domingo, 12 de novembro de 2006

Generosidade

As pessoas já tinham ido embora e eu arrumava a casa, recolhia latinhas, varria o chão, quando meus cachorros começaram a latir muito. Fui dar uma conferida e vi uma figura conhecida catando coisas pela calçada. Eram mais de duas da manhã e, mesmo assim, quando me viu, veio falar comigo.
Uma bichinha paupérrima, sem três dentes na frente, uma sacola imensa cheia de traqueiras catadas na rua. Aquela ansiedade de quem não sabe como vai ser tratado, aquele nervoso. Nós já tínhamos nos encontrados algumas vezes e ele veio todo animadinho, saltitando como um bambi.
-Ô, minha querida. Tô morta de sede. Me dê um pouco de água. - E me estendeu uma garrafa de coca-cola para que eu enchesse.

Os cachorros queriam matar a pobre bicha e eu saí rápido para resolver logo o assunto.
Mas aproveitei coloquei umas esfihas, uns quitutes, fiz um saquinho e ainda coloquei dois cigarros porque sei que a bichinha fuma.

Quando ela viu o pacotinho que eu tinha feito me olhou de um jeito e perguntou:

-Qual é o número de seus sapatos?
- 38 ou 39, depende da forma.
-Então perái que eu vou te dar um presente.

E voltou todo serelepe para seu imenso saco de bugingangas e tirou uma sandália plataforma usada, jogou por cima do muro e me disse:

-Pra você, poderosa!

E foi cantando pela rua, fumando um cigarrinho enquanto eu segurava duas sandálias velhas e fedorentas, com os olhos cheios de lágrimas.
Por que eu sei que quem dá quando não tem quase nada, dá muito mais do que quem dá quando tem tudo.
Isso é generosidade.

5 comentários:

Ronaldo Faria disse...

Concordo plenamente sobre a generosidade. Saudades da suas visitas. E olha que eu voltei muito por tua causa. Se cuide.
Ronaldo Faria

Vanessa disse...

Esse blog tá incrível!!! Adorei as entrevistas, adorei tudo :-)

beijos e sucesso!!!

quina vida disse...

uau!

Gika disse...

ai ai...chorei...rs.

Mamy disse...

É verdade... esse caso só mostra que não há desculpa pra não sermos generosos, não é? A generosidade não depende de quanto a gente tem e, sim, de quanto a gente sente.