terça-feira, 24 de junho de 2008

eu, a cobra, o medo e a calêndula

Teve uma época que eu estava muito envolvida com o estudo das ervas. Tínhamos um grupo que se encontrava toda semana para discutir sobre utilidade terapêutica e mágica, correlações planetárias, novas receitas, formas de uso. Era um grupo divertido e realmente aprendemos coisas muito interessantes.
Muitas das ervas que estudávamos eu nunca tinha visto. Já tinha lido sobre ela, podia dizer o nome científico, mas nunca em minha vida tinha visto em habitat natural. O que é uma falha terrível de uma erveira estudiosa. Tem que saber as informações básicas que se consegue em livros mas tem que sentir, cheirar, apalpar, alisar e o máximo que eu poderia fazer é dar uma lambidinha em alguma foto ou desenho de erva. Algumas ervas eram abstrações teóricas para mim. Um vexame.
Foi decidido que iríamos fazer um estudo de campo. Lá no meio do mato, identificar arnica, erva de são joão, erva de santa maria, meter o pé na terra, sentir a energia do céu, fazer uma fogueira e beber vinho ritual.
Lindo, né?
Lindo se não fosse o frio dos infernos que se abatia sobre o mundo naquela época. Uma neblina que pesava sobre a vegetação, as luvas que eu usava dificultavam o manuseio das plantas e uma sensação realmente desagradável que uma cobra saltaria de trás de algum matinho e me atacaria. Eu seria devorada por uma cobra assassina, revoltada com o barulho que fazíamos na sua casa. Seria engolida inteira e sem mastigar. Ou pior, seria picada e morreria lentamente, ali mesmo, no meio do mato. Toda roxa de frio. Sem glamour nenhum. Morreria segurando meu bouquet de ervas fúnebre. Uma imagem realmente apavorante.
Sim! Eu sei que estava tudo muito dramático, mas a gente era assim mesmo. Um drama atrás do outro. Era divertidíssimo.
Estava eu com a cara enfiada em alguma coisa, tentando identificar se era mesmo uma determinada erva, concentração total, quando eu vejo um movimento do meu lado direito. Uma plantinha se mexeu. Um barulhinho veio do chão. Na hora eu gelei e pensei " caramba, é cobra". Fiquei imóvel, o corpo ainda curvado sobre a planta, um olho na moitinha do lado, outro olho no caminho que levava de volta pra estrada. Qualquer coisa eu pulo de lado e saio correndo. Porra, eu tenho duas pernas, isso deve me dar alguma vantagem em relação a um bicho que além de ser bicho, logo tem menos inteligência que eu, não tem perna alguma. Se eu correr, ela não me pega nunca mais.
Dava pra ouvir o barulhinho do vento mexendo nas folhas. Meu coração parecia que batia junto com a terra de baixo dos meus pés. E eu ainda imóvel e em um estado de tensão realmente grande.
Eu literalmente dei um pulo para trás quando saiu do mato um bicho muito, muito esquisito. Um tipo de marsupial minúsculo, uma mistura de rato com canguru, um misto de mico com esquilo. Sei lá que bicho era aquele. Hoje eu até acho que ele devia ser até bem fofinho, um tipo de bichinho que faz a gente dizer " ohhhhhhhhh, que gracinha!", mas o susto foi tanto que eu saí correndo com os braços pra cima, berrando " cobra, cobra cobra!". O que deu um efeito dominó em matéria de histeria feminina. Eu vi um bichinho que achei que fosse cobra. A outra ficou com tanto medo que viu mesmo a tal cobra que eu berrava. A outra já achava que era um bicho maior, mais rápido, tipo uma raposa, um lobo, um cachorro do mato e a última que era gorda pra sair correndo pelo meio da mata caminhava calmamente de volta pro carro. Mas caminhava rezando para que o lobo e a cobra que estavam atacando a gente não atacasse ela.
Eu nunca fui muito rápida, atletismo nunca foi meu esporte preferido, mas eu tenho certeza que eu bati todos os recordes dos 200 metros com barreiras. Eu saltava como uma gazela, a sacola cheia de ervas, tesoura, facas, batia no meu quadril e eu corria, mas eu corria tanto porque eu ouvia a outra dizer que tinha um lobo, puta merda, além de cobra, tem lobo nesta bosta de lugar. Corri o máximo que pude e fui para bem longe. Infelizmente, na agonia, corri pro lado errado e estava levemente perdida no meio do mato, cheio de cobra, lobos e marsupiais que comiam olhos humanos em manhãs frias de inverno. O medo tinha tomado conta de mim e meu pior inimigo era eu mesma.
Nessa hora eu recebi a ajuda que precisava. Dentro da minha bolsa havia um punhadinho de calêndula, com sua flor amarela, cheia de vida e coragem. Parecia que ela pulsava, que ela pedia que eu segurasse nas mãos. Eu agarrei a plantinha, cheirava ela, nervosa, apertava tanto que o sumo molhava meus dedos. E assim, subitamente, percei que estava abestalhadamente histérica. Que eu não vi cobra nenhuma. Que não tinha lobo nenhum. Lobo, veja se tem cabimento achar que tinha lobo ali. Uma calma confiante foi se chegando em mim e eu pude voltar calmamente para onde tudo tinha começado.
Voltei pro carro e encontrei as outras dentro dele, morrendo de rir de mim, mas nenhuma estava do lado de fora do carro.
-Você viu cobra mesmo?
Depois de um mico daqueles eu não podia ficar com fama de erveira cagona.
-Mas é claro que vi. Imensa. Um bocão aberto naquela cabeça triangular.
-Virge, cabeça triangular é característica de cobra venenosa.
-Super triangular a cabeça dela. Ela devia ser muito venenosa. E tinha listras, muitas listas. Era rápida, viu? Preparou o bote e tudo. Ainda bem que eu saí correndo. Um perigo.
-E o lobo?
-Imenso. Babava inclusive, uma baba branca e espumante. Devia estar com raiva.
-Nossa, vamos voltar que aqui é muito, muito...muito selvagem. A gente interfere na natureza e a natureza reclama. Melhor sair daqui.
-Ah, eu também acho. Inclusive isso aqui pode ser um cemitério indígena. Senti uma energia, sabe, uma coisa assim me incomodando.
-Nossa, é mesmo! Ou um cemitério de alguma senzala.
-Isso mesmo! A gente estava invadindo solo sagrado por isso a cobra e o lobo atacaram.
-Poxa vida, explica tudo, não é?
-Claro que explica. Tá tudo interligado nesse mundo. O bater da asa da mariposa lá na Indochina reverbera aqui. A mariposa de lá deve estar muito é da puta pra dar um susto desses na gente. Vamos embora pra casa que eu to morrendo de fome.
Voltamos para casa e eu agradecia baixinho à calêndula e acho que descobri uma outra utilidade para essa sagrada plantinha: controlar histeria e aumentar a criatividade em matéria de desculpa para medo generalizado.
Ninguém nunca confirmou isso, mas eu ainda acredito que ela tem esse poder. Afinal, estávamos estudando novos usos para as ervas mágicas, não é? Foi um momento de iluminação, tenho certeza.
Quero lhes apresentar a calêndula.

Medicinal Calêndula
Expectorante, anti-sépticas e cicatrizantes.Anti-ictérica, antiscorbútica,anti-oftalmica, excitante, emenagoga,antispasmódica.
Fonte de iodo orgânico, responsável por suas propriedades anti-sépticas, impede a formação de pus em cortes e queimaduras, favorecendo a granulação dos tecidos que apressam a cicatrização. Bom para contusões e frieiras. Óleo para luxações, veias congestionadas, úlceras externas e problemas de pele: colocar um punhado de flores num pote de vidro com 1 xícara de azeite de oliva. Deixar em janela ensolarada e sacudir de vez em quando. Pronto de 1 semana a um mês após.
A infusão da flor é boa para a digestão; também a infusão é recomendável para lavar a boca, contra as doenças das gengivas.
Cosmética
Excelente em loções para o rosto, como a receita a seguir:
1 xícara de flores frescas misturadas em 2 xícaras de leite morno. Deixar esfriar, coar, e conservar em geladeira até o uso. Aplicar na pele previamente lavada com vinagre de maçã.
Uso caseiro:
Para complemento de jardins externos e para arranjos.
Uso culinário: Usar as lígulas (pétalas) para dar uma cor de açafrão e um leve gosto picante ao arroz, sopas, queijo-cremes, iogurte, manteiga, omeletes, pratos com leite, pães e bolos.
Nomes Populares
Calêndula, mal-me-quer, maravilha
Nome Científico
Calendula officinalis L. / Compostas
Planeta
Sol
Origem
Erva de origem européia, vulgar nos jardins públicos.
Partes usadas
Flores e folhas
Lendas e Mitos
Seu nome botânico deriva da crença de que parece estar sempre em flor, nos primeiros dias de cada mês (do latim calendas).Os antigos egípcios acreditavam que possuía propriedades de rejuvenescimento.Os hindus utilizavam-na para decorar altares e os persas e gregos guarneciam e aromatizavam a comida com suas pétalas douradas.
Uma das lendas que a envolvem diz que a memina que pisar descalça em suas pétalas, começará a entender a linguagem dos pássaros.
Seus poderes também são invocados em sonhos premonitórios. Uma guirlanda de calêndulas na porta de entrada da casa espanta qualquer mal.
Outra crença popular sobre a calêndula é de que se não abrirem suas flores até 7 horas, pode aguardar chuva.
Caracteristicas e Cultivo
Planta anual e rústica, de 30 a 50 cms de altura, com folhas verdes e pubescentes, caule verde e carnudo, coberto de pelos finos e glândulas. As sementes são de cor creme, na forma de um apóstrofo curvo. As flores são de um laranja vivo.

2 comentários:

Andréa Reis disse...

mistura de rato com canguru, deve ter sido um sariguê. Parece um rato mas tem bolsa na barriga igual do canguru. É do mato e gosta de andar em telhados de casas do campo. Um dia um filhote caiu na minha cabeça enquanto eu dormia... até hoje estou traumatizada, quando durmo em casa de telha vã vigio para ver se tem sariguê no telhado(tem gente que chama de gambá tb, mas parece mesmo um rato!).
Bjs

Cospariu! disse...

Tudo que tenho a dizer nesse momento é: hahahahahahahahahahahahahahahahaha!!!!