domingo, 21 de março de 2010

Uma casa sem alma

Foi paixão à primeira vista. Aquele tom pálido de verde nos muros, a sombra generosa da árvore-guardiã, o chão coberto de folhas e flores, um cheiro de futuro cheio de nuances. Nessa tarde de verão, a casa conseguiu o que queria.
Entrei ali acreditando em todas as promessas e sonhos que queria acreditar. A casa ouviu risos, festas, música. A casa tremeu com as gargalhadas que soltamos. A casa sorria, sorvia com gulodice aquela vida toda que invadiu seus cômodos, como couro seco amolecendo no óleo. Ela gostou de ser colorida por dentro e por fora.
Mas aquela casa não era uma casa feliz, talvez tenha sido algum dia, mas muitas coisas aconteceram antes de ser habitada outra vez e ela se contaminou com tanto amargor e desilusão. Uma casa deprimida que precisa se alimentar dessa energia alheia. Uma casa vampira. Uma casa melancólica e pobre de energia.
Alguma coisa me deixava desconfortável. Eu acreditei que fosse a história da morte dos gatos, peguei implicância, mas sentia uma vontade incontrolável de sair dali, de viajar, de ir aos botecos, aos bares. A casa não me acolhia, o quarto me sufocava, sentia falta de ver o céu e o verde da rua. Nunca tive problemas para dormir e ali comecei a não somente perder o sono, como a ter pesadelos.
Muitas pessoas choraram naquela cozinha, coisa normal em minhas casas. Cozinha é realmente lugar de abrir a boca e o coração. Mas ali, nessa última casa foi além da conta. Quanta tristeza escorreu por ali.
Nunca consegui meditar, me faltava aquela sensação de tranqüilidade que permite fechar os olhos e se deixar levar. Fiz duas vezes somente minha prática de yoga, mas eu rezei muito ali. Rezei porque é natural em mim rezar, pedir e chamar. Não entrei sozinha naquela casa, como não entro só em lugar algum. “Meu povo” é leal, um presente de Deus mesmo, e sempre ouvi o que minha intuição me dizia. Nunca consegui fazer um único encontro de saias ali. Nunca abri portal algum e também nunca senti presença estranha ali. Não era de fora, era alguma coisa de “dentro” da casa, alguma coisa que existia ali e que eu nunca tinha vivenciado por isso não sabia nomear nem identificar.
No começo, sem alarde, eu dizia que, assim que o contrato acabasse, eu sairia dali. No final, perdi os pudores e já falava alto que a casa me agoniava, queria sair dali. Um peso no meu coração e uma urgência na garganta.
A casa se doía dessas conversas e rechaçou. Suas pequenas trincas, que um dia eu cheguei a pensar que fossem delicadas rugas, começaram a aumentar, cortavam de norte a sul, de leste a oeste.A casa trincava de raiva e o barulho das paredes rachando eram como zumbidos.
Um assalto aconteceu.
A decisão de sair foi antecipada.
A casa reclamava. Um empreiteiro foi chamado e descobriu-se que a casa estava afundando, um buraco de mais de um metro crescia a cada dia por debaixo do terreno da garagem. A casa realmente estava perigosa. A saída se transformou em urgência e prioridade.
Uma noite, agora, faz muito pouco tempo, eu fui dormir e, como sempre faço, comecei a rezar. Pelo menos tentei. Não tenho o dom de “ouvir”vozes, percepção auditiva, eu “sinto”, não vejo nem ouço nada. Agradeço imensamente por isso porque sou meio patife nessas situações. Acho que viveria em estado de pânico. Naquela madrugada meu quarto estava infestado de ruídos estranhos, como se minha cama rangesse sob o peso de alguém que sentava nela. Passos. No silêncio da noite, cada barulhinho é como uma trombeta
berrando no meu ouvido e eu pulava na cama, de susto. Perdi a capacidade de lembrar o velho e bom Pai Nosso. A cada vez que eu começava, um barulho me assustava e eu me perdia na reza. Fiquei paralisada de medo e surpresa. Pensei em berrar por ajuda, não mexia nenhum músculo do corpo, um medo co cacete de dar de cara com alguma coisa. Fechei os olhos com força e, já que não conseguia passar da primeira frase do Pai Nosso, improvisei, deixando pra lá as formalidades e tasquei um “valhei-me Minha Nossa Senhora, me acuda aqui!”. Chamei todo mundo! Chamei meu padrinho e minha madrinha, poderes que eu escolhi para cuidar de mim. Chamei meu anjo de guarda, todo o batalhão do Arcanjo Miguel que me protegia a cima, a baixo, a direita, a esquerda, na frente e atrás. Senti minha coberta ser puxada lentamente e eu não gritei porque estava rezando histericamente. Meu dragão tatuado formigava. Chamei a presença dos caboclos, dos Preto Velhos, chamei erê, Santa Sara, São Longuinho, quem eu lembrava eu ia chamando. Invoquei a presença daqueles que eu sabia o nome, chamei o povo do Oriente, da África, chamei o povo da rua. Outra vez senti a coberta sendo puxada e o barulho da cama rangendo. Nesse momento até o coelhinho da Páscoa eu pedi que viesse . Pelo poder dos quatro elementos, rezava com força, por tudo que eu aprendi, eu invoquei. Pedi que quem estivesse ali por perto e fosse da luz viesse me dar uma força porque eu não poderia amarelar naquele instante. Se eu fraquejasse, se eu deixasse que o medo me impedisse de lutar, eu sabia que eu estaria ferrada. Era um cabo de guerra.
A única coisa que me salvaria de mim mesma era a fé e a confiança na Luz e na combinação de forças.
Rezei por muito tempo e muito lentamente os barulhos foram diminuindo até que eu pude dormir um sono leve e frágil. Chamei tanta gente que meu quarto estava super lotado e aquilo era meio incômodo.
Acordei sabendo que eu tinha sido atacada e que me safei porque eu rezei e pedi por ajuda.
Minhas orelhas ficaram em pé e aquilo que eu sentia de forma diluída ficou claro. O pau estava comendo e eu estava no meio dessa confusão.
Chegamos à conclusão que aquela casa não tinha alma e se alimentava da energia de quem morava ali.
No dia de minha mudança, quando bati a porta pela derradeira vez, não senti nem dó nem saudade.
Bati a porta como quem fecha um livro medíocre com final triste. Saí olhando pra frente e sei que a casa está moribunda e furiosa. Mas agora ela faz parte do passado e passado não volta mais.
Já estou na casa nova e tudo é diferente.
Amanhã entro pela última vez lá para fazer a limpeza final.
Entro totalmente protegida e me propus a fazer uma última ação de caridade.
Mas será a última vez que pisarei ali.
Nunca mais.

6 comentários:

Marina F. disse...

Credo em cruz, Tati!

Morena disse...

Felicidades na casa nova e, muita energia!

Patricia(Gô) disse...

ahahahaha...São Longuinho e Coelhinho da Pascoa?
só vc ...bjs mil

Georgiana disse...

Carai... a coisa foi feia!!! Desejo sorte e felicidades na casa nova. Sei como é estas coisas de se mudar!

Fernando disse...

Isso que você descreveu é cena de filme de terror, e dos medonhos. Ou a galera não queria que você saísse de lá de jeito nenhum ou estava te botando pra fora.

Menininha bossa-nova disse...

Adorei o texto. De verdade. Um dos melhores seus que eu já li.

Saudades.

Beijo!