domingo, 15 de abril de 2007

Para onde foi?

Faz tempo que não faço uma canção e isso me incomoda mais do que posso confessar.
Uma pessoa que se diz compositora e que não compõe, deixa de ser o que acha que é e eu estou sem me reconhecer. Tô me olhando no espelho e não me vejo ali. Vejo uma mulher oca.
Eu sem criar me sinto absolutamente inútil neste mundo. Não sou nada a mais do que uma cantora que repete, que reproduz, que copia. No meu caso, me copio e me reproduzo. Sou mais uma. Só mais uma.
Não adianta me dizer que uma cantora é sempre uma cantora diferente da outra. Elis era única. Billy era única. Eu sou única. Aquela que berra no chuveiro também é única. Eu sei disso. Só que no instante que eu comecei a compor abri uma porta que eu gostei de ver aberta. Me dá visão a um mundo diferente desse que eu vejo aqui, uma outra paisagem.
Não quero viver de portas fechadas depois de olhar para tantos lugares.
Não sei se consigo dimensionar o tamanho dessa sensação que me agonia.
Não sei ao certo porque estou assim, seca de notas e melodias. Só letras, várias tantas me rondando a mente, como se eu fosse um alfabeto histérico soltando letras, palavras, juntando pequenos símbolos, formando frases.
Cadê as minhas músicas?
O que eu fiz para me abandonarem assim?
Claro que eu sei.
Eu simplesmente fiquei desonesta. Cerebral. Não quero me expor nas canções que faço e , assim, sequei a fonte porque eu não sei ser outra coisa que não seja coração. Um coração histérico, abusado, barulhento, meio mexicano e completamente musical. Mas eu sou feita de um coração que é som.
Eu faço catarse, quando canto. Faço catarse quando escrevo aqui. Como não ser catarse quando faço canções?
Impossível.
Mas eu quis mudar minha natureza, quis preservar a mim e quem está em minha volta. Bobagem, uma imensa bobagem.
Porque eu quero mais é que todo mundo se foda se entrar em mim, pelas músicas que faço. Quero mais é que saibam que eu sofro como o cão, que quero mais é fazer milhares de canções em tom menor, canções bregas, óbvias, sangrentas, cheias de chocolate, cheias de indignação, cheias de lamúrias e esperanças. Porque eu sou assim. Brega, óbvia, sangrenta, cheia de chocolate, de indignação e esperança. Quero cantar a felicidade idiota de um amor estúpido e fugaz. Quero dizer o que eu estiver sentindo de verdade. Seja a bosta que for.
Eu segurei as ondas do meu peito e agora meu peito travou, minha mão não sabe o que fazer quando passeia pelo braço do violão e eu sei exatamente o que é precisar desesperadamente que alguém faça uma canção que diga exatamente o que meu peito sente. Preciso achar a criação de outro para me fazer identificar. Um suplício isso para mim. Essa dependencia criativa é uma grande de uma bosta!
Então eu decreto aqui e agpra que se fodam todos e tudo a minha volta.
Não quero saber de proteger ninguém, de não dar bandeira. Eu sou uma bandeira só! Se não quiser virar música na minha vida, suma de perto de m im, largue meu corpo, saia de perto, tire essa mão lazarenta de dentro de minha calcinha, não me perturbe, não me apareça na madrugada, não me ligue e não me atente. E pare de me olahr deste jeito.
Porque quando esse alguém sumir de vez, eu farei as mais lindas canções de saudade que eu posso fazer. Eu cantarei a dor do abandono, a solidão na cama, a saudade. Eu serei mil canções.
Milhões de canções.
Podem ser até canções ruins, mas serão as canções mais honestas do mundo! Serão as minhas canções, meus filhos zarolhos e mancos, mas meus! Podem ser óbvias como eu, mas são obviamente o retrato de meu coração na hora que saíram de mim.
Cansei, cansei de estar tão só, sem minhas melodias.
Cansei dessse exílio. Dessa prisão pelas boas aparências.
Não quero mais saber de discrição.
Foda-se.
Como eu disse, se não quiser virar canção, vire distância.

7 comentários:

Adriana disse...

Valente Guerreira...com certeza encontrara novamente sua inspiraçao..afinal pelo desabafo encontraste o porque deste vazio...entao agora maos a obra...
Te envio desde aqui muito pensamento e energia positiva para voce.
Beijinhos carinhosos do outro lado do oceano

Fernando disse...

Seu desabafo histérico não resolve o problema da canção. Mas que deu um belo tema, deu. Olha só:

"...se não quiser virar cancão, vire distância."

claudia lyra disse...

Bom... e se não virar distância, que vire canção! E aguente as consequências disso...

Vivien disse...

Suas letras são lindas, sou uma fazoca assumidérrima, Daniel falou que até os gatos lá em casa cantam tatiana rocha.
E criar é se expor mesmo, não vejo outra forma. A não ser quem "cria" burocraticamente, produção em série. Mas ai, nem conta.

Cristiano disse...

Calma, que de novo curas, e crias, e cantas, e vira sons, rimas num verso, verso numa poesia. Calmaria, que a furia de sons chega já, pra tu chover de novo seus ais.

Artur disse...

Você precisa de uma paixão. De uma catarse, daquelas de revirar os olhos. Uma paixão, e pronto!, a inspiração vem fácil, fácil... Como a gente não ama apenas uma vez na vida, a paixão já, já chega.

Fernando disse...

Ou então umas 3 ou 4 doses de um bom engasga-gato. Isso mais um violão às vezes quebra o maior galho.