segunda-feira, 2 de julho de 2007

Notícias daqui de casa

Meu filho,
O fato de eu não ter você aqui em casa, sujando todos os copos, bagunçando a casa e me contando piadas dos seus livros de piada me dá mais tempo do que realmente preciso. Por isso escrevo tanto. Me sobra mais tempo do que o normal e escrever virou uma compulsão.
A casa está estranhamente arrumada, fora a cozinha. Preciso confessar que não é só você que suja as coisas por aqui. Devemos ter um duende morando na cozinha porque é só eu me distrair, bum! Ele vem e suja alguma coisa. Não é possível que eu faça tanta bagunça sozinha. Então passo o tempo sujando e limpando, limpando e sujando.
Estou um tanto obsessiva, tenho que confessar.
Hoje acordei e comecei a tirar aquele mundo de coco de cachorro e você tem toda razão. Precisamos costurar aqueles fiofós com urgência. Como podem produzir tanta merda em tão pouco tempo? Sinto sua falta ainda mais nesta hora. Saudade é uma coisa assim, simplesmente aparece.
Aí eu olhei para os cachorros e achei que eles mereciam um cuidado também. Ando mais afetuosa com os cães desde a morte de Hermeto. É como se eles pudessem morrer a qualquer momento e eu não quero que elas morram sem saber quanto eu gosto deles. Mancha ganha carinhos mesmo quando sobe em sua cama. Quer dizer, ele desce da cama quando me vê e faz aquela cara dele, mas eu finjo que estou brava e faço um cafuné gostoso em sua cabeça. Mas não na mesma hora. Espero passar alguns minutinhos, para que ele não folgue ainda mais.
Cacau vem deitar ao meu lado quando estou no computador e sempre geme. Não sei se é dor ou é dengo. E tem roncado mais do que onormal. Os puns fedorentos continuam como sempre, isso não mudou em nada. Mas ela vem chegando, bem de mansinho, a cabeça baixa, simplesmente deita perto de meus pés e fica ali. Fico esperando o pum fatídico. Sempre vem. Ela está trocando pelos e se eu juntasse todos eles poderia fazer uma linda peruca de cachorro.
Tila ainda gosta de deitar perto da pia da cozinha e ela parece que sente a tua falta. Tila tem o olhar mais profundo que eu já vi em uma cachorra, voc~e não concorda?
Resolvi que estava na hora de limpar eles também, já que estou limpando tudo e todos por aqui.
Primeiro peguei Cacau e coloquei dentro do box do banheiro. Eu sei que não se dá banho em cachorro no box do banheiro, mas a água lá de fora deve estar fria e eu precisava mesmo fazer um faxinão no banheiro. Acho que ela estranhou muito esse negócio de banho de chuveiro quente mas quando a água começou a escorrer pelo seu corpo eu acho que vi um sorriso ali. Usei aquele sabão anti-pulgas que você achou aqui em casa. Tem que deixar três minutos para fazer efeito, então eu aproveitei para fazer uma massagem especial nela e ela parece que chegou ao nirvana. Como o sabonete não tem um cheiro assim tão perfumado, passei shampoo Seda para Cabelos fracos. Achei que como ela estava trocando os pelos seria o mais indicado mesmo. O box do banehiro ficou cheio de pelos loiros e algumas pulgas morreram afogadas.
Tila veio depois. Como ele fede naturalmente resolvi dar um trato maior. Usei o sabonete anti-pulgas, o shampoo Seda para cabelos escuros e ainda aquele outro da Ox, aquele que tem cheiro de merda nenhuma, mas um tom rosa que é muito bonito. Eu juro que ela está quase perfumada. Ela também bebeu a água que caía do chuveiro, parecia que bebia água de chuva.
Mancha foi mais difícil de pegar. Tive que correr em volta do carro e só consegui pegar porque pulei o capô e peguei ele pelo rabo. Foi meio ridículo porque ele conseguiu meter as patas no batente da porta e eu tive que fazer uam certa força para colocar ele dentro do box. Usei, além do sabonete, o shampoo Seda para cabelos escuros e o condicionador da Ox que deixa meu cabelo uma bosta. Mas pro Mancha deu muito certo porque o pelo dele ficou de um brilho que parecia propaganda de shampoo de cachorro.
Os cachorros estão limpos e lindos. Você precisava ver. Agora que estão limpos e perfumados, não entram mais em casa. Acho que estão com medo que eu dê outro banho neles.

Sua tia te mandou um pingente de ônix, uma pedra escura que muitos povos consideravam uma pedra mágica. Tá aqui. Coloquei dentro da água com sal, lá no quintal, de baixo da lua cheia. Quando você chegar vai estar prontinha para você usar. Eu ganhei um de quartzo rosa e seu irmão, um de quartzo verde. Muito apropriado, devo dizer. Perfeito para cada um de nós.
Sua vó me fez um sapatinho de tricô. Imagine um sapatinho de bebe tamanho gigante, na cor azul celeste. Estou com eles agora nos pés. Realmente esquentam mas me sinto um tanto ridícula. Tenho certeza que quando você chegar, vai querer usar também e eu vou perder o meu sapatinho de trico gigante. Ela te mandou um beijo e está adorando viver no meio do mato. Tem uma história dela neste texto aí de baixo. No verão, se tudo der certo, iremos para lá. Tomaremos banho de cachoeira, faremos trilhas e olharemos as estrelas mais brilhantes do mundo.
Seu irmão continua na faculdade, as aulas dele ainda não acabaram e eu to morrendo de saudade dele também. Tô louca que ele venha logo para ficarmos vendo filmes juntos, aqui no meu quarto. Isso é, se ele largar o computador, né?
Não se preocupe com o trabalho aqui. Continuo na corrida, marcando shows e, como eu sempre te digo, eu vou dar um jeito nas coisas. Sempre dou, né? Então...fique tranquilo.
Fico pensando em você na serra de Santa Catarina. Deve estar um frio do cacete ( não fale essa palavra aí ) e espero que você use os agasalhos que coloquei em sua mochila. E não ande de meias pela casa. Encarde as meias e é um saco lavar meias sujas desse jeito.
A lua hoje está imensa e branca. Você gostaria de ficar olhando para ela enquanto eu invento histórias fantásticas para você. Mas como você está longe e eu aqui, quem senta do meu lado é Tila e ela me olha lá dentro de mim, encosta sua cabeça em meu ombro e ficamos, nós duas olhando a lua. É bom isso porque as noistes estão frias e ela me esquenta e eu esquento ela. Uma boa troca, né?
Nenhum amigo seu veio berrar teu nome no portão. Um silêncio medonho retumba pela casa.
Hoje, varrendo seu quarto, encontrei uma família de aranhas morando no vão do teto. Me lembrei daquela sua aranha que você adorava e que eu expulsei e essa lembrança me fez deixar todo mundo ali. Ah, o que é umas três ou quatro aranhazinhas em um quarto vazio, não acha? Quando você voltar, eu transfiro elas para o quintal, por enquanto, deixei elas lá, no quentinho do seu teto estrelado.
Sei que você não lê meu blog, nem dá bola para meus textos, mas eu queria te escrever assim. Sinto saudade de você. Aliás, sinto saudade. Muita saudade. Saudade do Hermeto, meu gato maluco. Saudade dos teus barulhos e de teus comentários engraçados. Saudades de mim, como tua mãe.
É verdade. Preciso mais de você, do que de você de mim. Sem você, quem cuida de mim? Quem me faz comer nas horas certas? Quem me faz voltar para casa? Voc~e cuida de mim sendo somente meu filho e se comportando como meu filho. Sem você sou somente mais uma mulher solitária que briga para pagar as contas. Com você eu sou uma mãe e isso, meu filho, faz toda a diferença porque as mães sabem ser felizes com as coisas mais mínimas. Com vocês perto de mim eu fico mais feliz só por estarem perto de mim e eu sei porque acordo todo o dia, porque trabalho, porque brigo. Eu faço isso tudo por vocês. Uma excelente razão para viver e lutar. A melhor razão do mundo porque vocês, meus filhos, são o futuro, são o porque de tudo isso. Eu nunca questiono o que vim fazer aqui neste mundo porque mesmo que eu não faça mais nada que preste nessa vida bunda eu sei que já fiz duas coisas realmente impressionante: vocês! Posso ir embora daqui tranqüila porque alguma coisa realmente relevante eu fiz.
É, meu bem. Sua mãe é prolixa. Lembra de prolixa? O contrário de sucinta. Sua mãe não sabe conter as palavras, sejam elas escritas, sejam elas faladas.
E quando a saudade encharca o peito assim, preciso dar vazão de alguma forma. Por isso escrevo porque se não escrever posso morrer de saudade e morrer de saudade é uma coisa bem piegas.
Mas, meu bem, meu coração de mãe é piegas, brega, melado e saudoso.
Volta logo.
Não. Me desculpe esse egoísmo medonho. Demore o tempo que for, mas volte porque eu aqui sozinha me sinto muito estranha, quase um outro EU e eu não gosto de não me reconhecer aquando me olho no espelho.
Divirta-se. Seja educado. Não fale de boca cheia. Palavrão, de jeito nenhum. Nem bosta, não fale bosta, merda, nada dessas coisas. Seja educado, tá? Não ria do sotaque do povo daí. É feio isso. E saia para conhecer o jeito de viver deles. Ah, esqueça as novelas. Deixe disso! Vá viver as férias, nada d eficar grudado na televisão. Arrume a sua cama, leve os pratos para a pia e pare de deixar copos espalhados pela casa. Achei um em cima da estante de livros. Porra, Matheus, em cima da estante é de matar, né? Nãoesqueça que você vai ter que fazer os trabalhos da escola. Não marque touca. Conversamos sobre isso e espero que não me decepcione. Tô contando com isso, meu bem.
Continuarei te contando as notícias daqui. Como se fosse um jornal que você acompanha. Assim, quando chegar, não vai estranhar nadinha.
Tô com saudades, filhote.
De sua mãe que te ama


7 comentários:

Luciana Farias disse...

Querida: não sei se rio, se choro, se te abraço... na emoção, faço todos ao mesmo tempo!!!

beijocas...

Anderson-kbça disse...

mãe é mãe... o resto! existe resto?

é isso, as vezes é bom ter saudade. Significa que você viveu bons momentos e os quer de volta...

abraço. bom dia.

Lígia Moreli disse...

Um dia vou ser mãe e vou entender isso...eu acho...rs
lindo texto!
divertidíssimo também.
beijos

Claudia Lyra disse...

Merda, Tatiana...

Vivien disse...

Tati, vc é fogo. A Luciana disse tudo, de forma perfeita.
Caramba, Tatiana..!

Adriana disse...

Filho é bom, né?

Lord Broken Pottery disse...

Tati,
Maravilha de texto. Já disse e repito, adoro o seu jeito de escrever. Você mandou esse texto pro Matheus ou ele tem como ler onde está? Se eu fosse ele imprimia e guardava pra toda vida. Ia esquecendo de dizer: bacana o menino gostar tanto assim de aranhas, bom sinal (não resisti!).
Beijão