domingo, 9 de setembro de 2007

Dona Maria

Dona Maria é uma nordestina séria e trabalhadeira que, mesmo morando há anos em Campinas, não perdeu o forte sotaque.
Faz faxina três vezes por semana em uma casa onde moram um casal gay e uma amiga bissexual, meio em dúvida. Serviço bom, pagamento justo.Por ser discretíssima, tem total acesso a todos os aposentos, trabalha em paz , sem ninguém lhe encher o saco.
Um dia, Dona Maria liga, apavorada:
-Mas pelamordedeus, me acode aqui que eu to morrendo! Eu to sentindo que eu to morrendo agora, neste instante!
-O que foi, Dona Maria?? O que a senhora tá sentindo?
-Ai, meu Deus do Céu! Eu comi um negócio aqui que deve estar podre, estragado porque eu to passando mal de me acabar!
-To indo e mandando uma ambulância.
E lá foi meu amigo correndo pra casa, para dar assistência à Dona Maria que estava com o pé na cova.
Ataque cardíaco? Apêndicite? Cacete viu, só essa que faltava. Puta que me pariu, viu...

Entrou correndo na casa, encontro a pobre coitada estirada no sofá. As pernas abertas, o vestido levantado, a cara branca que parecia um lençol.
-Dona Maria! O que foi Dona Maria?
- Ai, eu to aqui morrendo. - A voz completamente embolada. O corpo mole, sem força nem pra abaixar a saia. A mão fria como a de um defunto - Comi um biscoitinho podre, porque aquilo deve tá podre faz é tempo, um biscoitinho de chocolate que tava na lata. Ai, porque eu fui comer uma coisa dessa? Eu to com uma secura na boca, uma sede dos infernos. O Demo! O Demo deve tá na minha barriga, salgando as minhas tripas porque eu to morrendo aqui...Valha-me Deus.
-Um biscoitinho de chocolate? - meu amigo pensa: fudeu!
-Sim! E agora eu to aqui sentindo que minha alma tá indo embora do corpo. Não to sentindo os pé. Nem as mão!! To tendo um treco!
E chorava. Dona Maria chorava de se acabar diante da possibilidade da morte iminente.
- Calma, Dona Maria. Pera aí que eu vou te dar água! E te dar um doce. Você tá precisando de um doce!
E lá foi meu amigo pegar doce de abóbora e socar na boca da Dona Maria para ver se o barato da coitada passava.
-Ai, que eu não quero essa abóbora doce, não! Porque não convém comer nada nessas horas de morrer! Eu não quero esse doce não, seu moço!
Meu amigo de nervoso, talvez, teve uma crise de riso daquelas descontroladas. Riu de gargalhar, riu de chorar, riu tanro que ele também caiu no chão.
Dona Maria era humilde mas não era besta e bem que desconfiou que aquilo estava meio esquisito. Especialmente quando o patrão dispensou a ambulância e garantiu que daqui a pouco ela ia melhorar.
E ela melhorou mesmo.
Melhorou e voltou ao seu ritmo natural. Nunca mais pegou nada da geladeira, levava sua marmitinha de casa. Na casa daquele povo estranho, só se pega água. E se for mineral de galão. Quando sua filha Juliete foi ajudar lá na faxina, avisou a ela: não pegue nada aqui, nadinha de nada sem me avisar!
E a besta da Juliete não deu ouvidos a sua mãe. Como toda moça de 18 anos, seríssima, sabia se virar bem e achava que a mãe exagerava mesmo. Tinha dado sua aula de catequese e foi ajudar a mãe. Tava com uma fominha básica.
Viu aquela latinha de biscoitos de amendoim. Tinha só três. Comeu dois.
E de repente, foi dando nela um ataque e alguma coisa. Um calor. Uma secura na boca. Via coisas. Seu corpo todo pulsava. Cada célula sua ardia. Um zumbido grave nos ouvidos. Sai correndo pelo jardim e tentou escalar o muro.
A mãe, Dona Maria, correndo atrás:
-Juliete, mulher, você comeu o que, Juliete? Juliete, eu não te disse pra não comer nada aqui, Juliete?
Juliete, muito doida, não sabia se corria ou se ria. Não sabia o que estava dando essa vontade imensa de sair voando. Aliás, porque será que os homens não voam, deviam voar. Ela voava, tinha certeza que se ela subisse no muro e saltasse de lá, ela voaria. Agarrada ao muro, ouvia o barulinho bom das suas unhas no cimento. Créc, créc, créc...bunito esse barulinho. Cré. Créc. Créc...ai que lindo...As pernas bambas..a mãe falando lá de longe...
-Juliete, sua filha de uma égua, eu te disse que aqui não se come nada! Ai, minha Nossa Senhora! Lá vou eu levar Juliete pra o postinho.
Dona Maria largou o serviço pela metade, largou o banheiro com água sanitária no chão, os vidros abandonados por Juliete que agora queria lamber o muro e gemia como uma louca, dizendo que estava sentindo o gosto do xulé de Deus.
Com muito sacrifício, entrou no ônibus e foi parar no postinho de saúde do bairro que morava.
-Ó seu dotô, Juliete comeu uns produtos estranho na casa de meu patrão e agora tá assim. Eu, uma vez, comi unzinho só e fiquei horas passando mal. Ela comeu dois, essa esganiçada comeu dois e agora tá lambendo o dedão de sei lá quem! Me acuda aqui!
Juliete foi dopada e passou dez horas dormindo em uma viagem muito louca.
Dona Maria ficou puta da vida mas nem tinha como reclamar porque os tais biscoitos do demo estavam guardados lá no fundo do armário e Juliete não tinha nada que ter essa mania de formiga e ficar comendo os doce por aí. E ela tinha avisado: nessa casa só se consome água!
Juliete, quando voltou do barato dela, jura que teve uma revelação espiritual e as suas aulas de catequese estão cada vez mais cheias. Ela está inspirada com as coisas que viu quando lambia o muro.
Dona Maria, pobre, mas de besta não tem nada, pensava:
-Tá bom. Eu bem sei que revelação foi essa. Biscoitinhos dos infernos, isso sim.
Mas para manter o emprego e o entusiasmo da filha, calou-se e agora, além da marmitinha, leva uma garrada de água.
Só para garantir. Vai lá que eles resolvam fazer alguma coisa direto na caixa d'agua. Ah, agora não pegam mais ela não. Nem a Juliete.

10 comentários:

Anna disse...

hahaha
é verídico isso aí?
ah iaiá...
que engraçado meu!

Marina F. disse...

Haha, ótimo texto.
Menina, tô de ressaca até hoje.
beijo e boa semana.

Tatiana disse...

É sim.
Isso é um caso verdadeiro. Como tudo que eu conto aqui, né?

Tatiana disse...

Hehehehehhe
Eita farra, né?

Galera do Fumacê disse...

hahahahahahhaha
biscoitinhos de maconha????
hahahahahah
queria a receita.
publica aqui?

Claudia Lyra disse...

Guria, muito engraçado!!! Tô precisando de uns biscoitinhos desses aí, viu!

Vivien Morgato : disse...

xulé de Deus foi o máximo....rs

Tatiana disse...

Publicarei uma receita que achei na internet!

Lord Broken Pottery disse...

Tati,
Divertidíssimo! Imagino a cena e morro de rir.
Beijão

Morena disse...

Conheci uma pessoa que fez um bolo.
Receitinha ótima.