quarta-feira, 8 de março de 2006

Para o concurso Criativo dos Blogueiros

SER MULHER

O que habita a minha alma?
Dragões e príncipes, calabouços e torres, princesas verruguntas, bruxas boas e fadas más. Tudo isso está em mim. Mas não vejo isso como algo que me separe do resto da humanidade. Todos são assim. A alma não tem sexo. Nem cor, nem credo. A alma é assexuada e é ela que importa.
Talvez a única coisa que me diferencie e me faça sentir muito maior e especial do que sou é a maternidade, o aleitamento e a menstruação.Isso sim são coisa típicas de mulher.
Quando acordei naquela manhã de Natal e vi sangue em minha calcinha sabia que tinha passado para outra fase. Eu era mulher. Meu corpo descarregava um mundo depossibilidades desperdiçadas e eu era poder em forma de sangue. Eu podia ser mãe e isso me colocava em outro patamar distante do universo infantil. Meu corpo tomava conta de minha vida. A cada mês que sangrava eu era lembrada do poder que adormecia dentro de mim. E sangrei sozinha porque a aprtir daí você caminha sozinha.
Quando fiquei grávida aprendi a me multiplicar. A pensar em dupla, a ter para dividir e no final, a soma daquilo tudo, aquele dilúvio de hormônios, meus peitos imensos como montanhas e eu, no alto da mais alta montanha, era rainha de meu corpo. Dentro de mim a vida brotava e eu era Deus e via minha criação mexendo as minhas entranhas até que um dia explodi e do meio de minhas pernas nasceu meu filho. Líquido aminiótico, placenta e sangue. Mais uma vez o sangue que escorria de dentro do meu escuro universo era poder. Eu criei a vida e eu podia tudo por ele. Me transformei em minha própria força de Deus que era. Depois que uma criança nasce a mãe sangra sem parar por muito tempo e eu sangrei feliz e via nas manchas escuras que tinha entrado em uma outra fase. Eu era mãe e aquilo me colocava , outra vez, em outro patamar, eu tinha descoberto o segredo da vida e da força e cada gota de sangue que pingava era o sorriso da vida rasgando o mundo. Eu sangrava feliz mais uma vez. E mais uma vez vivi sozinha, por mais rodeada que estivesse, o meu momento de glória e luz, o que eu senti, não se divide. Se saboreia.
No instante que coloquei meu virgem bico de peito na boca de meu filho, ele sugou forte e com tamanha vontade de viver que meu peito se abriu em flor e eu ofereci leite vermelho. Mais uma vez sangrava em minha feminilidade e não era fácil suportar a dor e vencer meu medo.Ninguém podia fazer aquilo por mim. Então, olhando aquele pedaço meu, tão pequenininho, brigando par viver, abocanhando o mundo , me abocanhando, eu engoli seco, botei meu peito ao sol, criei calo, o tempo fechou ferida e eu percebi que tinha vivido uma coisa que só as mulheres podem viver.
Estas são as únicas experiências que eu considero tipicamente femininas.
Sangrar sem morrer, se abrir para dar passagem para a vida e alimentar, até do próprio sangue minha prole.
Sangrar, parir e aleitar.
Coisa só de mulher.

4 comentários:

João disse...

Legal seu texto. Gostei em especial da última parte.

Quanto ao meu texto, bem, a visão não é bem a de um "homem". É a de uma mulher que nasceu, por acaso, dentro desse casulo que a sociedade convencionou chamar "homem".

Abraços

Ricardo Pereira disse...

Fez-me lembrar aquela música da Marina e do irmão dela que a Bethania gravou no começo dos anos 80,"eu gosto de ser mulher", você já a cantou?

Ronaldo Faria disse...

Lindo.
Não há mais palavras a dizer ou para rotular.
Cuide-se, sempre.
Ronaldo Faria

ariadne disse...

Quando postou a incrição comecei a imaginar o que encontraria por aqui sobre esse tema. Como não leio nada antes de postar o meu , me roí de curiosidade até agora. Muito obrigada, texto lindo.

beijos