sábado, 24 de março de 2007

Por quê?

Ontem me perguntaram, durante o intervalo no bar, por que eu escrevia no blog e me expunha desta forma. Por que disso tudo? E perguntavam no mesmo intante que confessavam que estavam sempre aqui, averiguando a minha nudez descabida e revelada, olhando pela janela aberta do meu quarto-sentimento. Janela esta que eu mesma abri porque a escuridão me assusta e me agonia.

Aí eu digo que uma cantora que não se expôe, mente. Mente quando não tá ali, o peito arreganhado quando canta a dor que dói em toda a humanindade. Mente quando não é a sua dor que aflora no meio das notas, quando não futuca lá no fundo da alma aquela emoção que outro escreveu em canção.
Eu sou só exposição desde o instante que comecei a cantar porque não sei viver coberta.
Nem sei o que seria de mim se fosse obrigada a camuflar as minhas mazelas, meus pensamentos, se eu fosse obrigada a ter um véu no meu olho. O mistério não se faz em mim de forma explícita, mas quem sabe olhar, olhar mesmo, se depara com a porta fechada que toda pessoa tem na alma. Nem eu sei se devo abrir esta porta. Nem eu sei se posso abri-la. Só sei que tenho muitas portas veladas e isso não me incomoda.

Aqui, nesse espaço onde escrevo sem muitos pudores - digo "muitos pudores" porque ainda hoje tenho meus freios que seguram a porrada louca no poste, eu refreio aquilo que seria demais até para mim - quando eu estou aqui, eu estou nua diante de meu espelho do quarto.
Escrevo como se buscasse as respostas no barulho frenético do teclado, como se nas letras onde eu gravo minha história houvesse um enigma, uma senha que me leva pra dentro de mim mesma. O tec tec que ressoa no meu quarto é como uma pá que cavuca mais um pouco dentro, túnel cavado na rocha.
Eu, esfinge de mim.
Eu, terra semi-desbravada.
Eu, serra virgem que assusta.
A mim.

Minha casa, a casa da minha alma, tem portas fechadas e janelas abertas.
Tem um quintal repleto de flores lindas e ervas daninhas.
Tem um muro alto e cheios de buracos que vazam meus olhos e os dos outros.
Tem um porão que me aterroriza e que eu nunca desço lá.
Tem teias de aranhas antigas e grossas, que refletem o sol diário, matizes das cores do mundo nos fios velhos da velha amiga aranha.
Sou uma casa em visitação.
Mas tenho meus segredos, minhas passagens secretas, meus tesouros escondidos, meus fastasmas que arrastam as correntes e vagueiam em mim, meu assoalho tem as marcas dos pesados móveis do meu passado que já foram consumidos pela fogueira do tempo e só eu me lembro onde um dia eles estiveram.
Se abro as janelas é na intenção de afugentar os demônios que tem medo da luz.
Os meus demônios.
Quem sabe até os demônios daqueles que vêm até aqui procurando uma ressonância na alma, uma identificação entre minha dor, minha loucura, minha felicidade, minha paixão dolorida e, quem sabe, faça força nas portas e janelas destes que me visitam.
Mas isso não me importa em muita coisa.
Porque o que me importa é tentar entender e decifrar os mapas de minha casa.

Me mostro porque não me envergonho do que sou, nem do que sinto.
Me desnudo porque essa capa protetora é pesada, quente e hipócrita e me sufoca. Me angustia na mesma medida que me protege.
Mostro meu peito nú, as emoções que me corroem, os medos que não me deixa dormir, meus desejos de mulher, meu desvario porque não me envergonho deles.
E me mostro aqui porque tenho a convicção de que não me vêem, quando me olham nua na janela. Só vêem um vulto distante. Um espectro. Vêem somente o que reconhecem naquilo que já foi dado nome.
Sou a índia nua diante do olhar surpreso do português invasor.
Eu estou nua e você vestido. Eu não me incomodo com sua roupa. Sinto apenas uma certa piedade. Para mim andar assim é o normal. Para você se cobrir é indispensável.

Por que, em vez de me cobrir, você não se desnuda comigo?
Por quê?

13 comentários:

claudia lyra disse...

Escrever é mesmo libertador. O é pra mim. Quantas vezes estava angustiada e, ao escrever, senti todo o sentimento ruim saindo, como que por mágica. Nem sempre é assim, é claro.
Mas, ainda que sejamos claras em nossos textos, não há como nos deixar conhecer totalmente pelo blog. É só um pedaço da gente, só isso.

Fulana Gauche disse...

Há muitos porquês para esse querer transparente, penso... como me disseram recentemente, "baiano não nasce, estréia."

Apelo ao Gullar, que bem sabe a "definição da moça":
(...)
Como desnudá-la
quando está vestida
se está mais despida
do que quando nua?
(...)

CLICK disse...

E tem algo mais lindo no mundo que uma mulher....nua ?Continue assim...coisa rara !Saudade..Beijo !

Thelma disse...

Bonito e verdadeiro! Um abraço

Anônimo disse...

Tati murmura:
Decifra-me ou te devoro...
Bjs, nos olhos sem véus!
Liris

Tatiana disse...

Cláudia,
Eu acho que isso aqui serve de terapia. E não custa nada. Coitado dos psicólogos, mas a gente tem que se virar.

Tatiana disse...

Fulaninha,
Essa frase foi de matar um.
ADOREI.

Tatiana disse...

Fulaninha,
Essa frase foi de matar um.
ADOREI.

Tatiana disse...

Click,
Um homem nú, talvez???

Tatiana disse...

Líris,
NHOC!!

Tatiana disse...

Thelma,
Fui no teu blog!
Obrigada pela visita e venha mais vezes aqui.

Arnaldo disse...

Quem escreve e quem canta, sem dúvida se expõe, se desnuda, se mostra. Mas só mostra o que quer, o que consegue mostrar.

Ilude-se muito quem acha que te tem completamente nua, quando te lê, quando te ouve. A verdadeira nudez, a nudez total, a gente só revela pra gente mesmo. E olhe lá, nem sempre.

Vivien disse...

já me perguntaram isso tb...com tom de crítica.
Sei lá, só sei dizer que acho que não pirei totalmente por causa do blog.E isso só pode ser bom.;0)