sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Olhos de observador

Passa da meia-noite e já ganhei o pão de cada dia.
Acabo de voltar do bar que fica dentro do Círculo Militar e passei quatro horas observando aquelas pessoas.
Primeiro eu me sentia uma deslocada ali. Eu era uma verruga no meio da casa lisa. Muito estranho a sensação que eu tive. Todas aquelas pessoas, famílias, crianças aparecendo de todos os vãos, maridos já um tantinho barrigudos e mulheres que talvez foram bonitas no passado. E eu ali. Não era o meu povo, eu não era aquilo. Eu sou mãe, mas eu não era aquele tipo de mãe. Eu era...eu era feita de outra coisa. Um gato no meio de um canil.
Comecei a censurar o que eu devia cantar. Primeiro porque eu imaginava que todos em minha volta eram militares, logo, um tanto caretas. Não quis cantar aquela canção do Guinga que diz " polícia da xereca da vizinha ", "encruada como ovo no cu da galinha". Fiquei pensando que ali era um lugar de família, cheia de cabeças brancas e crianças puras. Me censurei e não cantei. Aí comecei a patrulhar as canções de cunho político, o pobre do Chico Buarque estava sendo dilacerado por mim. Me revoltei com isso. Como assim, não vou cantar? Canto sim! E canto ainda mais outra! E mais outra! Só faltou eu mandar "Para não dizer que não falei das flores". Estava rebelde. Mas ninguém percebia a minha rebeldia. Aliás, nem me percebiam. Eu era aquele fundo musical. Uma máquina de colocar moedinhas, as músicas saem pulando, uma máquina de perna, boca, bunda, peito, mãos, violão, mas eu era só uma reprodutora musical. Um nada.
Ficava olhando aqueles senhores muito prósperos, aquelas caras de vovô e só pensava que aquela mão que levava uma batata frita à boca estava suja de sangue. Aquele vovê que chamava a netinha podia perfeitamente ter matado netas de outros avôs, mandado torturar, violentado o corpo e a alma. Poderia ter sido a mando dele, ou daquele outro ali, aquele com cara de maluco, de tarado. Meu Deus, isso não é justo. Eles estão aqui, em um puta de um clube me vendo cantar, gastando a aposentadoria por anos brincando de guerra e de polícia e ladrão.
Isso mesmo. Pirei na batatinha pensando que a maioria daqueles homens era cúmplice de assassinatos, torturas, eram todos um milicos filhos-da-puta. Nem todos. Só alguns. Os mais velhos pelo menos, os mais novos sabiam daquele passado vergonhoso e mesmo assim quiseram se juntar aos velhos milicos, ao velho esquema. Filhos de uma puta!!
Não conseguia parar de pensar no pai de minha amiga Ana, gaucho fugido para Salvador. Lembrei que eu tambem já tive medo dos militares, sou da geração que viu o governo militar passar o bastão, que gritou pelas Diretas Já, que fez passeata, levei coronhada de policia militar, joguei ovo em político, que tinha medo da censura. Sou da geração do medo e estar ali me causou um mal danado.
Ao mesmo tempo eu sabia que já tinha passado, que eu não era filha de preso político, que eu não era nada, que minha vida nunca tinha sido marcado pela repressão, não diretamente, mas fiquei remoendo histórias de muitos anos e histórias de outros.
Sai de perto, peguei o livro da Bianca Ramoneda e fiquei lendo, bem longe das mesas, no corredor que leva aos banheiros. Fazer o que? Eu não conhecia ninguém, não estava à vontade, vou ler nos meus 20 minutos de intervalo.
Aquele livro incomodou. Não tinha um que não passasse e me perguntasse lendo o que, não tinha um que não me olhasse que se eu estivesse fazendo uma coisa errada, eu deveria estar ali, toda feliz por cantar e ganhar meu pão assim, mas não, eu estava ali, burocrática, batendo o ponto, contando os minutos para parar e para recomeçar. Meu livro era a prova da minha falta de integração. E ele era muito mais interessante do que qualquer um ali. Meu livro era a minha barreira, meu escudo, minha arma. Fiquem longe de mim, berrava o livro. Surdos. Isso sim...
Me pediram uma música do Claudinho e Bochecha. A Adriana Calcanhoto gravou e eu sabia, pelo menos estava lá na pasta. Eu toquei. Outro bilhete. Amor e Sexo de Rita Lee. Essa não tem jeito, não sei mesmo. Estou lá no meu cantinho, o livro aberto, toda mergulhada na alma daquela mulher, uma mocinha me intima. Você não tocou Amor e Sexo. Não, não toquei. Por quê? Por um segundo pensei em responder porque eu não queria e pronto, mas respondi que eu não sei. Ahhh..Aquele olhar que diz tem que saber, porra. Olhei firme no olho dela. Se ainda me pedisse música boa pra caralho eu até entendia a indignação. Volto ao livro. Agora vem a mãe da mocinha. Você não tocou Amor e Sexo. É, não toquei mesmo. Já to vendo tudo, veio arranjar confusão comigo por causa desta bosta de canção. Vou dar uma livrada nessa gorda brega aí eu quero ver.Meu marido adora amor e sexo. Fiquei pensando que aquela frase era ambígua. Ela percebeu pela minha expressão e saiu correndo e gritando pelos ombros, antes que fizesse xixi nas calças que eu cantasse uma música do Almir Sater. Eu toco, berrei de volta agradecida por não ter que amassar as folhas do livro emprestado. E toquei.
O bar esvaziava e eu louca para ir embora. Meus olhos olhavam tudo à minha volta. O milico de canela branca com uma moça, entram no bar, a mão dele procura a dela, ela não vê e ele segue com a mão solitária e a sensação ruim de ter sigo flagrado. O casal de idade que a horas está em silêncio na mesma mesa. Dois meninos entre 8 e 10 anos falando sem parar, a alegria da amizade desta fase, tantas coisas para viver. O grupo de adolescentes falando alto e tentando ser diferentes dos pais e dos avós. Bobagem, daqui a pouco a roupa cola no corpo deles e aí, fudeu. Outro casal, agora é ela, a mulher meio gordinha com o marido malhadão, mas careca, que tenta segurar a mão do amado e ele não aceita. Ela segue com o solhos baixos, ele percebe e, por peidade quase, coloca o braço em seus ombros. Ela dá aquele mesmo olhar que minha cachorra Tila dá pra mim quando eu resolvo dar um afago. As mulheres. Todas as mulheres não tinham beleza. Existe uma piada que milico só casa com canhão. Coisa de hábito, mas eu acho que é verdade. As duas menininas sentadas do meu lado e berrando que eu cantasse alguma coisa parecida com " bate a bota " ou " bate a sola". Coitadas. Já estaão drogadas e são tão novas. E são bem pentelhas também. Canto as canções dos Saltimancos e me olham, estúpidas. Não conhecem os Saltimbancos, mas todos os adultos murmuram baixinho a letra, nós gatos já nascemos pobres, porém, já nescemos livres...
Mentira. Ali ninguém era livre. Nem eles e muito menos eu que não consegui cantar a música da xereca da vizinha e do ovo no cu da galinha.
Daí a minha indignação. Tanto tempo se passou e eu ainda carrego em mim o medo de não estar sendo considerada apropriada pelos homens de verde. Uma infância inteira sabendo que algo terrível acontece, ouvindo histórias de quem some, de quem sofre, de quem mente, de quem foge, cresci com medo deles e ainda sinto isso. E tenho raiva de mim por ser tão convarde.
Não permito que se aproximem de mim.
Não quero fazer as pazes.
Não quero saber se eles estavam naquilo ou não, não quero saber de nada, nem deles. Só quero ir me embora logo e esquecer que abri a porta de um armário que eu nem sabia que eu tinha.
Quero dormir e esquecer. Juro a mim mesma que se voltar aquele lugar cantarei o côco do côco quantas vezes quiser. Se eles não gostarem...que me prendam, me torturem e que se fodam todos.
Ou fiquem ouvindo sertanejo medíocre pelo resto de suas existências. Pensando por este lado, é uma forma medonha de acabar os dias.


7 comentários:

Ananda disse...

Putz...acho q uma das piores sensações que exitem é essa: se sentir um peixe fora d'água. Junto com fazer as coisas por obrigação e contra sua própria vontade...
Gostei..gosto da maneira q desreve as coisas...parece q e tava lá junto...

Supimpa, mesmo...parabéns...vou passa mais vezes..até...

Ronaldo Faria disse...

Também não gosto de militares. Um primo meu, na Bahia, militante de esquerda, "desapareceu" na época da repressão e meu sobrinho mais velho morreu num quartel, no Rio, servindo o glorioso exército nacional. Também acho uma merda você ficar fora do seu espaço social. Se sentir peixe fora d'água... Artista sofre mesmo. Espero que pelo menos o cachê tenha sido bom. Mas vá ser eclético assim este barzinho (mesmo em clube) na puta que pariu. De criança a 3ª Idade... Não dá mesmo para criar um repertório. Mas nunca deixe de cantar o Guinga... Mesmo mulher de milico tem xereca.
Agora não saber Amor e Sexo é inconcebível! Só falta você dizer que não sabe Entre Tapas e Beijos... :)
Cuide-se. Sempre.
Ronaldo

Márcia Nestardo disse...

A censura é uma merda. Ela existiu institucionalizada naqueles tempos, que já são mais história que memória, mas FOI REAL. Parece até que foi incorporada geneticamente nos rebeldes com propensões artísticas... nossos pais. Virou essa auto-censura que nos acomete vez ou outra e depois enche de culpa por não ter cantado, não ter falado, não ter mostrado.
Não fica triste, Tatiana. Ou... fica sim. Sei lá. Mas canta...

ariadne disse...

Tatiana, que visão do inferno. Lendo seu post só me veio uma coisa na cabeça, vc tem q ganhar o pão mas não se violentar tanto assim Ligue o foda-se , como se diz e cante o seu repertório, que se dane. Melhor eles sairem mal do que vc :-). E talvez saiam até pensando em alguma coisa diferente. Na vida é sempre bom ter contato com coisas e pessoas novas, mesmo quando não se está muito consciente disso.

beijão e desejo uma plateia a altura da proxima :-)

Ninita disse...

Tati haviam crianças neste lugar, sei lá...quem sabe você com a música dos saltimbancos não plantou uma semente? é sempre melhor manter a esperança. E os adultos, alguns pelo menos, talvez tenham sido aliviados do peso da culpa. A música ainda é um remédio para a alma culpada ou inocente.
Beijos.

Ninita disse...

Tati haviam crianças neste lugar, sei lá...quem sabe você com a música dos saltimbancos não plantou uma semente? é sempre melhor manter a esperança. E os adultos, alguns pelo menos, talvez tenham sido aliviados do peso da culpa. A música ainda é um remédio para a alma culpada ou inocente.
Beijos.

Bruno Ribeiro disse...

Você devia ter cantado aquela do Julinho da Adelaide: "Você não gosta de mim, mas sua filha gosta". Beijo.