minutos porque eu preciso que me sobre tempo para que eu deseje ainda mais alguma coisa que eu não tenho.
Eu quero agora, eu quero mesmo e se não vier eu faço uma carta de reclamação pra alguém.Meu direito de consumidor.

Eu vou reclamar também.
Eu quero reclamar a falta que me faz os planos a longo prazo. Eu quero poder voltar a sonhar com o futuro, com a nossa chácara onde eu vou poder plantar minhas ervas, com você do meu lado, as suas rugas cruzando as minhas rugas. Eu quero poder me programar a daqui a cinco anos.
Daqui a cinco anos nós vamos estar em Barcelona. Eu vou tocar na Europa e você vai comigo porque eu não consigo mais imaginar meu futuro sem você. Você vai adorar a Europa, tenho certeza. Eu quero poder fazer aquela blusa de crochê para você. Três meses de amor alinhavado ponto a ponto. Cada volta na agulha era um segundo marcado ali, no pano, na trama, o tanto que eu te amo hoje. E amanhã meu amor continuará porque eu sempre vou te amor hoje. O amanhã é o hoje de ontem e eu te amo em todos os tempos.
Mas aí eu me lembro que o tempo do mundo é do agora.
Hoje.
Amanhã é uma metáfora e eu com meu lirismo brega e atemporal recebo na cara a minha estúpida mania de pensar demais.

Caralho, eu quero meu futuro de volta!
Eu quero ser um liquidificador que passa de geração em geração.
Eu quero ser um móvel de mogno com pátina moderna e texturizado à mão que combina com a nossa sala de vários estilos de decoração.
Eu quero ser perene, merda!
Não quero ser um fast food.
Não quero ser novela da Globo. Quero ser um clássico. Quero ser Chaplin de chapéu de coco. Quero ser Tom Jobim em vez de Bonde do Tigrão.
Eu quero ser o futuro.
Mas não quero ser o futuro só e degustado.
Eu quero ter um passado também. Um passado que seja nosso. Meu e seu. Um passado que me dê vontade de ir pro futuro porque o presente com você é uma delícia.
Descobrir suas manias estranhas, outras manias estranhas. A forma que você mente, as reações de seu corpo quando você chora, o jeito macio que você me abraça quando dormimos juntos, seus pés se esfregando nos meus, as caretas que você faz e nem percebe. Seu medo de bicho que voa. Eu mato todas as baratas para você porque eu não tenho medo de bicho que voa, mas você tem que segurar as escadas para eu subir porque eu não gosto de alturas. Eu quero saber se você vai gostar de minha família, se eu vou gostar da sua tanto quanto eu gosto de você. Quero saber seus poemas prediletos. Quero ter as suas datas especiais gravadas em minha memória. Quero saber desenhar as linhas de sua mão de olhos fechados. Quero saber de você e você é tanto, tem tanta coisa aí fascinante que vinte minutos não dá pra eu descobrir e te amar todinho. Porque eu quero tudo, quero você todinho e, rapidinho assim, é desperdiçar uma pessoa. Não quero te desperdiçar na minha gula. Deixa eu te saborear, deixa! Fica na minha boca pro mais tempo. Deixa eu sentir seus cheiros todos, esses todos que você tem e que desabrocham pra mim. Fique nu mesmo em minha frente. Tira a roupa toda, tira o véu do olho, tira a armadura,me deixar te ver verdadeiramente nu por alguns segundos somente. Quero passar os dedos em suas cicatrizes, quero afagar cada músculo dilacerado. Depois você se veste de novo. Mas me deixe ver você de verdade. Não esse manual de conduta de consumidor que eu vejo em todas as caras que passam na rua.
Esquece essa urgência besta de não sei o que e segura a minha mão. Calma. Tem tempo pra viver. Porque viver assim, em goles incansáveis não é viver. É se embriagar sem perceber o sabor da uva adormecida no vinho. Não é saborear. É só engolir e depois evacuar a vida sem noção alguma do que viveu.
Calma que o tempo pode ser gentil.
Eu quero ter todo o tempo do mundo ao seu lado porque na pressa a gente esquece de se lembrar.
E eu não quero esquecer você, meu bem.
Não quero nunca mais esquecer ninguém.

7 comentários:

Morena disse...

Parabéns, traduziu com maestria nossos sentimentos de gente que ainda acredita nas relações. Hoje, as pessoas, fazem umas das outras de RODOVIÁRIA.

Ana disse...

Adorei tudo no seu blog. Parabens!!!!

Bjs

Anna disse...

Parabéns pela milionésima vez, Tati!!
duca...!!

Tati e Morena, posts especiais pra vocês duas no efervessência!

http://efervessencia.blogspot.com

Beijos!
Anna

Vivien Morgato : disse...

Comentei com minhas alunas que essa história de beijar duzentos em uma noite era a coisa mais capitalista que eu já tinha visto...acúmulo pelo acúmulo, olha quem tem mais e outras bobagens.
beijos, querida.

Danny Reis disse...

Afe Maria, que você sempre escreve o que eu gostaria de dizer!
Só tem um detalhezinho aí que você esqueceu: que carta o quê, menina? Nem com Sedex! Os relacionamentos são rápidos como e-mails. Pior: como os scraps do Orkut.
Coisa mais triste...
Eu também quero um futuro, um passado, uma história. Cansei de ser descartada e de ter que descartar.
Onde se encontra um homem das antigas hoje???
Beijos!

Claudia Lyra disse...

Ai, Tatiana... sabe que tem gente que, depois de ficar sabendo a quanto tempo estou casada, me pergunta de forma admirada: "por que?!?!?!?"
É como se eu tivesse uma falha moral, uma falta de interesse pelo novo... estranho, viu!

Adriana disse...

o que eu vejo por aí é que não há mais amores, há fast food! Mas tem gente no mundo que busca amores, como eu, vc, a Danny. O problema é que somos uma sociedade secreta! hehehehehe

Bjks de Nini