segunda-feira, 8 de junho de 2009

cliente X cantora

A noite transcorria fria, com seria de esperar. Cantar no Deck no inverno é garantia de friozinho. Todas as mesas ocupadas, praticamnete casais. Aquela coisa...vinho, frio, aquecedor, meia luz.
Chega uma amiga querida ( inclusive, leitora e comentadoras aqui do blog) e comecei a tocar as coisas que me pediam. Músicas do musical "Ópera do Malandro", Joyce, Saltibancos, Guinga...Eu me divertindo com um público seletérrimo mas animado.
Um homem que estava acompanhado de uma loirinha meio gordinha foi falar com aminha amiga, deixando um recado pra mim.
"Ele quer que você toque Zé Ramalho..."
Ok. Eu toco Zé Ramalho. Eu sei tocar Zé Ramalho. Toquei Galope Rasante que é uma bela canção.
O cara nem prestou atenção, e acho até que nem sabia que a canção que eu estava tocando era do Zé amalho, mas eu toquei.
Passados alguns momentos, o homem berra ládo fundo do bar:
-Toca Chão de Giz!!! E o meu Zé Ramalho?
Eu, muito fina e dissimulada, respondo que não sabia tocar Chão de Giz. Mentira. Eu sei. Mas Chão de Giz é de foder. É um clássico entre os músicos, o prêmio "Música Mala", ali, do ladinho de " Espanhola", " Yolanda", "Andanças"...
Acabei a noite, todos foram embora e só ficou eu e o casal Zé Ramalho.
Espero ele acabar de pagar a conta, ele está quase saindo do bar quando me vê no balcão. Volta pisando duro e sacode na minha cara um guardanapo com uma reclamação dele ao dono do bar dizendo que não eu não sabia tocar nem Chã de Giz, nem Garoto de Aluguel. Eu acho que ele estava meio alto.
Naquela hora, meu sangue ferveu. Ele deixar bilhete é direito dele. Eu bem sei qual seria a reação do dono do Deck quando lesse o bilhetinho. O que me irritou foi o tom que se dirigiu a mim.
Olhei bem pra cara dos dois e disse calmamente:
-Não toco porque não gosto dessas músicas.
Os dois me olharam com a boca aberta.
-Mas você "tem " que tocar o que o público pede. - Ele me barrava o caminho e eu peitei ele. Meu olho no olho dele, a dois dedos de distância.
-Não tenho não. Eu toco o que eu gosto, o que me agrada. O gosto é meu, não seu.
- Não, se você não toca o que as pessoas querem você não está fazendo seu trabalho direito.
- Algumas coisas que as pessoas pedem não merecem nem atenção. E eu tenho a minha linha de trabalho, meu trilho de som. Quem decide o que tocar sou e mais ninguém. Não toco porque não gosto e isso já resolve tudo. Se não gostou, fazer o que? Como eu te disse, alguns pedidos não merecem a minha atenção. E mais...cantei pra você Zé Ramalho. Nã tenho culpa se você não conhece a obra do cara. Só conhece as músicas mais chatas.
Nisso os dois já estava fulos da vida. O cara pareceia que queria me bater. A mulher também batendo boca comigo. Eu ali, bem calma olhando a cara dos dois, enquanto carregava o equipamento pro carro, mas eu segurava o pedestal bem forte. Se ele chegasse pra cima de mim, eu dava com o pedestal na cabeça dele!
Aí ele lançou a pérola:
-Eu sei oque é isso. Você é da Unicamp, né? É esse tipo de gente. - falava como se "ser" da Unicamp fosse uma coisa muito, muito "leprosa". Os "unicamp" não gostam de Chã de Giz, logo não são "normais".
-Olhe, fico até lisoneada porque já faz muito tempo que saí da Unicamp, mas eu acho que se você não é Unicamp, eu devo ser.
Nesse exato minuto eu achei que ele iria partir pra ignorância. Nesse exato minuto o gerente do bar apareceu do meu lado e muito calmamente me chama pra voltar a bar para marcar mais uma data. O pedestal ainda estava na minha mão e ele estava muito frio. Eu iria dar na cabeça dele mesmo.
Voltei pra casa pensando no ocorrido. Quase dava merda feia por causa da música Chã de Giz que, um dia, eu cheguei a gostar de tocar. Mas depois de sete milhões quatrocentos e vinte e nove vezes algumas canções perdem o charme.
Agora por quê? Por que , meu Pai do Céu, o povo quer tanto ouvir a porra de Chã de Giz? Não cansam? Não enjoam? Por que as pessoas precisam sempre ouvir aquilo que é batido, que é comum? Por que não abrem os ouvidos para outras coisas?
E eu não acho que meu repertório é assim tão diferente. Não é. É somente um repertório que foge do lugar comum, do óbvio. E, definitivamente, Chão de Giz não se enquadra no meu patamar de músicas para se tocar em bar.
E o tom! O tom é que me irrita! Como se eu fosse uma serviçal particular, uma máquina de tocar música. Porra, compra um mp3, enche de músicaque você gosta, pôe na sequência e soca no cu. Assim você ouve de "dentro", reverberando nas vísceras. Eu não sou maquininha de tocar música! Posso até acatar pedidos, que por sinal é uma coisa que eu adoro fazer, mas existe uma coerência estilística dentro de uma apresentação. Já me pediram Tiririca, O Hino do Corinthians, Pitty ( imagine sí eu cantando Pitty) e um dia desses recebi um bilhetinho me pedindo uma cançao que se chama " eu perdi meu namorado pela novela das oito". Sinceramente, não conhecço esta canção mas este pedido me assustou muito.
Bem...eu quis esta vida, agora eu que aguente. Não não tem saco pra essas entepéries que saia da noite e eu já estou nela a muitos anos e já criei casca grossa. Mas que é um saco, ah, é um saco!

5 comentários:

Ju Hilal disse...

Outro dia a Selma pediu Chã de Giz lá no Deck e você também não tocou.
Ela ficou chateada mas entendeu...
Depois ela pediu de novo na São Jorge e você não tocou. Ela ficou tristinha mas entendeu.
Acho que ela vai pedir de novo no Paparazzi amanhã. Se você não tocar ela vai subir no palco e cantar.
Hahahahahahahahahahaha
A Selma a-do-ra Chão de Giz.
Beijos

Patricia(Gô) disse...

Meu feeling dizia pra ir com vc , ta vendo?..acabava que eu mesmo ia dar com o pedestal na cabeça dele.
Ah esqueci de dizer que o tal disse que eu era sua empresária ...kkkk..
Quem pede chão de giz pra vc é pq nunca te ouviu cantando Joyce...brigaduuuu

Monsieur Binot
(Joyce)

Olha aí, monsieur Binot
Aprendi tudo o que você me ensinou
Respirar bem fundo e devagar
Que a energia está no ar

Olha aí, meu professor,
Também no ar é que a gente encontra o som
E num som se pode viajar
E aproveitar tudo o que é bom

Bom é não fumar
Beber só pelo paladar
Comer de tudo que for bem natural
E só fazer muito amor
Que amor não faz mal

Então, olha aí, monsieur Binot
Melhor ainda é o barato interior
O que dá maior satisfação
É a cabeça da gente, a plenitude da mente
A claridade da razão

E o resto nunca se espera
O resto é próxima esfera
O resto é outra encarnação

figbatera disse...

Pois é, Tatiana, tocar na noite tem dessas coisas; quando eu o fazia eu tb só tocava o que eu gosto e raramente atendia a um pedido (a menos que fosse dentro do contexto do repertório).
E o pior é quando acontece do cara pedir e nem saber que vc já tocou a tal música ou o tal compositor; é mesmo "de lascar".

Menininha bossa-nova disse...

Dois comentários:

1) Droga, eu queria muito ter visto essa cena...

2) Eu ia amar ver vc tocando Pitty... hahahahahaha! Toca pra nós, por favor!?!?

Ana disse...

Leio seu blog já tem um tempinho, adoro! Hoje porém as risadas aqui saíram mais altas... sei que tem todo o lado chato da situação, do cara se sentindo O tal, mas me lembrou as inúmeras saídas em lugares com música e todas as vezes alguém pediu a bendita Chão de Giz.... o cara pode estar lá tocando salsa, mas irá surgir o tal bilhetinho com o pedido... rsrsrs
Deve ser algum mantra do qual a gente ainda não se sentiu abduzida.

Beijos!!!!!