sábado, 5 de maio de 2007

Entre os mundos

É na madrugada que os sentidos despertam, como flores que só abrem durante a noite.
Meus sentidos todos perfumam. Arreganham-se. Despetalam pudores.
Meus ouvidos percebem cada ritmo, cada tilintar. O sangue correndo nas veia é ouvido. O coração bate. Tum, tum. Tum tum. Tem um vento raspando a janela. Alguém corre, com pressa de voltar para casa. Uma buzina. O chiado da tv hipnotiza. Ouço um pelo se levantar. Um suspiro. Gritos. Gemidos. Todos os sons boiam sobre mim e eu poderia pegá-los com as mãos, mas não faço e eles despencam em minha volta, como chuva de papel. Meu chão coberto de notas quebradas, mil tons aos meus pés. Eu poderia chutar sons e fazer uma sinfonia.
Não existe escuridão para meus olhos. As sombras são vagas lembranças da realidade, mas estão ali. A forma, o jeito, as curvas, aquela suave depressão onde eu consigo me encaixar, um vale e montanhas. Cada escuridão é um espaço que eu abraço com pernas e braços. Meu ventre é um vão que anseia, pede preenchimento e conquista. Minha língua é serpente que tem olhos no couro.
Os cheiros e gostos são quase um só. Cheiro salgado. Gosto de mar na boca. Saliva e manhã. Suor que não rompeu a flor da pele. Sexo. Esse cheiro grudado no nariz. Esse perfume que me deixa ainda mais tonta. Roda o mundo em minha volta e eu me agarro nos lençóis. tenho medo de cair, outra vez, na realidade. Passeio em um jardim de flores exóticas. Flores que nascem em gente, nascem da carne, brotam da alma. Meus braços arranhados pelos espinhos, mas a pele encharcada pelos odores.
Meu corpo todo sente. Minhas mãos sentem. Minhas costas lenhadas sentem. Minhas pernas que tremem sentem. Meus dedos sentem. Meu pescoço é um pobre torturado e meus dentes, o machado que cheira a sândalo. Tudo é sentido. Tudo é percebido. Meu cabelo, matéria morta, é exigido ter sensação. Puxados. Esticados. Até eles sentem.
Sensação de loucura.
Perda de controle.
Desvario.
Tremores. Uma atrás do outro.
Quando menos se espera, uma queda no meio do nada para subir outra vez mais adiante.
Um carrocel de cor, dor, cheiro, peso, líquido, medo, ânsia, querência, saudade e anseio.
Um riso brincando no quintal de minha alma. Solto. Leve. Meu riso mexe com as águas paradas de meu ser mulher. Brincadeira de criança.
Meus peitos livres agradecem.
Minhas ancas cansadas, gemem e agradecem.
Meus olhos pesados.
Minha mão vasculha ao lado. Outro mundo.
Um carinho nos pés que dormem, dolentes. Um quente na noite fria.
Um dedo enrolando um cacho perdido.
Uma manhã espartana invade o quarto e sacode para longe a madrugada.
Um sol pedindo perdão por ser mais um a invadir meu sonho.
Não sei se foi delírio ou somente desejo. Não sei se estive com Morpheus, meu melhor amante. Não sei se estive nos braços da Mãe Loucura, se fui no Reino das Fadas Indecentes, se estive entre os mundos. A mente entorpecida de álcool e desejo não é confiável e minha memória é a da pele.
Mas a marca na minha carne é um mistério e o sorriso no meu lábio é meio estúpido.
Terá sido um anjo?
Um deus?
Um pequeno demônio pagão?
Um guerreiro ou um poeta?
Não sei.
E, confesso, agora isso não me importa.

7 comentários:

LIRIS LETIERES disse...

deu.

Marcos disse...

Tanto tempo sem vir aqui, não pude deixar de ler até onde já havia lido. Deu uma alegria estranha, alegria de orgulho como quando vemos um filho, um grande amigo, um irmão, ou alguém de nossa mais querida intimidade fazer sucesso, quando li seus posts sobre o show no Cabaré. Muito legal! Parabéns!
E esse último, primoroso.

Tatiana disse...

Marcos,
Esse teu comentário foi tão cheio de ternura que me emocionou.
Obrigada, viu?

Tatiana disse...

Liris,
Emprestei...

Anônimo disse...

Oi,
Venho, às vezes, por aqui e sempre me surpreendo com as variações dos textos. Alguns me fazem rir, outro me fazem chorar e outros, como esse me fazem pensar que tipo de mulher é esta que escreve assim, beirando um lirismo erótico, causando uma tipo de fascinação que é quase como de quem olha pelo buraco da fechadura.
Vir aqui é olhar para dentro da casa ao lado e se apaixonar pela moça do espelho.

Anônimo disse...

Querida,
Lindo isso.
Tá nas brumas do amor, é?
Que bom!
bj
Su

Anônimo disse...

Eita que a coisa tá ficando boa por estes lados...
Necessito dos detalher sórdidos e calientes...
Detesto quando você resolve ser sutil...