domingo, 15 de julho de 2007

O jongo tem uma força ancestral. Tem mandinga também, senti ela na minha pele, na minha nuca arrepiada. Senti aquela força negra correndo dentro de mim e quando um dos dançarinos me pegou pela mão e disse " você vai dançar comigo, na roda", eu não tive medo. Não tive medo de dançar errado porque eu não sou jongueira, posso errar. Não tive medo de embolar lá dentro porque é uma outra vibração, não o batuque de candomblé nem de umbanda. É jongo. Outra coisa. Outra força. Ainda africana, ainda negra, mas é diferente.
Existem regras para dançar o jongo. Não se entra na roda com cigarro ou bebida. Não se dança com gente do mesmo sexo. E sempre se pede licença, substituindo , no meu caso, a mulher que dança e bailando. Meu par entrou primeiro e eu tive que esperar aquele tempinho dele com a moça.
Aí eu entrei.
Quando pisei lá no meio da roda, uma coisa aconteceu comigo. Meus panos que eu carregava nos ombros, não eram somente meus panos, meus xales. Parecia que todas as mulheres que existiam em mim vieram dançar ali. Uma felicidade por ser mulher e estar de saia, ouvindo aqueles tambores e as vozes que vinham lá de longe. Enquanto eu olhava no olho do moço que me chamou, havia uma liga ali, uma liga que era muito mais antiga que eu ou que ele. Uma laço, uma trama. Não havia nenhuma conotação erótica, mas havia poder. Outro homem veio substituir meu antigo par. Um negro cheio de ginga e malícia. Sentia minha espinha queimar, meus bicos dos seios arrepiados, a mão agarrada na saia, as pernas quentes e, escorrendo de mim, o lixo velho.
Eu sorria, eu sorria com o corpo todo e um pedaço meu, aquele pedaço negro e africano, estava feliz. Meu passado sorria. Os orixás que carrego na alma sorriam. A África em mim sorria.
Jongo é mandigueiro. Isso eu senti.
Mexeu comigo.
Minha sensibilidade aumentando sem parar. E daqueles que estavam comigo.
Recebi o abraço mais profundo que alguém pode receber. Meu peito no peito. Meu coração no coração. Lá longe os tambores soavam e parecia que batiam dentro da gente. Ouvi o amor passando de mim. Ouvi o outro amor me responder. As vozes mandinguentas sobre nossas cabeças. Não, eu não vou te deixar, prometo. Não te deixarei só, nem ficarei longe. A promessa.
Senti amor em minha volta e eu ainda posso sentir ele aqui, dentro de mim.

A amiga que me levou precisava de mim. Minha mão em suas costas e eu olho por sobre seu olho.
Eu estou aqui, minha querida, eu estou aqui.
Danço por mim e por você.
Danço girando na saia, mandando pra longe aquilo que não é mais desse tempo.
Eu liberto.
Eu, liberta.

Ontem eu dancei em uma roda de jongo e vi a mandinga escondida ali. Não sei que nome dar, não sei onde é firmado, não sei qual é o preceito, mas sei que é antigo e forte.
Ontem eu dancei em uma roda de jongo e vi o sol nascer ao lado da fogueira, cheia de gente dançando ainda, vozes cantando. Do meu lado direito e do meu lado esquerdo, dois amores. Abraçados, nós três, em uma onda de afeto e carinho, eu vi o jongo acabar quando o céu clareou e fechou-se a festa.
Ontem dancei em uma roda de jongo e alguma coisa mudou em mim.
Mandinga de jongo. Me pegou.

Um comentário:

silvia disse...

que lindo isso tudo que voce sentiu...tua sensibilidade é forte.. a vibração, a força do jongo voce sentiu e permitiu..deu de presente para as mulheres que habitam em voce...os tambores afastam vibrações negativas...pena que para a maioria das pessoas essa cultura não tem valor nenhum....