quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Parir. Um ato natural e harmônico. Sei, sei...

Hoje resolvi contar como foi minha experiência de parto natural. Acho que esse assunto aí de baixo de ex-pai me fez relembrar esse momento, impossível de esquecer. Não concebo a possibilidade de virar uma ex-mãe depois de tudo que passei.

Eu tinha vinte e um anos, estava grávida do meu primeiro filho, morava em um prédio de três andares, sem elevador, sem telefone e tinha o péssimo hábito de brigar com o pai do meu filho.
Acordei naquela manhã putíssima, jurando que nunca mais em minha vida eu iria dizer bom dia para aquele ser abominável que eu chamava de marido.
Sentei, emburradíssima, barrigudíssima e tomei meu café da manhã sozinha, praguejando contra a natureza que deixava as mulheres daquele jeito e os homens podendo sair para trabalhar, sem pés inchados, dores nas costas. Mundo cão!
Lentamente elas começaram. Opa! Acho que, ou estou tendo contrações ou tendo o maior piriri de todos os tempos. Acompanhei no relógio os intervalos.
Bem, pensei, posso perfeitamente descer, pegar um taxi e ir para a maternidade. Eu também não vou avisar ninguém. Vou sozinha! Quando ele chegar à noite aqui em casa que deduza que fui ter neném.
E no instante que eu abro a porta para sair, uma amiga chega.
-Bem que eu desconfiei. A barriga estava baixa demais. Mas eu acho que temos tempo. São dez e meia da manhã, o trabalho de parto começou agora, põe o biquini e vamos na praia.
Tá certo. Tiro a roupa ponho o biquini, resolvo, sei lá porque, tomar um banho, e o jato da água nas costas me fazia um bem imenso. Fico lá. Só a parte de cima do biquini, a testa na parede do box, praticamente uma foca encalhada no banheiro.
A amiga acompanhando o tempo das contrações. Eram galopantes.
-É, acho que é melhor deixar a praia para depois. Vamos para maternidade, mas antes vamos pegar o pai.
-De jeio nenhum! Eu não to falando com ele! Ele que vá de ônibus!
Eu estava o cão.
Contra minha vontade, o pai foi avisado e eu fui, chateadíssima, com ele do meu lado. Na primeira tentativa de fazer massagem, eu berro:
-Agora não adianta vir alisando. Tá tudo doendo pra caralho e a culpa disso tudo é tuuuuuuua!!!
Não me toque! Não me toque nunca mais.
É. Eu estava um tantinho histérica.
Chegamos na maternidade pública onde eu era a única branca em trabalho de parto.
Eu chamava atenção pela roupa indiana branca transparente, usando somente o sutiã do biquini e por insistir que anotassem a hora exata do nascimento para que pudesse fazer o mapa astral.
Eu dizia para a enfermeira negra e gorda, uma cara de bondade que escorre:
-O primeiro eu até entendo. É ignorância. Mas o segundo já é burrice. Como é que essa mulheres tem mais de um filhooooooooooo????
-Fique tranquila, minha filha, na hora que nasce, Nossa Senhora passa a mão na tua testa e você esquece. Por isso que nós temos mais de um filho. Foi Nossa Senhora.
-Porra, Nossa Senhora, não podia passar a mão na barriga e passar a dor? Muito mais útil!!

Descobri que sei palavrões variadíssimos. Usei todos naquela tarde.

A sala de parto já estava cheia de estudantes que queriam ver a branca, esotérica e boca suja.
Um total de dezessete estudantes. Eu ora conversava na boa, ora mandava todo mundo tomar no cu.
Ouvi, assim, meio de passagem, fórceps.
-O quê? Ah, meu bem, aqui não entra mais nada. Só sai. Nem fodendo que tu mete um treco desses em mim.
-Maezinha, tu fica quieta aí que você não sabe de nada. Deixa eu trabalhar em paz.
-Tu é que vai ficar quieta aí, porque se chegar perto de mim com forceps eu te chuto a boca, eu te acerto a cara! Não conhece Noel Rosa? Tenho certeza que nã conhece, né? Viu como ele ficou? Eu quero ter filho com queixo, nada de forceps!

O barraco tava armado.
Uns estudantes concordavam com a residente, outros comigo. Uns achavam que eu tinha condições de machucar a médica, outros achavam que a médica podia se movimentar mais rápido e meter ferro em mim, querendo eu ou não. Afinal ela era a médica.
Eu berrava:
- Mas quem tá parindo sou eu, caralho! Sem forceps, putaquemepariu! Dor da porra!

E eu lá, deitada na maca, naquela posição vexatória, uma cadela raivosa rosnando pra todo o lado, querendo matar um, especialmente o pai do meu filho, que estava lá fora, certamente fumando e sem passar por nada daquilo.
Quando aparece o médico-mor, o todo poderoso da obstetrícia do hospital escola de Salvador. Uma cara amassada de quem acabou de ser acordado, um humor terrível também.
- Que porra é essa, minha gente? uma voz de barítono e fumante, com certeza.
Silêncio. Até eu fiquei quieta.
-Essa senhora se recusa a permitir o uso do fórceps - me deda a residente nojenta.
Ele olha para mim, eu olho para ele pensando: xi, agora fudeu.
-Mas veja se tem cabimento uma mulher deste tamanho parir com forceps. Sai pra lá, deixa que eu assumo. Tá comigo agora!

Eu, por cima do ombro do médico-mor, dizia pra médica-residente, um sorrisinho na boca:
-Viu? Eu não te disse? Não te disse?
Um olhar de seca pimenteira foi lançado em minha direção.
Roguei que Nossa Senhora mandasse de volta as vibrações negativas e que, se fosse possível, a médica escorregasse e caísse sentada naquele mesmo fórceps, para ela ver o que era bom pra tosse. Fórceps na xereca dos outros é suquinho, né, neném?

Instantes depois Lucas nascia de parto natural, dezessete alunos gritavam vivas, beijinhos na testa de um aluno muito simpático que ficou o tempo todo segurando minhas costas e dizendo:
-Mas, maezinha, olha só a confusão que você arrumou. Vamos ficar calminha pra ter nenem? Vamos? Você deve ser filha de Iansã, não é não? Não? Iemanjá? Cruzes, que Iemanjá mais braba que você tem!
Meio viadinho esse moço. E agradeço a ele do fundo do meu coração tudo que fez por mim.

Uma das alunas que assistia o parto pegou Lucas, logo depois que o pediatra liberou, meio que fugindo do protocolo, levou lá fora onde estavam todos os amigos, mostrou para o pai, para a avó, para todo mundo. Anotou direitinho a hora exata do nascimento, para o mapa astral, lógico, e me confessou que fazia tempo que a turma não se divertia tanto com um parto. E que ela tinha perdido uma grana porque tinha rolado um bolão na turma e ela tinha apostado que eu iria mesmo acertar o pé na boca da residente, detestada também pela turma. Perdeu, mas adorou o desfecho.
Quando eu pedi para sair antes do tempo da maternidade- a quantidade de baratas que andavam no banheiro durante a noite me repugnava um pouco - quase me agradeceram. Melhor eu ficar bem longe mesmo.
Lucas voltou para casa com impetigo, uma doença de pele causada por falta de higiene, com o apelido de Chico Bento porque uma menina de quinze anos que tinha tido gêmeos olhou para ele e disse: virge cruz, é tão cabeludo quanto o Chico Bento! Eu voltei feliz e muito, muito mais calma, até perdoei o pai por ele ter nascido e aprendi que parto natural é uma coisa muito diferente em cada mulher.
O meu foi um barraco só.
Inesquecível, pelo menos para mim.

17 comentários:

Adriana disse...

Tatiana, nao posso deixar de imaginar o barraco armado, e li e chorei de rir....nao das suas dores pois eu tive um filho com 16 anos sozinha, graças a Deus, sem uma merda de pai....e gritei como uma louca, pois a hija de uma grandissima puta que me fazia o parto me dizia, para fazer nao doeu ne? e eu naquele momento contraçao fodida respondi que sabes tu velha rabugenta, se nem um pinto provaste (era uma freira).....beijinhos do outro lado do oceano

Menina Eva disse...

Tati. EU tenho 21 anos. Ufff. Você é guerreira.

Vivien disse...

Tati, o nascimento do Daniel tb foi uma epopéia...
Essa história da Nossa Senhora acho super bonitinha, minha avó falava isso e ela deveria saber, teve nove filhos!beijos, querida.

Ronaldo Faria disse...

O meu Lucas foi de fórceps. Também me preocupei na hora, quando o médico o usou na minha ex-companheira. Mas deu tudo certo: ele não tem queixo de Noel. Beijos.
Ronaldo Faria
Ps.: O segundo foi de "quiabo", nem deu tempo de fazer a raspagem e eu quase não vejo ele nascer.

Ana Paula disse...

afff...
sabe q eu fiquei frustradésima de não ter conseguido parir naturalmente?
a marina se enroscou toda no cordão umbilical, na última hora eu tive q operar.

Tatiana disse...

Adriana,
hahah
Boa resposta, muito boa!

Tatiana disse...

Vivien,
Nove filhos??
Não era uma avó, era uma coelha!
Ou não tinha memória!
Ou era assim ó com a Nossa Senhora...

Tatiana disse...

Ronaldo,
Noel Rosa é um trauma difícil de superar.

Tatiana disse...

Ana,
Mas pariu do jeito que pode. É isso que importa!

Tatiana disse...

Menina Eva,
Hoje eu tenho noção de como eu era nova, ams na época, tudo me aprecia absolutamente natural e na hora certa.
Ainda bem. A ignorância pode ser uma benção!

Talita disse...

Minha mãe sempre conta que quando nasci foi tranqüilíssimo. O parto foi normal. Ela teve as primeiras contrações na madrugada do dia 14 de maio e eu só fui nascer às 16h do dia 15. Acho que ela mentiu um bocado. rs

Tatiana disse...

Talita,
Eu acho que é bem possível ter sido assim, na paz.
Eu é que estava com o ovo virado no dia do parto.
Mas a coisa boa é que meu filho nasceu tão tranquilo, não foi afetado pelo siricutico da mãe maluca.
Ainda bem. Imagina se ele mantem esse humor pelo resto da vida.
Eu tava frita!

Perla disse...

Esse deve ter sido o parto mais hilário deste hospital!kkk Mas parabéns pela força. Minha irmã tem gêmeos (não dava mesmo pra ser normal), mas na primeira contração q ela sentiu gritava: tira, tira. tira!!!

talita disse...

Tatiana... Não vou tentar imaginar como seria esse seu parto com contrações durante uma manhã inteirinha. (Mais um pedaço da tarde.) rs A sorte que minha mãe estava 'zen'. Já o meu pai, meteu o carro na contramão. Mas isso já é outra história. rs (Conheci o teu blog lá no da Carô. Identificação taurina... rs)

quina vida disse...

!uau

Anônimo disse...

Haha, ótimo o comentário da Adriana. O meu tb foi cesária, mas gostaria de ter normal. Aliás, dona Tati, você me contou esta tua história quando eu estava no sexto mês de gravidez...lembra? Morri de medo! Mas deu tudo certo!
beijos.
Má Franco

Clélia Riquino disse...

O nascimento da Cê foi tranqüilo & "normal" (= não cesária). Arnaldo estava comigo (só na hora dos pontos a obstetra pediu qu'ele saisse da sala, pra não precisar carregá-lo, caso desmaiasse!).

Rebento
Gilberto Gil


Rebento, substantivo abstrato
O ato, a criação, o seu momento
Como uma estrela nova e o seu barato
Que só Deus sabe lá no firmamento

Rebento, tudo que nasce é rebento
Tudo que brota, que vinga, que medra
Rebento raro como flor na pedra
Rebento farto como trigo ao vento

Outras vezes rebento simplesmente
No presente do indicativo
Como a corrente de um cão furioso
Como as mãos de um lavrador ativo
Às vezes mesmo perigosamente
Como acidente em forno radioativo
Às vezes só porque fico nervoso, rebento
Às vezes somente porque estou vivo
Rebento, a reação imediata
A cada sensação de abatimento
Rebento, o coração dizendo "bata"
A cada bofetão do sofrimento
Rebento, esse trovão dentro da mata
E a imensidão do som
E a imensidão do som desse momento

bjo,
Clé