quinta-feira, 26 de abril de 2007

Leis que não são explícitas

Existem algumas regras de conduta que não estão escritas em lugar nenhum mas quem tem o mínimo de noção, segue.
Por exemplo, não se chega na casa dos outros e vai abrindo a porta da geladeira, metendo a mão na panela que tá no fogão, dando esporro no filho da dona da casa. Uma questão de educação, certo?
Na música é assim também. Existem algumas posturas que precisam ser seguidas para que não haja nenhum desconforto.
Exemplos:
1-Não se pega, de jeito nenhum, instrumento de ninguém sem autorização do dono. Nem percussão, que todo mundo acha que pode ir chegando, pegando um chocalhinho e sair por aí sacudindo como se tivesse Mal de Parkinson. Isso é uma lei importante.

2- Não se sobe ao palco sem convite expresso de quem está tocando. Tem que convidar mesmo, formalmente.

3- Canja é para se cantar duas canções no máximo. Toca mais de o dono do trampo pedir. Se não pedir, é melhor sair elegantemente.

4- Existe sim uma hierarquia. Quem tem cabelo branco tem mais moral. Os mais novos tem que baixar a cabeça para quem é mais velho. Respeito pelo tempo de estrada, mesmo que o músico velho seja uma merda. Mesmo assim.

5- Negar canja é indelicado. Fica chato para quem nega. Feíssimo. Indelicado. Grosso. Feio. Egoísta.

6- Dar canja é fazer merda é um vexame da porra. Se não aguenta, nem tenta!

7- Atravessar trampo é feio. Muito feio. Você vai com um músico no bar, assim que o trampo acaba o músico vai lá e tenta marcar uma data com OUTRO parceiro. Feio. Muito feio.

8- Você manda um lima no teu lugar. Lima é aquele músico que te cobre quando você não pode ir. E o porra do lima quer pegar o teu trampo. Isso é feio. Não se faz. Lima tem que saber ser elegante.

9- Falar mal de músico é péssimo. Falar mal de colega. Terrível, terrível e terrível. Pensar pode. Falar, não.

10-Músico não pode encher a cara e fazer merda, mexer com a mulher do dono do bar, lamber as costas do cliente, ficar olhando os peitos da namorada do outro músico, coçar o saco no palco ( ai, isso é medonho demais), gritar do palco como se estivesse na coziha da casa dele. Palco é palco e é sagrado. Tem que saber se comportar.


Coisas que a gente aprende sem perceber. Mas tem músico que não aprende nunca.

15 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Perfeito, Tatiana! Essa lista deveria estar impressa na parede de todo bar com música ao vivo! Se a carteira da OMB servisse para alguma porra, traria esses mandamentos na primeira página! Da próxima vc poderia fazer também a lista com os mandamentos do público. Por exemplo:

- Jamais ficar falando na frente do palco, como se o músico não existisse; quer conversar? Senta no fundo do bar.

- Nunca pedir uma música que não faz parte do universo do músico. Se o cara tá tocando Guinga vc não vai pedir Chitãozinho e Xororó. E vice-versa.

- Sob hipótese alguma, pedir para que o músico cante parabéns para o aniversariante do dia.

- Bilhetinhos com pedidos de música são deselegantes; o músico tem o direito de escolher o que vai cantar, quando e como quiser. Ele não é o seu funcionário só porque vc tá pagando couvert.

Tem mais coisa, mas agora não dá pra escrever. Podemos pensar juntos nessa lista aí.

Ana Paula disse...

Tatiana e Bruno:
Concordo plenamente!
por falar nisso, vc toca alguma da Calcanhoto? ahahahahahahahahahaha
:))

tali disse...

Hahahaha... Hoje eu bem que estava precisando de leis que todo o ser humano deveria saber sobre encontrar o celular de "terceiros". =(

Clélia Riquino disse...

Ah, Bruno, dependendo do músico, a gente faz pedidos, sim... listinhas enormes (com nome das músicas & autorias) no guardanapo (aberto, às vezes, frente & verso!)

bjos pro's 2
Clé

tali disse...

Pensando bem... Eu tb já fiz pedido de música num guardanapo. (fiquei com vergonha agora. rs)

Clélia Riquino disse...

Mas o seu primeiro mandamento é fundamental, Bruno: quer conversar? vai pro fundo do boteco, longe do(s) músico(s). Lembra da apresentação do Moacyr Luz, no Tonico's? A gente precisou ir pro balcão...

Bruno Ribeiro disse...

Clélia: só se o músico for muito amigo, desses de chorar as mágoas no teu ombro; e mesmo assim eu ainda acho falta de educação ficar pedindo música. Afinal, quando estou escrevendo, não gosto que ninguém fique dando palpites sobre o que devo escrever. Você imagina um pintor, digamos o Egas Francisco, pintando uma tela ao ar livre e as pessoas pedindo: "Pinta uma árvore, agora desenha um sol, bota uma mulher nua nessa paisagem..."? Com o músico se passa o mesmo: ele tem um repertório na cabeça ou, pelo menos, uma linha de canções que irá cantar na ocasião específica. Todo músico que eu conheço não é muito fã de atender a pedidos de platéia, não...

Bjo.

Tatiana disse...

Eu tocava no Recoleta. O bar estava socado de gente, eu tocando mimhas músiqinhas, meus chicos, meus djavan e o cara não me pediu Tiriria??
Tiririca foi de fuder! Aí, sei lá o que me deu, eu disse que pro cara que esse tipo de música eu nã tocava. O cara perguntou o por que e eu respondi que era uma merda. Quase apanhei.
Quardei por alguns anos um pedido no guardanapo: "por favor, toque o Hino do Coríntians". Dá pra acreditar?
Tem gente muito sem noção.
E sempre tem aquele filho da puta que pede Chão de Giz.

Taïs disse...

e aqueles que dizem: não toca? pô mas ela é tão fácil! ou vêm com ironia, sabe? - difícil tocar essa né?

Vivien disse...

kkkkkkkkkkkkk....adorei.
E morte aos sem noção.

Vivien disse...

kkkkkkkkkkkkk....adorei.
E morte aos sem noção.

Clélia Riquino disse...

Sério, mesmo, Bruno?!?! Falta de educação? Nunca enxerguei assim. Pode até ser inconveniente, dependendo do caso, inoportuno, mas não considero indelicado, agressivo, invasivo. Pelo menos, não é esta a intenção. Se uma canção nos desperta vontade de ouvir outra(s) daquele cantor, compositor, ou mote... O Anderson [Alves], por exemplo, sempre achou nossos pedidos um "desafio", gostava de recebê-los, qdo tocava, aos domingos, no Deck, com o Marcelinho [Falleiros]. A Adriana [Davi] sente falta qdo não pedimos alguma coisa! A Janice [do Zíngaro Trio] tb. O Pezão guarda os guardanapos, pro repertório. A Tatiana, acho, curte saber que gostamos, como ela, das músicas "Lado B", mas, sinceramente, não sei se os pedidos a incomodam (terá a oportunidade de dizer, agora). Ah! Lembrei que fomos convidados pra participar das rodas de samba do Cupinzeiro, em Barão Geraldo, graças aos nossos pedidos, no Tonico’s, que fizeram com que o Edu de Maria & Anabela viessem, à nossa mesa, conhecer quem é que sabia uma porção de sambas bons, de raiz. De qquer forma, ficarei mais atenta a este detalhe. Pra não parecer mal educada...

bjo
Clé

Clélia Riquino disse...

Olha só, pesquisando por Egas Francisco, na Internet, encontrei uma entrevista sua, no Cumbuca, com ele. Irei lê-la, por partes...

Arnaldo disse...

Todo mundo sabe o quanto me desagradam estas pessoas que se sentam bem próximas aos artistas e ficam falando alto, meio que, competindo com a música. Além de atrapalhar os músicos, estas pessoas atrapalham aqueles que querem ouvir e apreciar o que está sendo cantado. Músico é uma profissão muito importante e merece respeito. Só não é mais importante do que garçon, engenheiro, médico, jornalista, professor, policial ou empregada doméstica. Porque, por trás do profissional tem a pessoa e toda pessoa merece respeito.

E o músico também tem que respeitar o público e muitas vezes o desrespeita quando desafina, quando canta a letra ou a melodia de maneira errada, demonstando total falta de consideração por quem está lá ouvindo. Além do mais, estar num palco não é estar num pedestal. Enfim, o respeito tem que ser mútuo, de qualquer pessoa pra qualquer pessoa.

Sobre essa coisa de pedir música, achei meio exagerado, por parte do Bruno, considerar deselegante este hábito. Falo isso com tranqüilidade pois, ao contrário da Clélia, não curto muito essa coisa de pedir música. E não curto, justamente por que me seduz a surpresa, o inesperado. Mas isso é muito raro nos músicos de Campinas. A grande maioria repete o repertório por meses e em alguns casos, a gente acaba decorando até a seqüência das músicas que vão cantar.

Resumindo, ouvir música ou cantar, são coisas prazerosas. E o prazer, em qualquer de suas manifestações, é muito mais intenso quando acontece com respeito e criatividade.

Clélia Riquino disse...

Bruno,

Acho um equívoco comparar "intérprete" com escritor ou pintor, como você fez. Se fosse "compositor", sim, pois há criação envolvida, e não se deve interferir, mesmo, no processo da criação... (a não ser parceiros) Mas num ambiente informal, no qual a apresentação não é um "show", com repertório fechado, ensaiado, etc., ainda acho que cabe pedir/sugerir canções pra serem cantadas, sim. O cantor/músico sempre terá a prerrogativa de não fazê-lo (se não souber ou não quiser).