sábado, 18 de março de 2006

Para O Concurso dos Blogueiros Malditos
Tema: A partir de uma foto do albúm de algum participante da comunidade.

Este é um texto de ficção. Não existe semelhança alguma com nada nem com ninguém.
Somente uma idéia que nasceu de uma imagem.

Jornal de Saltinho de Pirapora, 13 de abril de 2006
Caderno de Notícias Policias


O Décimo Distrito do Bairro da Água Branca registrou boletim de ocorrência contra duas senhoras que resolveram lavar a roupa suja no meio da Avenida Brasil acarretando um engarrafamento monumental, com direito à participação popular e gritos de Mata, Mata, Mata que ela é Vagabunda Mesmo. No engarrafamento, duas carroças viraram e as mulas tiveram pequenas escoriações.
Testemunhas contam que toda a confusão começou quando a senhora Matildinha do Alemar, 25 anos, pedicure e fiel da Igeja Universal do Reino de Deus, indignou-se com a vestimenta da sua colega de salão, Rita de Cássia Melão Bueno, 28 anos, colorista, e começou a fazer um cântigo de desobsessão porque acreditava que sua colega de trabalho estava possuída por um espírito demoníaco, depravado e semi-nudista.
Como a senhora Rita de Cássia não dava atenção para as suas cantorias, Matildinha resolveu atacar o mal pela raiz. Neste caso puxando a raiz da recém tinturada cabeleira de sua colega.
Dona Rita de Cássia, potiguá de sangue quente, revidou à altura, tentando rasgar as vestes da sua colega em plena luz do dia.
Reproduzindo as palavras de Dona Matildinha: "Ela era maior que eu e ainda estava possuída, tinha que me defender mesmo por isso que bati tantas vezes com minha bíblia de bolso na cara da vadia. Ou o espírtio ruim saía, ou eu matava ela!!!!
Rita de Cássia retrucou que na verdade era inveja porque as coxas dela eram muito melhores que a da mocréia da Matildinha que tava toda acabada e ficavam se rasgando por dentro e por fora e que era muito difícil ser uma mulher gostosa em uma cidade onde só tinha baranga. E que as bibliadas ( sic) não doeram tanto, mas acabar com o penteado que ela tinha feito não dava pra desculpar não e por isso que obrigou a sua colega crente engolir todo que disse sobre ela e ainda as quinhentas e cinqüenta e seis páginas da Bíblia de bolso da Universal. Mas ela também disse que não imaginava que a outra fosse ter uma reação alérgica à tinta e que nunca ouviu falar de gente que fica maluca quando come papel e não encontra justificativas para a outra tentar furar ela com o alicate de unha. Por isso se defendeu batendo sua sandália anabela de salto de madeira quarenta e quatro vezes na testa da outra e que não sabia ao certo quando foi que tomou gosto pela coisa e não conseguiu mais parar.
A confusão só acabou quando o policial Manuel dos Santos Reis foi chamado e com a ajuda de cinco transeuntes separou as mulheres. Ele está em observação no Hospital Militar mas os médicos afirmam que seu cabelo voltará a crescer e o estado dele é estável.
As duas senhoras foram encaminhadas para o exame de corpo de delito e aguardam a chegada do Delegado Delgado para formalizarem as queixas.
Os comerciantes do local pedem um posição imediata para saber quem arcará com os prejuízos causados pela briga. Doze vitrines foram quebradas, dois bueiros entupidos com mexas de cabelos de várias cores e tamanhos. Dona Maricotinha, da Doceria Só é Magra Quem Quer, exige uma idenização por danos morais porque seu marido, Seo Toínho da Borracharia, não tirou os olhos da briga e agora diz que não quer mais saber dela. Quer saber da Dona Rita de Cássia que tem dois coxões de fazer injeva realmente.
Enquanto a situação se resove, o salão Belíssima Num Piscar de Olhos pede que as pessoas que queiram fazer as unhas ou que queiram pintar os cabelos marquem com antecedência seus horários porque atualmente as duas colegas não trabalham mais nos mesmos períodos.
Caso queiram um ambiente mais tranqüilo, podem se dirigir ao Salão VaptVupt, de Dodô de Jujú, esposa deste escriba. O ambiente lá é climatizado, oferecem café e rosquinhas da Dona Maria.
Com hora marcada, por favor.

Jurandir da Veiga.
Barbeiro e alfaiate.
Reporter free-lance do Jornal Saltinho de Pirapora.

6 comentários:

Lucas Ferron disse...

Uuuhuuu Aqui sou eu no seu blog!!
Mãe, seu texto ficou ótimo!
Quero dizer, quando ele resolve aparecer! ¬¬

Parabéns!!

Thiago disse...

Que engraçado! Não duvido que existam casos semelhantes por aí. Parabéns.

Márcia Nestardo disse...

Eu suando a peruca pra entender o processo criativo no meu trabalho e vem você e esse malditos escrevendo de maneira deliciosa e aparentemente muito descomplicada, a partir de uma foto!!!???
Por inferno vocês todos, escritores e compositores.
Fico eu aqui, tentando fazer parecer verdade as linhas que vocês deixam no caminho pra gente tropeçar.

Divertidíssimo Tataiana!

Beijão.

Márcia Nestardo disse...

Vixe... Tatiana.
Descurpa o nomi herrado.

Tatiana disse...

Márcia,
escrever sem pressão é sempre muito mais fácil!!!

Douglas Evangelista disse...

Tatiana, este texto me lembrou a "crônica policial" (acho que era isso) que saía no jornal O Dia (ou será O Globo?). Meio anedótico, meio jornalístico.