sábado, 26 de novembro de 2005

Eu de farda

Imagine uma guerra onde existem ataques por vários lados.
Sou um general observando o mapa da minha batalha.
Preciso saber pesar as perdas e os ganhos das minhas escolhas, saber onde encontro ajuda e apoio e onde o campo é minado mesmo.
Ao mesmo tempo preciso saber ser equilibrada e justa, não exagerar nem ser mole demais nas punições de guerra.
E o mais difícil é entender que não existe alto comando. O alto comando sou eu. Isso é terrivelmete assustador mas ao mesmo tempo me obriga a ter equilíbrio e força porque não existe outra opção a não ser esta.
A guerra pelo dinheiro do dia a dia. Cada conta paga é uma luta ganha. Uma baioneta abrindo as tripas do inimigo e o sangue dele molha a terra que eu piso.
Ir aonde eu quero chegar é como andar durante à noite em terreno estranho, sem saber se tem uma emboscada ou se me perdi no meio da escuridão. Seguir os meus instintos de sobrevivência e ouvir a intuição que murmura coisas dolorosas é voltar a ser bicho, contando somente com aquilo que é da nossa própria natureza. Não me perder no meio de tanta necessidade. Não barganhar. Não aceitar a fácil vitória nem cogitar a desonra da desistência.
Proteger os meus. Minha prole. Meu sangue. Seus pequenos soldados. E ao mesmo tempo ensiná-los a ser soldado raso para um dia poderem ser generais de sua própria batalha. Mais uma vez ter a justa medida entre o berro e o cafuné porque esta luta toda só é válida porque tenho eles, meus pequenos pedaços de mim.
No meio de gritos e bombas é preciso também acender o torto cigarro, abrir a garrafa com último gole de conhaque e dividir a porção que a alimenta a tantos e rir. E sonhar com uma época futura onde tudo seja paz e traquilidade cantando velhas canções que embalaram outros soldados. É preciso deitar em um abraço morno e cobrir de suspiros e geminos o som dos tiroteios. É preciso olhar pros céus, um pouco bêbada, no meio do caos.
É isso, minha amiga.
Sou um general olhando o horizonte que brilha com os fogos de guerra mas que vê ali um farol pro futuro.
Não quero medalhas, não quero firulas, não quero aperto de mãos. Quero somente um dia poder balançar em minha cadeira e contar aos que ainda não foram que é possível ir mas voltar inteiro.
Enquanto esse dia não vem, leio sobre guerrilhas, técnicas de sobrevivência na selva, alimentação alternativa e como manter a pele lisa e hidratada no meio da guerra cotidiana.

3 comentários:

Gika disse...

Muito bom Tati, esta é a luta de todos nós nessa guerra diária. Não tem sido fácil pra ninguém... Mas te asseguro que tudo os que ainda não foram precisam, é do exemplo de um general como vc ;)!
Tenho passado sempre por aqui viu...rs. Essa guerra diária tem me deixado meio desanimada e distante em corpo presente, mas sempre perto em pensamento.
Beijo Grande!

Monica disse...

eu te entendo.
mas não seria melhor se fosse tempor de paz?

Anônimo disse...

Pelo menos você quer brigar. Minha vontade é sentar e chorar mesmo!