terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Batalha. Baratalha. Barata da caralha.

Faz um tempinho eu fui atacada por um animal medonho e asqueroso. Tivemos uma batalha feroz e no final o bicho fugiu.
Ontem o serzinho infame apareceu aqui em casa. Eu tenho certeza que era ele, reconheci aquele jeito de mexer as anteninhas, aquele sorriso sarcástico. A criatura estava pregada em minha parede, uma mancha escura que sujava o alvo de minha parede suja.
Estava ali, o baratossauro rex mais imenso que já existiu em todo o mundo. Devia ter um palmo de comprimento, de peso, não sei bem, acho que devia ter uns, sei lá, meio quilo? Uma barata imensa mesmo, uma coisa horrível, certamente fruto de alimentação trangênica porque era uma mutação genética. Era o baratossauro rex versão plus. Terrível, muito terrível. Só de lembrar eu arrepio.
E metida a besta! Sim, metida a besta, entou voando, flá flá flá, aquelas asas imensas e cascudas, praticamente um dragão dos tempos modernos, flá flá flá, parou no azulejo da cozinha e saiu dando aquela corridinha atlética, tic tici tic, toda à vontade, foi correndo pelas paredes em direção ao meu corredor.
Achei uma afronta!
Aí dei meu grito de guerra:
- Filho! Mata aquela barata imensa que tá ali!!!!
Sumiram todos os filhos. Nenhum filho. Pra que se tem filho, meu Deus? Pra pegar coisas e matar baratas, ora pois. Inúteis, filhos inúteis em matéria de assassinatos baratais.
Tudo bem, eu resolvo isso.
O Baratossauro Rex ri de mim, aquele risinho que eu já vi no passado, cretinamente se rindo de mim! Eu cheguei a ouvir falar, em baratonês baixo:
-Aqui no alto você não me pega. Lá lá lá lá lá!
Ah, não te pego? Eu não te pego, sua merdinha cheia de pernas e antenas, você vai ver quem pega quem.
Calcei sapatos fortes e fui à luta. A vassoura? Cadê a vassoura? Não meu filho, rodo não serve, tem que ter campo de ataque, rodo é fininho, me pega a vassoura mesmo que eu vou dar na cabeça do baratossauro rex. Que barata é natureza o que! Barata é natureza na casa do caralho! Menino sai daqui que se não vai matar a filha da mãe, também não defende! Não defende que o negócio é entre mim e ela! Não se mete! Ninguém se mete!!!
Ela me olhou e eu olhei ela.
Ameaçou um bote. Eu recuei, podia me cuspir ácido baratal nos olhos e achei melhor garantir uma distância segura. Agarro o cabo da vassoura com mais força. Avanço. Putamerda, eu sou muito da valente mesmo.
Aaaaaiiiii, ela salta em mim! Salta tentando enrodilhar seus tentáculos baratônicos em volta do meu pescoço e eu, ágil como uma amazona, subo na cadeira mais próxima e lanço um golpe cego que não acerta nada. Ela agora está quase na quina entre a parede e o teto. Está indo embora, rindo de mim mais uma vez.
Sinto descer dos céus uma força, uma iluminação e ouço a Voz dizer:
- Ajuda a coitada transmutar esse karma. Mata ela!
Ah, meu filho, na hora que eu ouvi aquilo, menino parecia orientação divina, eu sempre te disse que eu tenho alguma coisa com a Joana D'arc, quando eu ouvi aquilo eu saltei da cadeira, as duas mãos agarradas na vassoura, um salto lindo eu dei, assim tipo matrix, sabe? Eu fui voando, pedalando no ar, a vassoura até brilhava, precisava ver, meu grito de morte tremendo a cozinha toda e eu fui indo assim, olho no olho da barata, cheguei a ver o medo, medo não! O pâncio na cara dela! Ela sabia que era seu último minuto de vida. Eu acho que vi ela fazer o sinal da cruz mas era tudo muito rápido e eu não tenho certeza. Eu gritando Jerôoooooooooonimo!!!!
Bati a vassoura com toda a força nela. Pá!!!!!!!!!! Uma porrada!
Mas a filhadaputa não é que continuou viva?
Pior, veio subindo pela piaçava, tic tic tic, passou para o cabo, tic tic tic, e e aí eu comecei a gritar, né? Para assustar o inimigo, coisa de manha de batalha. Eram gritos para assustar a bicha. É, talvez a porrada tenha afetado a audição dela porque ela nem tava aí e continuou subindo, subindo. Quando faltava meio milímetro para ela me furar os olhos e colocar em meu cérebro seu gen mutante baratal - ela queria me fazer de hospedeira para centenas, milhares de ovos de baratossauro rex plus - eu tive uma idéia genial.
Saltei, dei um salto mortal para trás - ainda tipo matrix - e joguei a vassoura, com toda força, no quintal e peguei o rodinho e bati, bati, bati na vassoura. Pow, pow, pow! Uma hora eu ia acertar a barata, poxa! E não é que eu acertei?
Pois é. Dei um golpe fatal nela. Ficou um pedaço de barata para um lado e o outro, lá longe. E ela gemia, balbuciava palavras desconexas em baratês, me chamava com aquelas patinhas suplicantes. Piedade, ó piedade, aquela baboseira de quem tá morrendo sem honra nenhuma. Fiquei com dó. Fui lá, meio ressabiada, mas fui.
Não é que a filha da puta tentou me matar nessa hora?
Pois é, meu filho, tentou me pegar à traição, me lançando um raio mutante paralizante. Ainda bem que eu sou muito rápida e pisei nela. Quer dizer, na metade dela, na metade que ainda vivia. Fez aquele crec, sabe aquele crec que se faz quando se pisa barata? É, nesse caso seria só cré porque o crec é quando se mata uma barato inteira. Foi mesmo. Fez CRÉ!
Ganhei a batalha.
To exausta, to fraca até, mas matei aquele bartossauro rex, versão plus, mutante que me perseguia há meses.
A única coia que me preocupa é que não achei o cadáver na manhã seguinte.
Isso me incomoda um pouco. Sei lá, né?
Vai que ela é auto-regenerativa, ou foi resgatada pela sua turma e voltará remendada e ainda mais forte. E ela é bem capaz de voltar de turminha, covarde como ela é. Era, como ela era! ha ha ha ha ha . Ela já era!
Por isso, fique atento, meu bem.
Qualquer movimento estranho, acerte para matar. Sem piedade. Sem piedade porque o pau tá comendo solto e o verão traz um monte de barata tonta.
Aprendeu como é que faz?
Então, a próxima é tua.

18 comentários:

Vivien disse...

Eu dou vexame quando leio seus textos, porque não consigo me controlar e caio na gargalhada.
Esse texto está absurdamente bom...hahahah

Get Up! disse...

mto sarro! rindo rindo!
"A única coia que me preocupa é que não achei o cadáver na manhã seguinte. Isso me incomoda um pouco. Sei lá, né?"

quina vida disse...

seus gatos devem ter comido o baratossauro rx versão plus, e agora carregam o gen baratês, que irão dominar o mundo!

Tatiana disse...

Riam! Riam mesmo.
Tenho certeza absoluta que existe uma comunidade de baratoussauros rex se propagando pelo mundo.
Riam agora porque quando ficarem cara a cara com esse bicho asqueroso quero ver quem vai rir.
Melhor garantir e manter uma vassoura sempre à maõ.
Transmuta, filha da puta! Morre, barata dos infernos!

menina-prodígio disse...

Eu já vi um baratossauro enorme gigantesco descomunal, com listras amarelas.

Mas morri de rir de você pedaando no ar, com a vassoura emitindo luz.

Clélia Riquino disse...

Com um Rodasol na mão (cheio!), enfrento qquer barata! Tenho só que tontear a bicha e dá-lhe vassoura, chinelo, ou o que estiver por perto...

Ronaldo Faria disse...

No fim, tenho ceteza de que ela disse: "Hasta la vista, baby!" Cuidado. Cuide-se.
R9onaldo Faria

Clélia Riquino disse...

Tatiana,

Comentei no blog da Vivien, mas vou deixar aqui tb, pra você: uma homenagem ao Hermeto, seu gato/amante... (veja se você conhece a música)

Do CD Revendo amigos, da Joyce. Ela diz, no encarte: "Uma história verídica de uma gata de verdade, onde qualquer semelhança com seres humanos terá sido mera coincidência, cantada pela dona da gata, Clarinha."

Minha gata Rita Lee
Joyce


Quando você chegou lá em casa
Foi coisa tão inesperada
Ali na porta abandonada
A nos pedir casa e comida
Magrinha, magrinha, arrepiada
De pêlo vermelho e olhos de fome
Eu não podia mesmo te dar outro nome
Rita Lee

E assim você foi adotada
Por todos nós, alegremente
Oscar morava já com a gente
Era igualmente um vira-lata
E apesar de serem cão e gata
Jamais houve dois mais companheiros
Jamais dois amigos assim verdadeiros
Nunca vi

Ah, Rita Lee
Por onde é que anda Rita Lee?
Sem pai nem mãe, sem pedigree
Imprevisível Rita Lee

Ah, Rita Lee
Por onde é que anda Rita Lee?
Sem pai nem mãe, sem pedigree
Imprevisível Rita Lee

Passava o tempo descuidada
Sempre inventando brincadeiras
Saltos mortais de mil maneiras
Deixando a gente distraída
E assim ninguém viu sua saída
Talvez só o Oscar tenha notado
E a noite engoliu as tuas sete vidas
Rita Lee

Ah, Rita Lee
Por onde é que anda Rita Lee?
Sem pai nem mãe, sem pedigree
Imprevisível Rita Lee

Ah, Rita Lee
Por onde é que anda Rita Lee?
Sem pai nem mãe, sem pedigree
Imprevisível Rita Lee

bjo,
Clé

Clélia Riquino disse...

Você conhece Monsieur Binot? Neste mesmo CD, Joyce canta, com Gil. Queria ouvi-la cantando, qquer dia... (posso pedir?) Acho que tem a ver com o seu momento.

Monsieur Binot
Joyce


Olha aí, monsieur Binot
Aprendi tudo o que você me ensinou
Respirar bem fundo e devagar
Que a energia está no ar

Olha aí, meu professor,
Também no ar é que a gente encontra o som
E num som se pode viajar
E aproveitar tudo o que é bom

Bom é não fumar
Beber só pelo paladar
Comer de tudo que for bem natural
E só fazer muito amor
Que amor não faz mal

Então, olha aí, monsieur Binot
Melhor ainda é o barato interior
O que dá maior satisfação
É a cabeça da gente, a plenitude da mente
A claridade da razão

E o resto nunca se espera
O resto é próxima esfera
O resto é outra encarnação

Tatiana disse...

Clélia, eu toco as duas canções!
Menos revendo amigos.

Clélia Riquino disse...

E por falar em momento... Mais uma canção da Joyce (posso abusar do espaço?):

Mistérios
Joyce & Maurício Maestro


Você chegou feito um silêncio
Pra seduzir minha canção
Feito uma folha na correnteza
Feito um vento varrendo o chão

Você chegou feito um mistério
Pra confundir minha visão
Feito um presente da natureza
Quem mandou, coração?

Um fogo queimou dentro de mim
Que não tem mais jeito de se apagar
Nem mesmo com toda água do mar
Preciso aprender os mistérios do fogo
Pra te incendiar

Um rio passou dentro de mim
Que eu não tive jeito de atravessar
Preciso um navio pra me levar
Preciso aprender os mistérios do rio
Pra te navegar

Vida breve, natureza
Quem mandou, coração?
Um vento bateu dentro de mim
Que eu não tive jeito de segurar
A vida passou pra me carregar
Preciso aprender os mistérios do mundo
Pra te ensinar

Clélia Riquino disse...

Adoro Revendo amigos.. Aprende, vá...

Tatiana disse...

Eu toco essa também , Clélia! hahahhahahhah
toco para vc na próxima vez.

Clélia Riquino disse...

Obaaaaaaaaaaaa!!! (não sei o HTML pra fonte enorme!)

Lembra que uma vez escrevi sobre uma música ou poesia que falava de solidão...? Pois é, acabo de encontrá-la, no blog do Bruno (com uma auto-dedicatória). É linda!:

Não Quero Você Assim
(Paulinho da Viola)


Olhar vazio
Nenhum sinal de emoção
Não quero você assim
Eu sei que não existe mais
Aquilo que você guardava
A mesma palavra
Querendo explicar em mim
A eternidade em mim
Não quero você assim
Não importa mais
O que foi perdido
Importa apenas o teu sorriso
E nada mais
Não há lembranças pra se guardar
Existe a vida
E os poetas como sempre
No vício das esquinas
Não importa mais
O que foi perdido
Importa apenas o teu sorriso
E nada mais
Bom é sentir esse amor
Em muitos corações
Bom é saber que a solidão
É o início de tudo

postada em 19 de Outubro de 2006

gugala disse...

a minha cotas de baratas já exterminei no começo do ano. Um grupinho de 12 jovens baratas ,aparentemente amigáveis, que estavam numa rodinha , aparentemente social. O segredo é extinguí-las ainda cedo e em grupos, pois o crec uníssono de uma dúzia , além do prazer intrínseco da façanha, não se compara ao crec solitário e doído de uma Rex madura.
bj

Taïs Reganelli disse...

...mas eu nunca teria deixado pra jogá-la no dia seguinte...
que amadora, tatiana!

Mamy disse...

Anteontem também fui atacada por uma dessas, na minha cozinha... Mas El Maridon, terrível só para os insetos, a exterminou com requintes de crueldade, jogando seu cadáver, já desfigurado, no vaso sanitário.

Debora Corigliano disse...

É a primeira vez que acesso e ri muito com a história da barata. Você é corajosa! Eu não teria tanto espírito matrix assim!
Confesso que já estive em situação semelhante, como é dificil matar uma barata!