quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Fazia muito tempo que eu não via o sol nascer. Agora, com a volta às aulas, acordo quando o céu está escuro, um tom de negro que vai se tonalizando em azul, até clarear totalmente. Me espreguiço junto com o sol.
O dia, que vejo nascer, botou minha vida em ordem. Acordo o filhote, boto mesa, tomamos café da manhã juntos, eu me arrumo com roupa de malhação, deixo filho na escola e vou para a Lagoa do Taquaral. Vou feliz.

Para quem não conhece, este é um lugar bem conhecido aqui para caminhadas. Muitas árvores, patinhos na lagoa, alguns pássaros que não sei identificar, pernas longas e finas, um bicão, capacidade de vôos rasantes e param muito graciosamente em algum banco de areia. Antigamente tinha muitas capivaras, mas acho que foram expulsas por causa dos carrapatos.Ah, e tem um navio. Pois é...um navio que eu cismava em dizer para meu filho que tinha sido de uma fragata pirata que veio parar aqui em Campinas em uma noite de chuva e vento muito forte. Veio voando, voando, caiu no meio da Lagoa do Taquaral e não tem jeito de tirar dali. Ninguém quer mexer naquilo por medo dos fastasmas que moram lá dentro, mas eles são bonzinhos, é só dar uma caneca de rum que eles ficam felizes. Dentro daquela lagoa, lá no fundo sujo e poluído tem um monte de sereia presa nos destroços e lixo. Quando todos vão embora e um silêncio muito grande se faz por lá, dá pra se ouvir os lamentos das coitadinhas, um tipo de uivo cheio de bolhas, que vão subindo de lá de baixo e quando chegam na superfície, estouram e dá pra se ouvir um sonoro BOSTA. É sim! As pobrezinhas já não estão chorando mais, agora xingam mesmo, mas só poucos conseguem ouví-las. Meu filho ficava muito impressionado com esta história. Hoje me olha com um certo desdém. Cresceu, o ingrato.
Mas de manhã cedo a coisa é bem mais tranqüila. Só se ouve os bum bumbum dos sons dos passos dos corredores mais pesados e o rec rec rec dos tênis daqueles que somente andam no caminho de terra da Lagoa do Taquaral.
Eu sou dessas, as que somente andam. Meu joelho de atleta reclamaria muito se eu resolvesse correr e meu pulmão, coitado, explodiria, revoltado com tanta pressa. Por isso eu vou andando e meditando. Não penso em nada, só observo, só sinto o que meu corpo está sentindo. Pelo menos eu deveria meditar . Mas não consigo porque sempre que vejo um velhinho na minha frente, a cabeça branquinha, cismo que tenho que ultrapassar ele e vou forçando o passo, vou chegando por trás, como uma leoa caçando a sua presa, vou chegando, cada vez mais perto, dá pra ouvir a respiração do pobre velhinho, tá quase na hora do bote, e aí...TAN TANTAN TAN TAN TAN ( a musiquinha do Senna). Passei o velhinho de cabeça branca!! E vou catando outro pra fazer a mesma coisa. Mirar, concentrar, forçar e vencer!
Mas hoje um cara de cabelos brancos, um desses que se disfarça de velhinho de 70 anos disputou comigo. Ele apareceu atrás de mim e eu podia ouvir seus passos chegando cada vez mais perto. Eu forçava mais e ele se distanciava. Ficamos assim por quase 15 minutos, mas uma tropa de moços novos e de shorts curtos passou por mim e eu perdi a concentração, afrouxei o passo, dei uma olhadinha por sobre os ombros pra ver como seria a bunda daqueles moços tão atléticos e o danado do homem disfarçado de velhinho me ultrapassou e ainda me deu aquela olhadinha cínica, assim como se dissesse não agüentou. Perdi a minha corrida contra a terceira idade, tive que aceitar a chacota do biltre e não consegui ver a bunda de ninguém.
Mas deixa estar, jacaré. Amanhã tô lá. Meus olhos de águias procurando aquela cabeça branca e ele vai ver só uma coisa. São Silvestre, me aguarde!!!

10 comentários:

Ronaldo Faria disse...

Belíssima interpretação da história da caravela da Lagoa... Nunca pensei nisso. Enfim entendo porque ela está lá. O chato de crescer é deixar de crer em histórias como essas. Pelo menos, no meu caso, ainda bebo copos de rum e espanto os meus fantasmas. Quem sabe um dia eu não navego em lendas iguais...
Ronaldo

Claire disse...

Adorei a história da fragata, mas o mais emocionanate é a narração da corrida contra os velhinhos de cabeça branca, cuidado com eles... Muito cuidado...

Moacir Caetano disse...

hahaha!!!
derrorada por um velhinho... rs...
mas o navio é de verdade mesmo?

Ronaldo Faria disse...

Pergunta: Quando sai este?
Gravação de DVD – Teatro do Cultura Inglesa de Campinas – julho de 2005
Ronaldo

Bruno Ribeiro disse...

Um de seus melhores textos. Estou com vontade de chorar e nem sei bem o que me motivou isto na sua escrita. Talvez a descrição da lagoa poluída, o silêncio da caravela encalhada. Talvez seja a disputa com os velhinhos de cabeça branca. Eu também faço isto. Também penso nisto quando estou andando na Lagoa. Você não existe.

Taïs Reganelli disse...

Tava me achando uma pateta até ler o comentário do Bruno...
E eu achando que a vontade de chorar era dos hormônios. Obrigada, Bruno.

Márcia Nestardo disse...

Ah... Tatiana!
Meu dia foi uma bosta. Nem vale a pena contar. Estava com vontade de chorar antes de ler. Já tinha chorado um montão... Mas você, de novo, me rir com gosto, sozinha.

Me identifiquei com as sereias. Bosta... Bosta...

Tem uma cabeça branca andando na minha frente hoje e tem nome e CPF, e eu juro que se me encarar eu arranco os olhos dele e jogo pros patos.

Ahhh! Só me entristece não conhecer a lagoa poluída, não ter visto a caravela, nem ter histórias bacanas pra contar pro meu filho.

Mas meu dia já começou a melhorar.
Valeu mesmo.
Beijão pra você.

Bruno Ribeiro disse...

Tati, quando as sereias dizem BOSTA, esta parte é tristíssima, mas de uma tristeza tão doce...Não consegui achar graça, é tão triste, tão triste esse BOSTA das sereias...bom, adorei seus comentários sobre meus poemas, li todos com entusiasmo. No "Utopia" talvez vc não entendeu o final: só lutar não será em vão, esta é a mensagem. Tudo acaba um dia, menos o exemplo da luta permanente. Ah, e leia os dois primeiros, que vc não viu porque estavam escondidos nos arquivos de janeiro. Entra lá de novo e comenta, para não ficar devendo nada. ;-)

Ronaldo Faria disse...

Não é o Cebolinha. Freud ainda não chegou por lá. E enlouqueceria com os personagens do Maurício de Souza se o conseguisse...
Ps.: Ganhando na sena, vamos imprimir este DVD.
Ronaldo

gika disse...

Esse texto me emocionou tbm. E minha emoção tbém não vem da TPM. É o modo como descreve Tati.Tá lindo.
Bjos