segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

O que rola aqui em mim

Meus amigos, tanto me emociona saber que acompanham as minhas mazelas rabiscadas aqui, que se preocupam, ligam para mim, mandam recados por e-mail, pelo msn, mas eu juro a vocês, eu to bem!
Não to na merda, não to caindo bêbada pelos cantos, não tô fazendo sexo com desconhecidos, não tô fumando maconha, não to procurando anões besuntados de manteiga e nem passando a mão na bunda do padre! Não como coco nem rasgo dinheiro. Ou seja, to até bem normal.
Eu só estou sendo honesta comigo. Uma honestidade absoluta porque não quero viver presa na minha sombra, não quero viver enganada, equivocada. Não quero viver hiena, rindo da prórpia desgraça, achando tudo bom, tudo lindo se isso não for realmente de verdade.
Estou na eminência de fazer quarenta anos e isso é um marco. Não tem nada a ver em crise de idade, não to pirando com nada disso! Mas os meus quarenta me obrigam a olhar para a vida, diferente dos trinta que me obrigava a olhar para mim, para dentro de mim. Eu agora olha para a vida e penso: o que que eu quero dessa vida que tá se mostrando agora? O que tem em mim que pode ser vivido de verdade? O que eu não quero dessa vida? O que eu não quero de mim?
E isso é maravilhoso porque eu to a fim disso, to a fim de ver meu quilate, de colocar meu peso na balança e bancar o preço.
É claro que uma mulher que viveu as coisas que eu vivi, porque eu vivo mesmo, se fode toda, me estaboca no chão, sai toda ralada, assoprando os joelhos, lágrimas nos olhos, mas eu vivo esta
minha vida assim porque eu quero! Porque não quero ser covarde, fechar as minhas portas e janelas. Eu quero sim a luz que arromba a noite, quero a paixão nas madrugadas, quero as pernas bambas, que o dedo sangrando na corda do violão, quero chorar ainda mais, to cagando e andando se eu vou sofrer mais uma vez, se doeu, porque eu quero viver e vivendo a gente sofre mesmo! E eu vivo! Vivo tudo o que posso, entrego meu coração na bandeja se for preciso, se jogam meu coração por alto, eu saio correndo atrás dele, sacudo o coitadinho, tiro a sujeira e meto outra vez no peito. Meu coração é forte, agora tá meio estrupiado, mas ele vai se recuperar porque o tempo cura tudo e eu tenho todo o resto de minha vida pra me curar.
Pra eu ir pra frente eu preciso olhar para trás. Preciso saber que caminho trilhei, preciso ver o que ando carregando comigo, preciso largar, deixar, soltar. E para isso eu preciso pensar seriamente sobre mim e sobre o que eu quero.
Por isso eu não to mal. To bem. Mas to no trabalho da minha alma, to aqui futucando as minhas casquinhas, passando pomadinha, rindo também de mim porque eu sei rir de mim.
Eu to aprendendo a ser uma pessoa melhor.
Eu descobri coisas terríveis de mim. Eu posso ser muito cruel, se eu quiser e posso fazer isso sem ninguém perceber que sou cruel.
E eu lá quero ser cruel? Claro que não! Então pego a minha crueldade, jogo ela na bacia, esfrego, esfrego, meto água sanitária, amaciante e o escambau até ela virar uma maldadezinha boba, penduro no varal e deixo que o sol alveje ainda mais. Mas eu tenho que saber que tem crueldade em mim. Tô olhando no olho da crueldade e dizendo filha da puta você não vai me pegar não porque eu não te quero, não preciso de você. E ela me olha duro de volta e eu enfrento esse olhar de aço.
To olhando no olho da tristeza e dizendo, minha querida, deita aqui no meu colinho, tó um cafuné, mas se transforme logo em lembrança, em saudade, em ternura porque você pesa em minhas costas e eu já carrego tantas coisas que fica mais difícil com você em mim. E tristeza chora no meu colo, abraçada comigo, nós duas chorando mansamente.
Eu vejo a dureza em mim, vejo a teimosia, a falta de piedade pelos fracos de alma, o desprezo, a minha capacidade de matar pessoas inteirinhas dentro de mim é realmente impressionante. Eu sou uma assassina de gente que vive me mim. Mato, pico em pedacinhos, salgo, cuspo e ainda mijo em cima. E depois vou ao cinema.
E ainda posso rogar pragas medonhas. Hemorróidas eternas. Coceiras nas partes pudentas. Um amor que jamais aconteça. Uma lombriga. Uma sogra demoníaca. Um vizinho pagodeiro. Um cachorro que trepa nas pernas das pessoas. Uma espinha dentro do nariz. Um bar que nunca mais entre uma única pessoa. Um saudade de nem sei o que.
É, eu posso fazer essas coisas. Terrível isso.
Mas como ser uma pessoa melhor se eu não souber quem eu sou?
É isso que eu to fazendo. To sabendo de mim.
Pode ser chocante, pode ser menos divertido de ler, pode não alegrar os dias de quem vem aqui, mas sou eu, agora. Assim.
E eu agora to na beira do precipício, trovoadas nos céus, meu corpo todo treme, eu tenho medo, eu balanço, posso cair a qualquer momento, minhas roupas molhadas coladas na pele, meus braços abertos para a tormenta, lá embaixo o mar escuro espanca as pedras, jorram ondas imensas e aterradoras que salgam meu rosto, misturando os meus sais, meus ouvidos cansados pelo estrondo, um sorriso nos lábios roxos de frio e eu grito, grito e grito mais alto que eu posso, grito para me fazer ouvir, para que a tormenta me ouça, para que a tormenta me cale, me canse, para que eu seja mais forte que a tempestade lá no céu, porque toda tempestade acaba e eu sei que fico aqui, olhando o céu clarear. Porque todo céu um dia clareia e eu hei de ver isso acontecer.
Talvez um imenso pássaro passe por cima de mim e me agarre com suas unhas e me leve para longe, por cima das nuvens cinzas.
Talvez eu caia lentamente, aquele frio na barriga.
Talvez eu finque meus pés na terra e olhe o horizonte mais uma vez.
Ou talvez eu aprenda a voar.
Não importa. Para mim não importa.
O que eu quero é viver.
Então, meus amigos, não se preocupem comigo. Eu só to aprendendo a viver com essa nova mulher que nasce em mim.
Só isso.

6 comentários:

Vivien disse...

minha querida: me identifiquei total.;0)

Arnaldo disse...

Não, menina. Você não está deprimida não. Apenas está um pouco melancólica e isso não é de todo ruim. Está assustada com essa coisa de fazer 40 anos mas isso é uma delícia. Acredite. Aconteceu comigo há 6 anos e foi uma sensação prazerosa. Aliás, tem sido bom desde então. É claro que algumas coisas pioram. As pernas doem, o corpo cansa. Mas isso dá pra tirar de letra. A gente aprende a se adaptar, a andar mais devagar, a trepar de ladinho. A gente percebe que é mais dono da gente mesmo, que não tem que ficar dando tanta satisfação pra mais ninguém, que pode pensar o que quiser, já que falar o que queremos, já falamos há muito tempo. E pensar mais livremente é um barato. É quando a gente não precisa mais parecer engraçado ou inteligente ou interessante. É o momento de ser engraçado, inteligente e interessante sem ter que se preocupar em mostrar isso pro mundo. A gente já está mostrando isso pra gente e isso basta. Curta os 40 e mais que isso, usufrua desse prazer. Bem vinda à verdadeira liberdade.

Mamy disse...

Poxa, Tatiana... parece que você entrou na minha cabeça e viu o que se passa lá dentro. Pelo menos sei que não estou sozinha nesse sentimento doido de ver que os anos passam e que a gente não tem mais tempo a perder com firulas.

Tatiana disse...

Arnaldo,
eu não estou assustada com os 40. To na paz. Eu me assutei com os 30 que foi osso duro de roer, as os qaurebtas estão me fazendo refletir, falta quase meio ano, só faço em abril, mas já to preparabdo a casa para a festa que vai aocntecer em mim.
To reflexiva.
Sim, talvez um tanto melancólica, mas melancolia boa.

Agora...trepar de ladinho, meu filho, trepar de ladinho foi foda!
Isso dá medo dos quarenta anos!!!Nunca tinha pensado nisso.
Trepar de ladinho. Que coisa, hein?

arnaldo disse...

Tatiana,

Trepar de ladinho é muito bom, menina. É uma delícia. E não precisa ter 40 anos pra fazer isso não. Dá pra fazer com 20. Basta saber apreciar o calor do corpo. Aquela posição colherinha, sabe como é? Gostoso pra trepar, gostoso pra dormir abraçadinho...

Gika disse...

Tati, fazer 40 anos é realmente um marco. Uma mudança.
Dizem que a vida começa aos 40, e eu to chegando a conclusão que é verdade. Pq até os 40 a gente aprende, se arrebenta, cai, levanta, grita, esperneia, alopra e por aí vai...depois disso vem essa limpesa de alma, pq é preciso olhar dentro da gente, tirar o que faz mal, lapidar o que temos de melhor. Dói pra caralho! Mas resolver é preciso. Esse olhar pra dentro e exorcisar os vampiros só faz bem...Seu texto ta lindo e me exerguei muito nele. Já passei dos 40, agora to na fase de curtir o que sobrou dessa faxina, e posso te garantir. É muito bom!! Bons ventos vem por aí viu!
Beijo grande!