quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Salão de beleza é um lugar surpreendente. Se ouve coisas impressionantes em um lugar como aquele, por entre secadores barulhentos, tilintar de vidros de esmalte e conversa jogada fora.
E eu tenho um dom. O dom de fazer estranhos me contarem os segredos mais secretos. Assim, sem mais nem menos, alguém vem e me faz uma revelação impressionante. Não sei se tenho cara de maluca, que não se choca com nada que ouve, ou se passo uma sensação de tranquilidade ao ponto de se poder abrir o coração. Mas sempre acabo com uma batata quente nas mãos e normalmente estas conversas me fazem pensar bastante depois.
Ontem ouvi uma senhora me dizer que sofre deveras porque é casada com um bissexual, em comum acordo. Ama loucamente seu marido e por isso aceita que ele transe com outros homens. Mas ela sofre. Sofre, principalmente de ciúme, porque decidiu, há muitos anos atrás, que se era para ter sacanagem, queria estar junto com o marido em qualquer situação. É para transar com mais alguém? Então ela queria estar lá no meio. E o ciúme era uma constante na sua vida.
Uma senhora absolutamente normal. Com cara de gente normal, unhas pintadas de vermelho-volúpia, cabelos escovados semanalmente, sobrancelha feita de quinze em quinze dias, virilha básica. Como eu já disse, uma mulher comum.
Mas carregava consigo uma história que eu ouvi sentindo cheiro de acetona e cêra de depilação.
Para ela, se não aceitasse esta situação, perderia o homem que amava e que ela tinha certeza absoluta, que ele também a amava. Do jeito dele, mas amava. O amor estava ali, só que entre os caminhos deste amor, havia um mundo de sentidos e prazer que ela teve que entrar.
Ela me dizia: " Não ache que eu não gosto destas coisas! Sim! Gosto, sinto prazer, mas sinto um profundo ciúme também. Estou pagando alto o preço das minhas escolhas, pago um preço alto por este homem e por este amor..."
Voltei para casa pensando que aquela senhora vivia um amor tipo os filmes de Almodóvar. Luxúria, segredos, várias portas da sexualidade abertas. E uma desesperança deitada por de trás dos olhos. Aquela mulher perdeu a esperança.

Pensei em mim e em meus amores. Os preços que eu paguei e os filmes que seriam.
Tive uma grande paixão em minha vida. Essa paixão seria uma mistura de "Fome de Viver", " O Feitiço de Áquila" e " Guerra nas Estrelas". Uma paixão retumbante que paguei o preço sem regatear. Nunca viverei nada como ela, mas nem espero isso. Vivi e me basta.
Já vivi amores como o filme " Tubarão", muito susto, muita adrenalina e pouquíssimo conteúdo.
Outros que foram como aqueles filmes insossos da sessão da tarde. Mas que alegraram meus dias. Amores calmos e óbvios, mas era isso que eu precisava na época.
Mas, enquanto dirigia, pensava se Almodóvar me faria viver algo daquele tipo.
Não sei.
Mas o olhar que aquela mulher ficou em minha memória durante toda a trajetória até em casa. Um olhar forte e dolorido. Um olhar sem futuro e sem luz.
O corpo daquela mulher vivia em delírios dos sentidos. Mas aquele olhar...aquele olhar já tinha morrido a tempos e me pedia um velório adequado.
E eu nada posso fazer.

5 comentários:

Ronaldo Faria disse...

Mulher, mãe, cantora, compositora, vendedora de planos de saúde, dona de casa, cuidadora de uma fauna felina e canina, jardineira, dona de um blog incrível, alquimista de receitas e sentimentos e agora quase uma terapeuta. Tatiana, haja Tatianas para tanta vida. E salão de beleza deve ser mesmo um consultório de análise a preços módicos, com a vantagem que a mulher pode tratar a cabeça e o corpo, literalmente, pelo preço de um... Cuide-se. E vivamos as produções que o orçamento dos nossos sentimentos ainda pode nos dar. Uns dias concorrendo ao Oscar e outros passando em Super-8 para poucos cinéfilos entre uma paixão ou uma bad trip...
Beijos.

Menina-Prodígio disse...

Meus amores são todos meio "antes do pôr-do-sol". Muita conversa e muita verdade...

Vivien disse...

Algumas coisas:
1) a gente vai na mesma manicure...agora vou olhar pra mulherada tentando achar essa..hahahahah
2) hoje lembrei de vc porque acordei com uma crise existencial, tipo "concossô"!
3) Vc me deu uma idéia de post...vou pensar quais filmes podem ser os meus amores.;0)
4) Eu acabo ouvindo muita coisa tb, mas , em geral, de alunos. Por algum motivo que nao sei qual é...eles acham que posso ser uma grande conselheira sentimental.Eu fico honrada com a confiança, mas me sinto tao incompetente!!!

Tatiana disse...

Vivien
eu não sou fiel a salão de beleza...promíscua total..hehehehe

quina vida disse...

vontade as vezes de viver um amor-almor-almodovar. mesmo maluco, libidinoso, sexual ao extremo.