sexta-feira, 13 de julho de 2007

Falando do corpo

Quando eu era mocinha, eu não me enquadrava fisicamente no modelo de beleza da época.
Na Bahia de 25 anos atrás eu era diferente daquilo que se achava bonito. Alta, bem mais alta que a maioria das meninas, com peitão e pouca bunda. A famosa "chulada" como se falava na época. Há 25 anos, as mulheres cortavam os peitos fora, imagina colocar silicone! Quem tinha peitão sofria porque os peitos não cabiam em nenhum sutiã de biquini, camisa justa, nada disso. Eu sofria.
Virei atleta. Treinava cinco dias por semana volei, fazia musculação, corria na praia, treinava caratê, era forte para caralho, mas ainda fora do padrão porque naquela época mulher sarada era também estranho. Meus ombrões de jogadora de volei, minhas costas largas, minha excessiva força física, minha tendencia para sair por aí dando pernada em homem folgado, tudo isso era estranho. E eu sofria porque não via que eu era uma jovenzinha muito da massa, eu achava que eu tinha que ser miúdinha, bunduda, despeitada e delicadinha. Mas nem com todo o esforço do mundo eu conseguiria chegar ao padrão porque peito dá para diminuir, mas osso não se corta fora. E não existe plástica para personalidade.
E assim eu cresci. Comecei a namorar, fui vendo que eu não era o protótipo da mulher mas tinha lá meus charmes e me agarrei a eles.
É verdade, bunda é um sucesso nacional, mas a minha humilde bundinha não tem celulite. Isso é uma benção, não é verdade? Tem gente que curte um bom par de peito. Pernar fortes sempre são pernas fortes e agradam. Meu cabelo sempre foi um belo cabelo, um cabelo sem frescura que gosta mesmo de colorama e neutrox, sempre em ordem mesmo diante da maior ventania. Bom também. Um sorrizão quente. Ter braços firmes é uma boa também.E aí foi. Saquei que eu era o que eu era e ponto final.
É claro que já ouvi comentários medonhos. Como o de um cara com mais de 1 e 90, batedor de centro da seleção baiana de volei. Era um tipo de namoradinho e, uma vez, durante um abraço, me disse que ele achava que estava abraçando um rapaz, porque eu era grande e forte. Ele, praticamente um ogro de tão grande e musculoso me dizendo isso deixou uma sensação ruim em mim. Ou então; " Minha filha, para onde foi sua bunda?". Eu dizia " Foi para a tua mãe, aquela véia gorda, seu filho de uma égua".
Não ter bunda na Bahia, na década de 80 foi o ó mesmo.
Mas o mundo mudou, eu mudei, a vida mudou.
Eu envelheci dignamente.
Tô com 40 anos bem vividinhos. Dois filhos, meus peitos amamentaram muito e eu fiz meus filhos bem felizes com a quantidade de leite que produzi. Toda aquela massa muscular que tive no passado e que me causou um monte de problemas, hoje são a minha benção. Sou uma quarentona forte ainda porque o corpo tem memória e minhas pernas ainda seguram um bom tranco, meus braços não estão moles e posso dar tchau a vontade, sem passar vexame. Se quiser, uso mini saia, apesar que depois de uma certa idade fica meio ridículo uma micro saia em uma mulher de minha idade, mas se eu quisesse pagar esse pau, eu pagava. Minha pouca bunda não causa volume, não tenho culote, as carnes não vazam por todo o canto. Minha pouca bunda não me impede de sambar por horas e mais horas e me divertir horrores. E isso tudo se deve a anos e mais anos de trabalho corporal fudido e puxado. Claro que rola também uma genética aí dando uma força, mas eu suei para caralho para estar do jeito que cheguei.
Depois que tive que parar com as corridas e os esportes por causa de um menisnco podre, descobri a yoga e com ela mantenho a mente e o corpo em ordem. Não, não eu não posso mais correr por aí em terreno duro porque meus joelhos vão reclamar. Sim, eles são meu ponto fraco, ainda travam, ainda incham, ainda gemem, mas eu to fortificando a musculatura de sustentação para diminuir os estragos e nunca aceitei entrar na faca. Medo mesmo.
Hoje aos quarenta anos tô feliz com meu corpinho. Por incrível que pareça, mais feliz do que quando eu tinha dezoito porque, aos dezoito, eu era uma bobinha que achava que tínhamos que ser mais ou menos do jeito que o mundo quer e sofri por besteira. Hoje eu sei disso, mas na época eu não via assim e passei meus maus bocados.
Tô aqui reclamando da busanfa pouca, mas antes assim do que pelancuda, gorda, mole e gelatinosa.
E tem mais. Sempre posso desviar a atenção colocando um decotão afrontante sair por aí, espalhando fartura peitoral, se eu quiser.
Felizmente aprendi que o corpo, grande ou pequeno, duro ou mole, feio ou bonito, pode sentir da mesma forma e eu to é me lixando porque não quero ganhar mais o prêmio miss piscina. Eu quero é sentir! Eu quero é viver. E meu corpitcho de quarentona sente e vive muito mais do que quando eu tinha dezoito ou vinte e cinco. Meu corpo de quarenta tem memória, referência, conhecimento e autonomia. Meu corpo de quarenta hoje, sabe muito bem o que quer, como quer e como conseguir. É, meu bem...os quarenta são foda. São ótimos. São tudo de bom.
E foi esse o melhor presente que eu ganhei aos quarenta anos.
Libertação.
Me libertei do meu corpo quando aceitei ele do jeitinho que ele é.
Mas ainda podem me encontrar aqui em casa, toda suada, me contorcendo toda nas posturas de yoga, porque o negócio é "orai e vigiai".
Vigiar é olhar no espelho e orar é manter meu corpo corpo em ordem, do jeito que eu puder. Mesmo sem bunda.

8 comentários:

Zéfiro, o desbundado disse...

Sucesso é a pessoa escrever sobre a
própria bunda, detalhe: a ausência dela e receber dezoito comentários.
Quando o blog pega, pode escrever sobre caspa, que até careca dá palpite.
Dá-lhe garota!

Tatiana disse...

Zéfiro,
Eu me lembro de quando vc começou a pintar por aqui. Aí sumiu.
Aí voltou, todo cheio de armadura e cavalo branco, defendendo essa humilde escriba aqui de uns malucos.
Adorei seu retorno e teu humor é muito, muito parecido com o meu.
Tenho até medo.
E vc tem cara de blogueiro.
Deveia ter um porque eu iria me deliciar com teu humor ferino e essa tua boca suja.

Despeitadinha disse...

Eu sofro do oposto. Muita bunda e pocuo peito. Hoje o máximo e peitão. Já me eprguntaram porque eu não dava uma turbinada da comissão de frente.
Ou seja, a gente nunca tá perfeita.
Bosta

Luciana Farias disse...

Pois é... eu tenho bundão com celulite, HAHAHAHAHAHA...

E também sofri por conta do peito grande. E por causa do cabelo liso escorrido.

Tó doido, né, rsrsrsrsrs...

Beijão, querida!

crica disse...

Escreveste um texto imenso pra dizer que percebeu aos 40 a gostosa que és (sem bunda, mas gostosa) e diz que já não é mais a menina que achava que precisava andar sobre os padrões de beleza?
Acietar o corpo gostosão é fácil, nénão???

Tatiana disse...

É sim, Crica.
É muito mais fácil.
Mas ema ema ema, cada um com seus problema!

Claudia Lyra disse...

Pois é... se, aos dezoito anos, a gente pudesse ter a cabeça que tem aos 40... mas aí seria covardia, né? Seria o verdadeiro "conosco ninguém podemos"...

Huahauahauauhauhauahua...

Renata disse...

eu fico pensando, como deve ser ter um cabelo que fica bom com qualquer coisa? que felicidade!