quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Sobre o show

O Teatro Tim é um teatro novo, sem cheiro de ácaro e sem fantasmas vagando pelos corredores. Toda vez que entro en teatros, pelas coxias, pelas internas, sinto a presença dos espíritos teatrais. Ali não tinha nenhum assim tão forte que me chamasse a atenção.

Tínhamos dois camarins que dividiam um banheiro e que possuíam uma ligação entre si. Era para eu ficar em um e os meninos da banda em outro, mas eu não consigo ficar ali, isolada, sem meus meninos.
Então era uma confusão de maquiagem, vestido da cantora, camisa de músico, salto alto e tênis, toalhas e saboneteras sendo emprestada. Aquela eletricidade antes do show.
Muitas sacanagens internas, piadas, gozações, aquelas brincadeiras que a banda faz entre si. Um tipo de cumplicidade que só rola entre músicos, uma delícia de relação. Eu sempre digo que o que rola entre músicos, durante uma apresentação, é um tipo de intimidade que não existe outra igual. Uma sintonia muito louca, muito especial, muito específica.
Ouvimos o primeiro sinal.
Chegava a hora.
Os músicos prontos, sentados esperando a hora de entrar, aquecimento de mãos e corpo, eu olho para eles e digo:
- Eu entro confiante, sabendo que posso contar com vocês. Estou traqüila e isso é raro e é bom.
Vocês estão comigo.

Um abraço de oito braços, uma reza espontânea, um laço sendo fechado em nossa volta.

Quando se entra no palco, as luzes na cara, a primeira visão da platéia é turva, muita luz sobre a escuridão das cadeiras. Mas conforme os olhos acostumam, dá pra ver os rostos, alguns conhecidos, as primeiras cadeiras são iluminadas e a gente vê quem tá ali.
Vi alguns amigos queridos e isso me aqueceu o peito.
Na primeira fila, no gargarejo mesmo, meu parceiro Bruno Ribeiro. Vê-lo ali foi como ver um porto depois de uma longa viagem. Cantar a nossa canção pela primeira vez no palco foi especial. Conforme as canções passavam, eu ia passando de um estado emocional para outro. Uma canção - Caixas lacradas - quase me derruba e eu sinto dificuldade de voltar ao normal, como se tivesse aberto uma porta em mim e que eu poderia chorar ali, na frente de todo mundo, assim, despudoradamente. Pular de uma emoção para outra me exaure. Preciso controlar a minha emoção antes que ela me domine e eu perca o controle.
Sou excessiva e tenho que saber me segurar no palco.
Disso eu sei. Canto uma canção nova, fala de tempestades e vendaval. Invoco o poder de Iansã, a deusa guerreira da África. Um frio me passeia na coluna e sinto sua presença. Eparrêi, Iansã. Sua força entrando em mim. Eu sinto. Uma eletrecidade. Um excitação. Tem mais gente no palco, além de nós. O Invisível se faz presente. Minha vela no camarim treme. Eu sinto.
MAGIA.
A banda sorri comigo.
Os olhos me olhando.
Eu, cigarra.
O show acabando. Meu medo de esquecer de agradecer a alguém , ou de trocar os nomes dos músicos, eu sou bem capaz de fazer isso.
- E no baixo, Alexandre!
Que Alexandre?
Sei lá. Às vezes sai um nome de minha boca que eu nem faço idéia de como entrou.
Então eu repetia mentalmente:
João Paulo, João Paulo, Ugo e Bruno!
Minha cabeça rodando, minhas pernas suadas por debaixo do vestido negro, meus olhos buscando os olhos dos músicos, relaxem, divirtam-se, isso aqui é festa, meus queridos. Ao rostos aparecendo na escuridão. Um cara que ressonava na cadeira e a mulher futucando as suas costelas e eu rindo dele. Vozes conhecidas gritando da platéia e eu não achava os donos da voz. Eu errando as minhas próprias letras. Sempre reinventando as minhas letras. E as dos parceiros também. Perdão, eu peço, mas minha cabeça é um mistério. Meus parceiros ausentes, cantei para vocês. Meus filhos ausentes, que saudade, porra! O show vai acabar. Meu peito tá vazio, mas tá feliz. Deixei tudo ali, a tensão, a tristeza, meu delírio ali, vejo Gustavão, meu irmão, emociono mais uma vez, olho para o Bruno sentado em sua percussão e ele é força e ternura, puxa, como eu gosto desse cara! O Ugo ao meu lado, todo descabelado como eu, todo feliz por está ali, sua energia entra em mim e eu gosto. João Paulo estreiando naquele momento. Vejo sua concentração, seu empenho, tão elegante, um Xangô de responsa.
Percebo ali que estou rodeada por um Oxossi, um Ogum e um Xangô. Tô bem servida.
Final.
Uma felicidade imensa.
Os meninos ao meu lado, sozinha eu não sou ninguém, o som das mãos batendo limpam para longe qualquer vestígio, as palmas limpam o ar do teatro e os espíritos dali sorriem para mim.
Fechou a cortina invisível e eu voltei a ser mortal outra vez.
Acordo e recolho o lixo, voltei a ser mulher, penso na minha conta estourada, agradeço a invenção do cheque especial, meu cigarro está acabando, bosta, tenho que voltar a vida, fazer mercado antes que Matheus volte, os pneus estão carecas demais e cadê dinheiro?
É.
Fecharam-se as cortinas mesmo.

12 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Eu senti essa oscilação de emoção e concentração. Isso é que faz um show ficar mais humano!

Ah, e olha:

"O Ugo ao meu aldo" é ótimo, hahaha!

Tatiana disse...

Ha ha ha
Corrigi, corrigi!!
Bem, eu sou humaníssima.

Anônimo disse...

Tati, não pude ir, mas meu coração esteve lá o tempo todo.
beijos.
Má F.

Clélia Riquino disse...

Sem ir, pude, lendo seu relato, visualizar como foi...
bjo

Tatiana disse...

marina, vc estava ali também como parceira porque cantei nossa canção!!!!

Anônimo disse...

Tati,
Também estive lá, na torcida, em pensamento. Aliás, Lud e Nina também.
beijo grande,
Lélis

Ricardo Maciel disse...

Esse show foi realmente um show! E acho que talvez "Caixas Lacradas" e "Negros Olhos" tenham sido os melhores momentos. O entrosamento de vocês também estava visível. Vira e mexe eu olhava pra namorada e dizia: "Fica olhando, daqui a pouco ela se descabela, interpretando as letras com força! E isso faz tudo ficar mais interessante e mais bonito!" E ela concorda. Parabéns, Tati! O próximo por favor! Beijo do "rooooodie" (hahaha) Ricardo

Tom disse...

Não vi o show mas o texto deste post é comovente. Acho que tem um outro show feito em vários atos e que dura a vida toda que vai fazendo um sentido no final, com uns momentos mais dançantes e outros mais introspectivos. O pneu careca pode ser prosaico quando nos leva um supermercado, mas pode ser poético quando leva uma trupe para uma montagem de uma peça no meio do povo na praça. É o olhar do expectador que dá o tom.

Claudia Lyra disse...

Que legal! Deu tudo super certo, né? Como só poderia ser, na verdade, porque a torcida de todo mundo era grande. E, pelo jeito, se decidiu por ir vestida de preto mais uma vez, hahahahaha... não tem jeito, preto é básico.

Vivien disse...

O Texto está muito bonito, carregado de emoção. Vcs tocando juntos tem essa liga, essa coisa que dificil de descrever. Vibram na mesma sintonia? talvez seja isso. É BOM DEMAIS.parabéns!!!!

Anônimo disse...

Parabéns pela descrição aqui em seu blog e parabéns pelo show!!!

quina vida disse...

parabéns tatiana. delícia de sensibilidade, e de relatar estes momentos