terça-feira, 20 de outubro de 2015

Vó Divina - Brigada de Oxalá

Mais um pedacinho do livro para degustação. Brigada de Oxalá é um projeto que inclui um livro e o cd que serve de trilha sonora e com canções compostas em aprceria com Alexandre Lemos, meu parceiro antigo e agora companheiro daqueles de bom.

Esse livro está em um financiamento coletivo e para colaborar entre aqui 
Esse capítulo fala de uma das figuras centrais do livro, a Vó Divina.


CAPÍTULO 7

Ela é uma velha sentada em seu banquinho. Ela é madrinha quem cuida do canzuá”
Tatiana Rocha


Tinha chovido bastante na noite anterior e as ervas estavam felizes com aquela umidade toda.
Divina estava sentada em seu toco predileto, tomando seu café e observando o dia nascer. Todas as juntas de seu corpo doíam, os dedos já estavam tortos, qualquer movimento era uma tortura.
Não tinha medo da morte, ao contrário, ansiava o instante que se libertaria do seu corpo velho e poderia voar livremente. Oitenta e três anos é tempo demais pra se viver. Todos os amigos já tinham partido, tudo que lhe era familiar tinha mudado. Se sentia só e antiga, muito antiga. Sentia saudade de comer e beber juntos dos seus, de poder dançar um bom samba de roda, de varar a madrugada cantando, das giras de festas, da casa cheia de gente.
Agora não fazia mais essas coisas.
Observou que a arruda estava secando. Passou os dedos nas folhas secas e falou carinhosamente:
“Ô, erva danada de boa, sô! Vira e mexe resseca e morre anunciando que tem demanda chegando aqui. Como se eu não soubesse que se vive no meio de um mar de demanda. Vou colocar mais estrume bem curtido no seu pé, viu, formosa? Fica assim tristinha não. Mesmo sequinha tu é a mais linda arruda desse terreiro todo. Não, não é verdade, eu não cuido mais das rosas, cuido de tudo igualzinho aqui. Deixe de falar besteira, deixe de ser ciumenta que eu não gosto desse tipo de conversa”.
Não se surpreendeu quando uma imagem apareceu no meio da névoa da manhã.
Desde sempre via e ouvia espíritos. Herdara da avó essa capacidade, o jeito com as plantas e a obrigação de cuidar dos santos e das pessoas. Ver os mortos era como ver os vivos. Era tudo filho de Deus.
Sua avó era negra africana, trazida à força pra o Brasil e se chamava Bukola. Foi rebatizada como Benedita, em homenagem a São Benedito e nunca aceitou seu nome cristão. Na África era uma sacerdotisa, iniciada nos Mistérios, muito respeitada e temida. Conhecedora do uso das ervas e dos pós mágicos, curava praticamente todos os males do corpo e era muito boa pra dor de coração. Quando virou escrava quase morreu de desgosto e saudade. Apanhou muito por causa de sua resistência e teve o rosto todo cortado por chicote na tentativa de conter sua natureza agressiva e rebelde. Foi colocada como matriz, pra procriar mais escravos, e tirou do próprio ventre vários filhos. Se recusava a servir a qualquer senhor dizendo que não era bicho pra dar filho escravo. Mas quando engravidou da mãe de Divina, que resistiu a todas as ervas aborteiras usadas, entendeu que aquela criança deveria nascer. Por causa dela descobriu forças pra continuar viva e aprendeu a ser mais discreta em sua luta. Sua filha foi batizada como Rosa Maria mas Bukola a chamava de Chinyere, presente de Deus. Nunca se esqueceu de sua terra e dos filhos que deixou pra trás. Nunca se esqueceu dos seus deuses e aprendeu a cultuá-los escondido, fazendo o Senhor acreditar que ela estava rezando pros santos dos brancos. Morreu fugindo do cativeiro, com quase cinquenta anos, sabendo que seria morte certa, que o capitão do mato não a deixaria ir muito longe. Não tinha medo da morte. Tinha medo de se acostumar com a prisão, de perder a vontade de lutar. Então, em uma noite de lua escura, saiu da senzala, se embrenhou na mata e foi em busca de sua liberdade. Quando se despediu da filha e da neta, que era um bebê de colo, jurou que nunca iria deixá-las desamparadas.
Quando Divina tinha treze anos, já negra alforriada, Bukola apareceu para ela em um sonho dizendo que ensinaria tudo que sabia porque a tradição tinha que continuar. Ela era herdeira de um povo que reconhecia a sabedoria de seres sagrados, divindades que podiam conversar e orientar, amigos espirituais. Explicou que Divina tinha nascido com o dom de ver e ouvir esses seres e ainda espíritos que já tinham abandonado a vida, na forma da carne. Divina possuía ouvidos, olhos e pele sensíveis, que reagiam às vibrações dos outros planos espirituais.
Divina viveu transitando entre os mundos dos vivos e dos não vivos, recebendo informação direta de sua avó desencarnada mas, principalmente, desses amigos espirituais que sempre a acompanhavam, orientando e ensinando.
Havia os anciões que sempre tinham uma palavra sábia e justa e Divina os chamavam de vô e de vó e eram eles que consolavam suas tristezas mais profundas. Havia os seus amigos, crianças como ela, que normalmente apareciam tentando evitar que Divina se machucasse ou se metesse em confusão braba. Normalmente chegavam em pequenos grupos e brincavam juntos por muitas horas, sendo responsáveis por vários atrasos e, consequentemente, broncas imensas onde Divina era acusada de falta de atenção, lezêra, lombriguice desvairada, mania de sonhar acordada e falta de vontade de trabalhar. Divina ouvia as broncas e nem ligava. Muitas vezes riu alto, vendo, por de trás de sua mãe, a doce Crispiniana, sua melhor amiga desencarnada, fazendo micagens e imitações engraçadíssimas de sua pobre mãe que, não vendo nada, achava que Divina era mesmo uma criança muito da debochada. Apanhou muito por causa disso. Acredita até que suas orelhas eram maiores do que o normal do tanto que elas foram puxadas! Pulava do riso para o choro e algumas vezes quem vinha em seu socorro era uma senhora muito bondosa, brilhante até, que pedia que tivesse paciência, que um dia aquilo tudo passaria e ela entenderia melhor. Gostava dessa senhora como quem gosta de uma professora muito amada e ela se identificou como Dona Tetê.
Outras vezes sentia a presença de seres que viviam nas matas, tão ariscos que não se deixavam ver mas Divina aprendeu a ficar bem quietinha, sem abrir os olhos, sem mexer um músculo sequer e eles, muito lentamente, foram se aproximando até que um dia começaram a conversar. Divina amava entrar na mata correndo, tentando acompanhar seus amigos que pareciam flutuar e serem mais rápido que o pensamento, perseguindo as borboletas e os passarinhos.
Nunca se sentiu só, afinal sempre tinha companhia dessas visitas e amigos não encarnados, mas sabia que não era exatamente como as outras crianças e jovens e entendia porque a maioria das pessoas a evitava. Ela era diferente.
Sua avó só parou de se apresentar quando Divina fez a sua iniciação em um terreiro de Candomblé, iniciação essa que foi longamente discutida com seus amigos espirituais, já que Divina não se sentia à vontade em virar sacerdotisa e não também não tinha um temperamento manso, que aceitava tudo sem reclamar ou discutir. Muito tempo e trabalho foram gastos até que Divina pudesse receber as bênçãos dos Orixás africanos, honrando assim a sua linhagem espiritual e ganhando uma insígnia sagrada que muito lhe serviria na sua caminhada. Sua própria avó teve que interferir e vir pedir que seguisse o que lhe pediam e, mais ainda, disse que dali em diante ela teria que confiar na sua intuição, nas orientações dos amigos espirituais e que deveria aprender a magia do povo branco e do povo vermelho, juntando tudo em uma fé só porque tudo era sagrado.
E assim Divina fez.

Euclides brilhava em uma cor suave e sua imagem era meio fosca, mas perfeitamente visível.
“Bom dia, Divina! Tá bonito esse quintal, hein? Tudo colorido, que beleza!”
Divina sacudia a cabeça em aprovação e viu o amigo sentar no toco lado do seu.
“Você não é de se bandear pros lados de cá sem razão importante. O que quer dessa velha aqui? Café eu sei que não é porque morto não toma café. Pelo menos não desse aqui que eu to tomando. O que quer de mim?”
Euclides riu da forma direta e sem delicadeza de Vó Divina. Ela era fogo na roupa, não tinha mesmo papas na língua!!
“É verdade, estou precisando de sua ajuda. Vamos mandar um jovem pra perto de você e precisamos que passe a ele algumas informações sobre a religião, sobre os mistérios, sobre a Arte. Precisamos que oriente ele, cuide mesmo. Ele está sendo convocado pra assumir uma grande obrigação e precisa de ajuda. Tem temperamento difícil, é rebelde, meio desbocado, bem cabeça dura. Ou seja, parecidíssimo com a sua pessoa. Vai assumir um terreiro de Umbanda quando ficar adulto”.
“Sei. E quando ele chega?”.
“Hoje”.
E nesse instante adentra pela porteira do terreiro um moleque com uns nove anos de idade correndo atrás de uma das galinhas boiadeiras que cacarejavam loucamente acordando o dia de forma definitiva.
Vó Divina se levanta do banquinho com dificuldade, olha pro menino que parou assustado quando viu a preta velha e resmunga baixinho:
“Esse povo não tem piedade de uma velha. Mesmo no fim da vida fica mandando trabalho pra gente fazer. Afe Maria, e ainda mais um moleque atentado desse. Só por Deus, viu. Ô, moleque filho de uma égua! Vá correr atrás de outra galinha que essa aqui é a Genoveva! Se assustar a bicha ela para de botar ovo! Mas será o benedito!”
Euclides foi embora morrendo de rir do jeito “delicado” que Vó Divina tinha. Sabia que ela faria um trabalho muito bom com aquele menino. Não era o primeiro que era encaminhado pra ela, mas possivelmente seria o último. Sorriu imaginando o tanto que aquele pobre menino levaria de bronca, do tanto que seria corrigido. O método dela era o antigo, sem muita conversa, sem moleza e seguindo à risca a tradição. Funcionou por muitos anos. Deveria funcionar com ele também.



2 comentários:

Renata Leite disse...

voce tem textos otimos!

Renata Leite disse...

adoro seus textos