quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Em função do meu trabalho infantil, fui convidada a tocar em uma escola pública da maior ocupação da América Latina, O Parque Oziel.
Barra pesadíssima, central do PCC, tem muita gente que se recusa a entrar lá. Na escola que eu cantei, na época dos ataques do PCC, foi encontrada uma bomba caseira ao lados dos butijões de gás da cantina da escola. Galera que pegua pesado e não tem piedade nem de seu próprio pessoal.
E eu fui porque uma amiga é professora e queria que eu cantasse para os alunos. Fui porque tinha a guarida da professora e porque eu sou metida também. Mas, principalmente, por querer fazer alguma coisa que realmente importe nessa vida. Queria dar a minha humilde contribuição.
Mais de 500 crianças. Algumas sujas, com roupas rasgadas, outras limpíssimas, óculos e cara de nerd, tudo ali, brancos, pardos, pretos, muito pretos, pobres e muito pobres, meu coração de mãe aperta, não foi fácil, acho que esse meu coração mole é que estraga, aquelas crianças que moram em uma realidade muito diferente da realidade que meus filhos vivem.
Mas a música tem um poder inacreditável. Ela une mesmo, ela eleva, ela nivela todo mundo.
Quase chorei tantas vezes!
Aqueles olhinhos! Aquela felicidade infantil, aquela ingenuidade estava ali, como está em toda criança, do Parqe Oziel ou d Cambuí.
Um menino com múltiplas deficiências ( ou seja , todo fudido mesmo), sentadinho em minha frente, quando conseguia acertra as palmas ficava em uma felicidade e eu ali, quase tendo uma síncope, olhando aquelas crianças e pensando que isso não está certo, tanta necessidade, tanta falta de tudo, higiene, educação, saneamento básico...Isso não é justo.
Olhava aqueles meninos e meninas e pensava quais deles sairiam do círculo da marginalidade, quem conseguiria viver de uma outra forma. Muitos, espero eu, muitos porque ali no Oziel não tem só marginal, tem família, tem trabalhadoras e trabalhadores, operários, empregadas domésticas e seus filhos estavam ali me ouvindo cantar, rindo e esperando, ansiosamente, o momento que dariam para eles um picolé.
Isso mesmo. Um picolé.
E eles aguardavam cheios de felicidade aquele picolé dado na escola.
Isso me fudeu de vez.
Tanta expectativa por um picolé.
Essa vida não é justa, meu Pai, não é justa.

6 comentários:

Mamy disse...

Não... não é justa... kct...

Vivien disse...

Belíssimo, tocante seu post.
Vc vai de valsa a frevo, né? faz rir e chorar.
E concordo com vc, música une mesmo e modifica. Com certeza, vc fez diferença pra eles.Bj.

Tatiana disse...

É..saí de lá toda mexida.
Um picolé...essa me pegou.

Menina disse...

Eu e o meu grupo de teatro sempre vemos isso.

Mas a barra nào é tão pesada assim...

Márcia Nestardo disse...

É sempre assim. Eu demoro pra te visitar e quando venho você me sequestra pra dentro das tuas dores, alegrias, decepções.
Você é mágica, linda e demasiadamente humana. Não aceita a injustiça e abre os braços pro mundo tendo só o bojo do violão como escudo. Por isso que eu te amo.

Ronaldo Faria disse...

Estive fora esses dias, mas voltei e li tudo, de cabo a rabo. Legal o seu feriado em São Tomé das Letras Faz tempo que eu quero ir lá. E prometo saltar só por um beijinho na testa, ou um CD. Cuide-se, sempre. E a vida é foda mesmo e o pior é que há poucas perspectivas de mudança. Mas sempre é bom crer e participar... Beijos.
Ronaldo Faria