sexta-feira, 11 de maio de 2007

A sementinha

Ontem foi um dia que eu estava a flor da pele. Já me conheço, sei que de tempos em tempos, dependendo das oscilações hormonais, eu fico ou uma louca enfurecida ou uma manteiga derretida. Pois ontem eu era um pote de meio litro de manteiga de garrafa.
Tudo sinto, tudo percebo, tudo dói em mim.

Fui atender uma mãe que queria fazer um plano de saúde para seu filho. Pergunto as questões de praxe, se a criança tem algum problema específico. Ela me responde " sim, paralisia cerebral".
Continuei falando do plano, orientando o que tinha que fazer, até o momento que comecei a conversar com ela, conversar mesmo, perguntar dela, da históira dela.
E aí começou.
Nasceu daquele jeito, um vírus desencadeou aquela paralisia, ele nunca vai andar, sentar, falar, como uma criança normal. Nove anos. Nove anos cuidando de seu filho, parou de trabalhar, de estudar, vive para ele.
E ele te entende?
"Perfeitamente. Me responde, sorri, conversamos, do nosso jeito, mas conmversamos".
E o olhar daquela mãe. Aquele olhar de tristeza perpétua que me quebrava por dentro, a pergunta que me fez pensar junto com ela.
" Por que Deus não levou no dia que nesceu? POr que ele vingou dessa forma e tem essa vida? Eu não sei dizer. Tanto sofrimento em um corpinho tão pequeno. Ele já passou por tanta coisa, tanta dor"
Eu olhava para ela e entendia o que se passava no seu coração. Doía nela e doía em mim. Eu, mãe também, sentia as perguntas alfinetando a mente.
Pensava que alma era essa aprisionada naquele corpo todo estrupiado? Que relação era? Um ser que dependia totalmente de uma pessoa, o filho. E a mãe que parou a vida somente para cuidar daquele ser . Que relação forte e dolorida era essa? Que amor era esse? Que sina triste, que resgate!
" Quer dar um alô para ele?"
E eu fui. Entrei no quatro pobrezinho, um berço acolhia ele. Uma coisinha de gente, as perninhas que era finas como pernas de passarinho, os braços retorcidos, os punhos minúsculos, os dedos fora de ordem, magro, magro como a fome do mundo. E os olhos. Aqueles olhos me pegaram de um jeito. Olhos que olhavam dentro de minha alma, lá no fundo.
"Oi", disse eu.
E ele abriu um sorrizão, um sorrizão que mostrava uma boca sem nenhum dente, mas cheio de felicidade mesmo por ter alguém que estava ali, visitando ele, falando com ele.
Chego pertinho, passo a mão nos seus braços, um tipo de carinho. Ele me olha ainda mais. Ele era uma mudinha de planta que se atrofiou, uma coisinha verde e jovem que crescia tortinha e com dificuldade. Ele era um tipo de milagre da sobrevivência. E o milagre sorria para mim.
E aí a coisa toda me pegou.
Fui sendo tomada por uma emoção tão forte, tão forte, meus olhos ardendo por dentro, meu rosto impassível por fora.
A mãe alizando o filho, palavras mornas e cheias de amor.
Eu ali, vendo aquilo.
Amor.
Amor por todos os lados.
Sofrimento e amor.
Tanto, tanto que eu sentia tudo em mim. Sentia o amor deles passeando por cima de minha cabeça, sentia a dor dele, a dor de estar preso em um corpo, a dor dela, a tristeza dela que doía em meu coração de mãe. A falta de esperança. A resignação de quem não tem outra opção. A dor de ter que aceitar, de qualquer jeito. Aprender a ler uma alma pelos mínimos detalhes. E aquele laço invisível que unia os dois. Ali, bem diante do meu rosto, um nó que amarrava os destinos.
E eu saí cambaleando para o carro, segurando com toda a força que me restava o jorro de lágrima que queria sair de mim.
Quando virei a esquina, parei o carro, agarrada ao volante e chorei.
Chorei por todas as mães que carregam os filhos no colo pelo resto da vida, chorei pelas crianças que não brinca na rua, chorei pela moça que sofre a dor de amor sem volta, chorei pelo amigo que se apavora e fecha as portas , chorei de felicidade por meus filhos serem saudáveis, chorei pela nova alma que eu peguei no colo naquela manhã e que era saudável e forte. Chorei a dor de todo mundo. A minha dor nem eu sabia qual era. Nem tinha nada para chorar, nada que fosse meu, que valesse a pena lavar com água e sal. Dianta daquilo que eu vi, minhas dores eram tão insignificantes que senti vergonha de um dia ter chorado em vão.
E aquele menininho não me saiu da cabeça por muito tempo.
Voltarei lá. Voltarei com meu violão e meus livros. Voltarei para contar para ele histórias que invento na hora, histórias de dragões e magos, de torres e calabouços, histórias onde a magia existe solta e transforma tudo e todos. Voltarei com minhas canções, minha música, voltarei menestrel e manbembe. Sem roupas fechadas, sem salto alto, sem pastinha e sem vergonha. Voltarei levando de baixo do braço fantasia e encanto. Quem sabe ele se vê cavaleiro, quem sabe se vê dragão e sai voando por sobre os muros, conhecendo o mundo. Quem sabe eu posso lhe emprestarum tapete mágico e lhe contar mil e umas histórias? Quem sabe?
Volto lá, eu me prometi isso.
Volto lá e levo para ele um pouco de encantamento.
E quem sabe aprendo uma lição importante olhando fundo daqueles olhos, aqueles olhos que foram uma chave do meu alçapão. Abriu meu peito e eu não consigo fechar.
Ando pelas ruas com o peito escancarado e os olhos úmidos.
E minhas mãos precisam se ocupar em distribuir sonhos.
Urgentemente.

11 comentários:

Ronaldo Faria disse...

Você é linda...
Cuide-se! Por si e pelos outros.
Ronaldo Faria

mau disse...

tolo daquele que pensa que pode mensurar o tamanho do coração

_ll_

claudia lyra disse...

Ah, Tatiana... nem precisa estar "alterada por hormônios" pra se emocionar com uma coisa dessas. Pra variar, estou chorando, né? É um mundo tão injusto...

Perla disse...

Eu tbm choro agora... Volta lá mesmo e conta depois do sorriso dele...
Abraço

Vivien disse...

Nossa, esse texto me pegou de jeito. Mesmo. Tá muito forte, tô aqui pensando neles.
Vai cantar pra ele , Tati, vai sim. Vai fazer diferença.beijos.

Menina Eva disse...

Distribuir sonhos. Eu também, eu também preciso.

Adriana disse...

Valente Guerreira, deixo correr solto a emoçao, as palavras sobram neste momento...mais uma vez provoste atraves deste post o apelido que eu uso para ti: Valente Geurreira...
Beijos carinhosos do outro lado do oceano

Tatiana disse...

Gente,
Essa situação mexeu comigo d euma forma intensa. Talvez seja a proximidade do dia das mães, talvez seja essa Lua azul que se aproxima e que deixa todo mundo mais sensível.
Mas que eu fiquei completamente torta, fiquei.

Anônimo disse...

Volte sim. Se é pra contar aqui ou não, não importa tanto, mas volte a ver esses dois seres amarrados pelo destino, pelo sofrimento e pelo amor. Ah! pelo amor... Beijo. Ávida H.

Anônimo disse...

A vida são curvas e tarefas. Mas algumas vezes são momentos de luz. Num dia de Cigarra,volte lá, cante, conte e deixe ser levada pelo olhar dele. Vai ser um momento de luz a mais numa vida que terá poucos.

sonekka disse...

Volta e meia a vida vai te pregar essas peças. Cada hora dessas, vc vai virar as costas pra ir embora e vaio perceber que ja não é mais a pessoa que era um instante antes.
Mas isso é só para os que sabem entender a mutabilidade de qualquer ser.
acho que vc sabe